Xô, Satanás!

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Por Walter Muniz

Da primeira vez que o Diabo passou pela cidade corria o ano de 1974 e eu era pequeno demais para encarar. Então tive de me contentar com os relatos de quem foi corajoso o suficiente para ir confrontá-lo.

Eu escutava a tudo atento, uma parte de mim tremendo de medo e a outra inteiramente seduzida. Se por um lado minha educação católica pintava-o como o mais temível dos inimigos, por outro lado crescia cada vez mais em mim o desejo de conhecê-lo e com Ele medir forças.

Alguns anos depois as trombetas anunciaram sua volta e eu senti um frio no estômago. Chegara o grande momento e eu já não podia recuar. Tinha então meus 14 anos, estava mais crescido. Havia lido livros, visto filmes, escutado histórias sobre Ele e seus feitos terríveis.

Eu já intuía que aquele encontro era uma prova iniciática e que precisava passar por ela. Então, mesmo sentindo cheiro de encrenca grande por lá fui eu assistir O Exorcista, o impressionante filme de William Friedkin.

Foi um vexame! Voltei para casa apavorado. Avisei logo a meus pais que aquela noite dormiria no quarto deles e restou à minha mãe, que insistira que eu não fosse ao cinema, repetir o velho “eu sabia, eu sabia”. Praticamente nenhum de meus amigos tivera coragem de ir ver o filme. De fato, assistir O Exorcista foi para mim uma experiência apavorante e inesquecível, mas foi também uma grande vitória pessoal sobre o medo.

A partir de então eu seria irresistivelmente atraído por tudo que dissesse respeita ao modo humano de compreender o Bem e o Mal. Deuses, demônios e heróis de variadas mitologias passaram a habitar minha biblioteca e dividir comigo o meu quarto. Revirei religiões, ciências e filosofias atrás de entender o que havia por trás dessas confusa e frágil dualidade.

Viajei, conheci outras ideias, vivi experiências profundas que me puseram em contato  com o melhor e pior de mim.

Aos poucos fui percebendo que o Diabo que eu tanto buscava lá fora para tentar entender, na verdade sempre morara em meu interior e que para decifrá-lo eu teria antes que decifrar a mim. Lúcifer, na verdade, se escondia sob a legião dos meus medos, bloqueios e defeitos mais íntimos e me espreitava por trás de tudo o que eu desconhecia de mim mesmo.

Não canso de repetir que, pra mim, O Exorcista é um marco na história dos filmes de terror. Roteiro, direção, interpretações – tudo é excelente.

Poucos filmes merecem fazer-lhe companhia na estante do gênero. Depois daquela primeira vez, eu o veria outras mais, sempre esmiuçando detalhes. Numa delas levei um gravador na mochila e gravei o filme inteiro para ficar escutando depois. Também li o livro de William Peter Blatty do qual nascera o roteiro.

O terror dos filmes de hoje é mais explicito, sanguinário e tecnológico, sem sutileza psicológicas como em O Exorcista. Se hoje as novas gerações não se assustam tanto com ele quanto seus pais se assustaram, talvez seja porque nesses dias atuais o grande terror responde pelo nome de Violência e Insegurança e o Bicho-papão agora são os bandidos cruéis e impunes a nos ameaçar nas esquinas da injustiça social.

A humanidade está possuída por seus próprios demônios inconscientes, o que faz do futuro da espécie e do planeta um perigoso horizonte de incertezas. Os terroristas internacionais, considerados os novos flagelos da humanidade, são apenas mais uma peça de xadrez neste intricado jogo de terror. O Estado Islâmico que o diga.

Sim, o Mal pode ter mudado de nome e de estratégias. Mas sua morada ainda é a mesma, o nosso próprio interior. O motivo é simples: lá é sempre o último lugar onde os humanos vão procurar a verdade. Se de fato pretendemos derrotar o Mal, é urgente que tenhamos antes de tudo, cada um, a coragem de entrar no quarto frio e escuro do nosso desconhecimento de nós próprios e, uma vez lá, reconhecer os demônios que procuramos sempre exorcizar nos outros.

Água benta e crucifixos são uma beleza para afastar o capeta – em filmes. No roteiro mais realista de nossas vidas, porém, é esse autoconhecer-se o verdadeiro exorcismo que pode nos salvar a todos

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