Uma gravata para Gene Kelly

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Por Luiz Carlos Miele

Cantando na chuva é até hoje um dos filmes favoritos de todo mundo. Eu vi dezenas de vezes e ainda vejo. Sei de cor cada canção e vivo brincando com as pessoas sobre os nomes dos personagens:

– Como era o nome do personagem do Gene Kelly?

Ninguém lembra, claro, então eu mostro a minha impressionante erudição cinematográfica:

– Há há… Não sabe, hein? Pois era Don Lockwood.

E assim vou levando a brincadeira em frente, perguntando sobre a Debby Reynolds (Cathy Shelden) e Donald O’Connor (Roscoe Brown). Donald O’Connor fez nesse filme aquele que é o mais divertido solo de todos os musicais, na canção em que dança com um boneco e “sobe” na parede. Sobe mesmo, dá três passos e uma cambalhota, sem truque. Sei de umas curiosidades interessantes, como a que me ensinou o pianista Zé Maria, maior cultura que conheço em termos de música de filmes norte-americanos.

Fizemos uma temporada juntos no bar do Hippopotamus, no Rio, e quando eu descobri o quanto ele sabia passei a desafiar a platéia:

– Se alguém pedir alguma música de cinema que a gente não saiba, não paga a conta. – (A gente, ele, é claro.) Nunca alguém ganhou a aposta. Lembram da história? A estrela do filme-dentro-do-filme tinha uma voz horrível, era dublada pela personagem da Debbie Reynolds. Pois na vida real, foi justamente o contrário. A Debbie Reynolds é que foi dublada pela atriz que fazia a personagem dublada por ela. Entenderam? Caso ainda tenha ficado alguma dúvida, cartas para Rubens Ewald Filho.

Uma noite, antes de um show em Fortaleza, fomos jantar na casa de Fernanda Quinderé, mãe do Maneco Quinderé, iluminador mais premiado do teatro brasileiro. Fernanda foi casada com Luizinho Eça, maravilhoso pianista e arranjador, fundador do inesquecível Trio Tamba, com Hélcio e Bebeto.

Fernanda tem uma filha maravilhosa, que me mostrou sua coleção de vídeos com os grandes musicais americanos. Quando eu comecei a botar a minha banca, com aquela baboseira do nome dos personagens, ela acabou com a brincadeira, pois sabia tudo. Todos os nomes, de todos os musicais. Derrotado na minha vaidade, eu apelei covardemente e disse que tinha uma foto ao lado do Gene Kelly e que ia mandar fazer uma cópia para ela. Fernanda interveio preocupada:

– Não promete não, que ela vai ficar me cobrando até a foto chegar.

Mandei a cópia assim que cheguei no Rio de Janeiro, depois de ter contado, de quebra, a origem da própria.

Gene Kelly foi o produtor do filme That’s entertainement, que foi exibido no Brasil com o título Era uma vez em Hollywood. No filme, aparece a cena em que ele e Fred Astaire dançam juntos, o que aconteceu apenas uma vez, enquanto os dois foram a maior expressão dos filmes musicais americanos. E Mr. Kelly veio ao Brasil para fazer o lançamento do filme. Fechou um contrato com a Rede Globo, onde faria uma entrevista para o Fantástico, falando de sua carreira, em troca de vários comerciais do seu filme. Para minha alegria, fui encarregado da entrevista. O Boni me mandou para o Copacabana Palace.

– Vai pra lá que ele já está te esperando para combinar a entrevista. E vê se consegue que ele entre no palco dançando alguns compassos do Singing in the rain.

Lá fui eu, emocionado. Na portaria do Copa, ligo para a suíte, esperando que seu agente atendesse. Acostumado com as exigência às vezes absurdas dos queridos colegas brasileiros, fiquei surpreso quando ele mesmo atendeu o telefone e gentilmente avisou que já estava me esperando.

Quando abriu a porta do apartamento quase comecei a dançar de alegria: ele estava “vestido” de Um americano em Paris. Aquele mocassim, o par de meias brancas, a calça meio curta e a camisa tipo pólo. Na maior simpatia, logo me ofereceu uma vodca-tônica e começamos a conversar sobre a entrevista.

Além de me sugerir algumas perguntas, ele fez questão de mandar escrever a ordem das mesmas num quadro-negro (não havia o teleprompter, ainda). Tudo ensaiadinho, que eles não brincam em serviço. (Depois o Daniel Filho me contou que, na transmissão do Oscar, durante os ensaios, o Fred Astaire, com setenta e tantos anos, e um dos homenageados da noite, contou quantos passos tinha que dar do fundo do palco até o microfone e ensaiou essa caminhada duas vezes.)

Terminada a reunião, fui para casa e deixei meu telefone com o Gene (atenção para a intimidade). Algum tempo depois, ele ligou, dizendo que havia esquecido a gravata do smoking, as lojas já haviam fechado (não existiam os shoppings, ainda, eu acho), se a TV se encarregava de conseguir uma. É claro que eu levei uma das minhas.

Com a autorização dele, ainda convidamos alguns amigos para a gravação e, no fim, quando ele foi me devolver a gravata, é claro que eu disse que era um presente. Então ele me deu um cartão, para que eu fosse buscá-la em Los Angeles e tomar outra vodca com ele. A turma do Pasquim publicou depois que o Gene Kelly não passava de um ladrão de gravatas.

Ah, quanto à minha pergunta a respeito da possibilidade de ele entrar dançando alguns compassos do Singing in the rain, ele riu e respondeu que podíamos conversar, mas que ia custar uma graninha. Achei melhor não perguntar quanto era e ficou por isso mesmo.

Perdi o cartão com endereço e telefone e nunca mais o vi. Quer dizer, vi nas telas, no filme Demoiselles de Rochefort. Um filme do francês Jacques Demy, que já havia feito Os guardas-chuvas do amor. Os dois filmes tiveram a música maravilhosa de Michel Legrand, mas no segundo filme, Demy quis contar a história de duas irmãs, protagonizadas por Françoise Dorleac e Catherine Deneuve, aliás, irmãs na vida real, sendo que Françoise Dorleac faleceu num acidente trágico.

Gene Kelly fez o que pôde, ou talvez não quisesse fazer nada. Foi constrangedor para ele, que, além de Um americano em Paris e Cantando na chuva, dirigiu, por exemplo, Alô, Dolly. Foi, portanto, um mestre dos musicais, e caiu na armadilha do musical francês. De Cyd Charisse para Catherine Deneuve vai uma distância tremenda. Não porque ela fosse francesa. A Leslie Caron também era e foi ótima em Um americano em Paris, Lili e Gigi. Mas ela era do ramo, o que absolutamente Catherine Deneuve não era. E no musical, como no humor, não dá para enganar. Ficou um “sotaque” danado. Mais ou menos como se um sueco viesse dirigir a bateria do Salgueiro.

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