Ziraldo se queixa da perda de memória

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Por Carlos Brito

Ziraldo sabe das perdas que chegam com o avançar da idade. Na palestra que deu sobre literatura infantil brasileira no segundo dia da Bienal do Livro do Rio, fez questão de falar sobre cada uma delas.

“A pior é a perda da memória. Sério, esqueço de quase tudo. Há outras perdas, é claro. Algumas até de natureza íntima. Mas para estas, existem remédios. A memória, porém, é implacável e vai embora, mesmo”, admitiu o escritor, que completará 85 anos no próximo dia 24 de outubro.

Mas a capacidade de guardar lembranças do escritor parecia bem presente na manhã desta sexta-feira, 1, nublada e chuvosa na cidade. Tanto que, ao se deparar com o auditório lotado – mais de 200 lugares ocupados por crianças e professores ansiosos para vê-lo – um olhar para edições passadas da Bienal se impõe de forma inevitável.

“Estive em todas as bienais, desde a primeira. E, por sorte, sempre fui recebido por um auditório lotado de crianças, como este aqui. É comum, em eventos como este, eu passar até seis horas dando autógrafos. Vou te falar uma coisa: só o público infantil é capaz desse tipo de entrega. Por isso escrevo para meninos e meninas. Uma vez, o Ignácio de Loyola Brandão me disse que iria passar a fazer livros para crianças, só para receber esse tipo de carinho”, confidenciou.

Sobre esse assunto, Ziraldo tem opinião formada: escritores de literatura não deveriam fazer livros infantis. Segundo ele, há um erro de concepção quando se trata de livros feitos para crianças.

“Muito do que se convencionou chamar de literatura infantil é superficial e raso. São autores adultos tentando escrever para menores sem compreendê-los de fato. Ou seja, escrevem para adultos em escala miniatura. Isso, é claro, não funciona. Acredite: escrever para crianças é bastante difícil. Leva-se muito tempo até encontrarmos a medida certa para elas. Por isso, acho absurdo quando ainda encontro pessoas que consideram a literatura infantil como uma literatura menor”, avaliou.

O pai do Menino Maluquinho – mais de três milhões de exemplares vendidos, em 116 edições desde 1980 – não se rendeu às vantagens da tecnologia: Ziraldo não utiliza computador. Ainda formata seus livros em máquina de escrever manual – “Nem a elétrica eu comprei” – e, nos últimos tempos, tem escrito à mão. Segundo ele, efeito da bursite que acomete ambos os ombros.

As palavras, aliás, sempre precedem o desenho. Ele utiliza o primeiro versículo do Evangelho de João para justificar o método de trabalho.

“No princípio, era o verbo. Não tem jeito: o texto vem antes de tudo. Os desenhos chegam depois. E a inspiração pode estar em qualquer lugar. Para uma pessoa comum, uma folha que cai da árvore é apenas isso: uma folha que cai da árvore, um acontecimento banal. Para um escritor, no entanto, pode ser o ponto de partida para um poema, conto ou romance. As inspirações estão em todos os lugares, basta estar atento”.

Os hábitos noturnos permanecem: só escreve à noite. Isso, ele garante, não mudou com a passagem do tempo.

“É melhor. À noite, as pessoas que me odeiam estão dormindo. Consigo trabalhar em paz. E acho que, a esta altura, paz é o que mais quero. Isso e também que as moças parem de se levantar para me ceder o lugar, o que tem acontecido com frequência. Agradeço, mas não é necessário, ainda sou bem jovem”.

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