Zoeira telefônica no Bar do Armando

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Durante o governo FHC as privatizações foram feitas com o argumento de se desonerar o Estado dos pesados custos de carregar empresas produtivas, a maioria delas considerada ineficiente. A Telebrás foi privatizada em julho de 1998. Foi a maior privatização da história do país.

O governo faturou em um só dia R$ 22 bilhões, com ágio médio de 65% sobre o preço mínimo. Da divisão da Telebrás nasceram 12 empresas, sendo oito de telefonia celular. Alguns anos depois, a linha telefônica, que antes custava o preço de um carro popular, havia tido uma queda de 98% no preço e cerca de 11 milhões de linhas estavam ociosas.

Em março de 2000, Marco Gomes, Norberto Anzol, Inácio Oliveira e Paulo Mamulengo foram morar juntos numa espécie de “república estudantil da terceira idade”, no bairro de Aparecida. Entre os pequenos luxos, adquiriram uma linha telefônica.

A Telamazon levou menos de 24 horas para instalar a linha, mas avisou que o aparelho telefônico teria de ser comprado pelos próprios moradores.

O delegado Trindade ficou sabendo do problema e resolveu doar um aparelho telefônico para a moçada. Deixou o mimo – um moderníssimo telefone branco-areia – no Bar do Armando.

No começo de uma tarde de sábado, Paulo Mamulengo passou no bar para apanhar a encomenda. Apenas a dona Lourdes, mulher do Armando, estava no boteco. Ela entregou a encomenda.

Paulo Mamulengo se dirigiu ao orelhão existente dentro do bar para avisar ao delegado Trindade de que já havia recebido a encomenda e agradecer pela doação. Depois de algumas tentativas malsucedidas, Paulo Mamulengo se dirigiu ao balcão e falou com a esposa do comerciante, com o intuito de utilizar o telefone residencial existente no local.

– Dona Lourdes, aquele orelhão não está funcionando e eu preciso ligar urgente pro Trindade. Será que eu posso dar uma telefonada daqui do bar?

– Pode não, pode não! O Armando já proibiu qualquer ligação daqui do bar porque as contas estão muito salgadas! – avisou a portuguesa, enquanto limpava o balcão com um pano imundo.

– Mas dona Lourdes, eu não vou usar o telefone de vocês não! – insistiu Paulo Mamulengo. – Eu vou fazer a ligação do meu telefone!

– Como assim? – indagou, curiosa, a portuguesa.

– É simples. Eu vou desligar o aparelho de vocês da tomada e colocar esse aqui (e mostrou o telefone doado pelo Dr. Trindade) no lugar dele. Aí, eu vou telefonar do meu telefone. A única coisa que eu preciso é da tomada de vocês…

– Se for assim, tudo bem! – concordou a portuguesa.

Paulão retirou da tomada o telefone vermelho do português, colocou cuidadosamente em cima de um freezer, recolocou o telefone branco no lugar e começou a telefonar. Ligou primeiro para o delegado Trindade e agradeceu pelo presente. Depois começou a ligar para a parentada toda espalhada pelo Brasil. Um primo em Crato, uma tia em Fortaleza, uma prima em Brasília, um sobrinho em Porto Alegre. Dona Lourdes nem aí.

Empolgado, Paulão começou a ligar para uma legião de amigos, também espalhados pelo Brasil e exterior. Eram conversas demoradas, de dez a quinze minutos. Dona Lourdes nem aí.

Por volta das 15h, o comerciante Armando entrou no boteco para substituir a esposa. Ele já ficou meio invocado quando viu o Paulo Mamulengo ao telefone, conversando animadamente com alguém e querendo saber se estava nevando muito em Nova York.

– O que qui esse gajo está fazendo aqui dentro do balcão? – questionou o português, sem esconder a irritação.

– Telefonando, ué! – devolveu dona Lourdes, intrigada com aquela pergunta tão óbvia.

– E posso saber com a autorização de quem? – insistiu Armando, enquanto começava a limpar a faca de cortar pernil com o mesmo pano de limpar balcão.

– Ah, Armando, lá vem você… Ele está usando o telefone dele, a gente não tem nada a ver com isso – explicou dona Lourdes, meio contrariada.  – O nosso telefone está ali…

E apontou para o telefone vermelho sobre o freezer.

Os colhões do Armando foram parar na garganta. Ele se aproximou do Paulo Mamulengo, esticou o cabo telefônico com uma mão e passou a faca. Decepou o cabo no meio.

Paulo Mamulengo fez uma cara de espanto:

– Porra, Armando, eu estava falando com Nova York…

Armando só não lhe passou a faca no bucho porque Paulão colocou o aparelho cotó embaixo do braço e se mandou rapidinho, sem esquecer de agradecer antes a dona Lourdes.

Até hoje a doce portuguesa não sabe a razão da fúria do Armando.

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