Zen e a arte de despolpar cupuaçu

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Setembro de 1989. Proprietário do Hotel Imperial, o indiano Shamayami Chandra estava reclamando para Adib Mamede e João Thomé que não conseguia comprar frutas tropicais da região para oferecer aos seus hóspedes no café da manhã e colocava a culpa na preguiça atávica de nossos cabocos.

O jornalista Jorge Machado entrou no escritório no meio da conversa e já foi tomando as dores dos nativos:

– Ô, Da Índia, baixa um pouco essa tua bola que você está falando bobagem. Os nossos cabocos trabalham pra burro. Isso aí que você está falando não passa de preconceito. Qual é o tipo de fruta tropical que você está querendo?…

– Ah, qualquer uma que dê pra fazer suco! – explicou o empresário. – Graviola, buriti, camu-camu, bacaba, murici, araçá-boi, taperebá, cupuaçu…

– Cupuaçu, eu garanto. Quantas toneladas você vai querer? – desafiou Machadão.

– Quantas você conseguir! – devolveu o indiano. – E pago à vista, sem burocracia, na hora que você trouxer!

Já pensando em uma promissora carreira de fornecedor de frutas tropicais para o Hotel Imperial, Machadão deixou o escritório do indiano, entrou em sua velha Pampa e se mandou pra Manacapuru.

Na ida, ele foi entrando em tudo quanto é ramal e comprando dos agricultores a produção inteira de cupuaçu ainda no pé. Quando chegou à Princesinha do Solimões, Machadão alugou uma carretinha de rebocar barcos, adaptou na Pampa e retornou sua via-crúcis pelos ramais visitados anteriormente. Os agricultores só tinham o trabalho de tirar os frutos das árvores e colocar dentro dos veículos.

A carretinha e a carroceria da Pampa ficaram abarrotadas de cupuaçu. Por baixo, Machadão arrematou uns dez mil frutos.

Assim que chegou a Manaus, ele foi desembarcar a sua preciosa carga no Hotel Imperial. Ao perceber a presepada, o indiano subiu nas tamancas:

– Não, Machadão, eu não quero comprar cupuaçu. Você entendeu errado. Eu quero comprar a polpa do cupuaçu pra fazer sucos, cremes, sorvetes, essas coisas. Comprar a fruta in natura não me interessa. Pode levar esses cupuaçus daqui…

Puto da vida, Machadão foi embora.

Uma semana depois, Gil da Liberdade foi fazer uma visita de cortesia ao jornalista. Ele já ficou meio invocado quando viu o enxame de moscas varejeiras rondando a residência.

No fundo do quintal, sentado em um banquinho com uma toalha enrolada na cintura, suando mais do que pai-de-santo, Machadão estava despolpando os cupuaçus com uma tesourinha chinesa de cortar unha. Seus dedos polegar e indicador já estavam para estourar de tão inchados. Os milhares de moscas varejeiras, cada uma mais robusta e brilhante do que a outra, simplesmente não davam trégua. Aquilo era o quinto círculo do inferno de Dante.

– Meu parceiro, que onda é essa? – espantou-se Gil.

– Pô, Da Liberdade, aquele Da Índia é um escroto. Ele falou que queria comprar cupuaçu, eu arranjei dez mil cupuaçus, aí ele mudou de ideia e me disse que queria somente a polpa. Para diminuir o prejuízo, estou nessa roubada.

– E você tem alguma previsão de quanto tempo vai ficar nessa roubada? – insistiu Gil.

– Da Liberdade, estou trabalhando dez horas por dia e, agora que peguei a manha, levo no máximo seis minutos para despolpar um cupuaçu! – explicou Machadão, visivelmente abatido. – Isso dá cerca de cem cupuaçus por dia. Quer dizer, no mínimo, ainda tenho trabalho para os próximos três meses…

Depois dessa experiência radical, nunca mais o jornalista quis saber de fornecer frutas tropicais para o Hotel Imperial.

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