Uma presença para o Pérola Negra

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Março de 2003. A Associação dos Funcionários Fiscais do Estado do Amazonas (AFFEAM) havia trazido o cantor Luiz Melodia para fazer um show intimista na sede da associação, localizada na Rua Franco de Sá, 812, em São Francisco, com venda exclusiva de mesas a fim de evitar que a venda de ingressos superlotasse o local. Os preços proibitivos das mesas, entretanto, deixaram muitos fãs do “negro gato” chupando dedo.

Na época, o bar mais descolado da cidade era o “Porão da Bossa”, de Celso Seixas e João Thomé Mestrinho, localizado na Av. Darcy Vargas, ao lado da Utam, praticamente em frente ao Conjunto Eldorado. Era pra lá que se dirigiam os boêmios que gostavam de música ao vivo, cerveja gelada, drinques espertos e petiscos de tirar o fôlego, tudo a preços populares.

Por isso, foi com imensa surpresa que os frequentadores do “Porão da Bossa” observaram quando, por volta das duas horas da madrugada, Luiz Melodia entrou sozinho no boteco e se posicionou em frente ao pequeno palco, onde o músico Kokó Rodrigues desfiava seu repertório de pérolas da MPB.

Luiz Melodia permaneceu ali, impassível, sem dizer uma palavra, observando atentamente o desempenho dos músicos.

Assim que Kokó Rodrigues encerrou seu número musical e anunciou a presença do ilustre visitante, Luiz Melodia se aproximou do percussionista Alcides Pajé e cantou a pedra:

– Normalmente os percussionistas são os mais doidões dentro de uma banda… Algum de vocês tem o produto?…

– Ter, eu tenho! – avisou Pajé. – Mas não vai dar pra te fazer uma presença, por que com esse teu narigão, parente, você vai acabar com a mercadoria…

Luiz Melodia quase morreu de rir. Aí, se recompondo, explicou:

– Eu não tô a fim de cheirar, meu camaradinha, eu tô a fim de fumar…

O percussionista Sorato entrou na conversa:

– Parente, eu tenho um fumo do bom lá no meu mocó. Se você quiser, te levo lá pra você dar um tapa… É coisa fina, de primeira, vinda do rio Marau, em Maués… É uma erva de qualidade mundial, cultivada pelos índios saterê-mawé, totalmente orgânica, sem aditivos químicos… O verdadeiro “mel da cruel”, amizade!…

Os olhos de Luiz Melodia brilharam. Ele já ficou com água na boca só de ouvir a descrição do produto.

– Então, vamos nessa, meu camaradinha! – disparou o sambista do Estácio.

Kokó Rodrigues deu a chave de seu carro para Sorato, e ele e Luiz Melodia se mandaram para o Conjunto Eldorado, onde o percussionista morava.

Depois de meia hora, os dois retornaram para o “Porão da Bossa”.

Luiz Melodia pediu licença para Kokó Rodrigues, sentou no banquinho, empunhou o violão e avisou:

– Agora é comigo, meu camaradinha!

Cantou até às cinco horas da manhã, sem que os frequentadores do boteco precisassem pagar um centavo de couvert.

Quem havia morrido em R$ 250 por uma mesa na AFFEAM deve ter ficado injuriado. Acontece.

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