Yes, nós temos feijão

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Por Edney Silvestre, de Nova York

Levei meu amigo holandês para comer feijoada num restaurante brasileiro. Foi sua primeira vez. Estou até agora, uma semana depois, sem saber se foi a experiência mais rica e surpreendente de seus 26 anos ou se causei um desastre irreparável e sua vida e nos planos que até sábado passado fazia para ela.

Deixa eu explicar que meu amigo F.I. nunca esteve no Brasil. Porém não só fala um português impecável (também fala italiano, francês, espanhol, papiamento – o dialeto de Curaçau – e, obviamente, inglês e holandês) como vive lendo revistas e jornais brasileiros.

Estávamos, então, em pleno furacão do governo Collor. Do nosso país, além das baixarias administrativas escancaradas aos quatro ventos naquela época, meu amigo tinha a referência de uma bela terra, porém dilapidada pela pobreza, pela fome, pelas contradições políticas e pelos terremotos econômicos. Estes, por sinal, eram o aspecto que conhecia melhor, pois lida e negocia com a dívida brasileira.

Eu deveria saber que feijoada seria uma forma demasiado peculiar de apresentá-lo às coisas nossas. Deveria. Mas não me toquei.

Acreditando que poderia prepará-lo para o que viria a encontrar e ingerir, expliquei-lhe, primeiro, que feijoada era um prato muito, muito feio: uma coisa preta, cheia de enigmáticos pedaços de negras carnes inidentificáveis, servida com arroz (este é simples de entender), acompanhado de algo parecido com areia – que chamamos de farofa – e um legume verde frito que identificamos como couve (essa existe por aqui) e pedaços de pele de porco com nacos de banha, que denominamos torresmo. Fui preciso, não fui?

A descrição não o assustou. Os holandeses são um povo estoico.

Chegamos ao restaurante. Eram três da tarde, numa área meio morta – ainda que une bonne addresse, sem dúvida – ao sul de Manhattan. Entramos. Primeiro choque.

Aliás, duplo.

Fora dos carros alegóricos que o genial Fernando Pinto criava para as escolas de samba Padre Miguel e Império Serrano, nunca vi tanta cor, tanta banana, tanta arara, tanta sugestão de alegria tropical. Tocava, justamente naquele momento, um samba-enredo, num sistema de som tão possante que nos jogou porta afora. Abafado, acreditem se quiserem, pelas vozes e risos dos meus compatriotas amontoados ali dentro. O Maracanã em dia de Fla-Flu era um clube inglês perto daquele rebuliço.

Olhei para meu amigo, uma pessoa cujo tom de voz deve ser de menos 120 decibéis: sua expressão não era diferente da de algum habitante de Hiroxima no 6 de agosto de 1945. Antes que eu tivesse tempo de sequer sugerir uma opção mais pasteurizada para nosso almoço ou mandar medir sua pressão, fomos conduzidos a uma mesa no canto esquerdo do restaurante, sob o mezanino. Ali, F.I. foi eletrocutado pelo terceiro choque: uma morena alta, de beleza viscontiana, que o fez acreditar estar vendo a reencarnação de Silvana Mangano. Expliquei-lhe que era a atriz e modelo Betty Lago, seguramente uma das mulheres mais eletrizantes já nascidas abaixo do equador. Ou mesmo acima, aliás.

Fomos imediatamente servidos de caipirinhas, mas essa bebida ele já conhecia, pois – sabem Baco e a imigração brasileira por quê – é preparada em alguns bares de Amsterdam. Quando já estávamos lá pela terceira, como ele não tirava os olhos de Betty (que não percebeu mas o namorado dela sim), fiz que F.I. notasse as outras presenças no lugar.

Foi pior.

Entre as mesas, subindo e descendo as escadas, em volta do bar apinhado, circulavam morenas e louras com alguns dos vestidos mais justos e as saias mais curtas desde que Mary Quant resolveu economizar tecido e linha nos anos 60.

Pode ser que algumas não fossem as mais jovens ou as mais elegantes que já cruzaram de um lado para outro das Américas, mas eu asseguro: era o maior acúmulo de formas curvilíneas, bocas vermelhas, cabelos longos e caminhares ondulantes jamais expostos a um par de olhos batavo.

Culminou com a chegada de uma famosa jornalista brasileira, metida em botas de couro que lhe subiam até o meio das coxas. Tive a impressão de que meu amigo ia saltar sobre ela. Antes que as imprevisíveis consequências de uma nova invasão holandesa viessem a ocorrer em territórios brasileiros (e percebendo que já atravessáramos a quinta caipirinha), levei-o à mesa para nos servirmos de feijoada.

O que ele esperava era o que lhe havia contado: uma comida inventada por escravos, aproveitando os restos – patas, orelhas, focinhos – dos porcos servidos aos senhores brancos. Não exatamente uma descrição tentadora.

O que encontrou foram elegantes tachos de feijão fumegante, generosos pratos de carne-seca, paios, linguiças e costelas belamente dispostos e acompanhados de cartões identificando cada um. Na longa mesa havia ainda, além de couve e farofa, feijão-preto, carne-seca desfiada com cebola, caldo-de-feijão, toda uma organizada avalanche de fragrâncias perturbadoras e mornos aromas.

Meu amigo repetiu duas vezes. Das caipirinhas perdi a conta. O desastre – ou meu remorso pelo que provoquei, ainda não tenho certeza de um ou outro – veio depois.

Primeiro, F.I. deixou de acreditar que o Brasil seja um país de pobres. Se aquelas pessoas que estavam ali não eram ricas, como podiam ser tão alegres, divertidas, festeiras, falantes, esfuziantes e felizes? – é o racional argumento europeu que passou a me apresentar deste então. Segundo, passou a descrer nos noticiários sobre a crise brasileira. Para ele, é pura implicância de imprensa estrangeira. Terceiro, desmanchou o noivado com sua discreta fiancée canadense. Quarto, está decidido a abandonar o excelente emprego na multinacional onde trabalha e se mudar para o Brasil, de preferência antes do próximo carnaval. Quinto e último, me liga todo santo dia, implorando que lhe dê o número de telefone da Betty Lago.

E eu achando que aquela ia ser uma simples introdução a um prato típico brasileiro.

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