Um sertanejo, dois sabonetes

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Por Xico Sá

Bicho encruado do sertão do Pajeú. Cabra bom que dividia comigo os três andares – só de macho, ave! – da Casa do Estudante, asilo de almas penadas e sebastianistas da punheta, ali no Engenho do Meio, saída do Recife para João Pessoa, Caruaru e alhures, digo, o mundo.

Aqui será chamado apenas de J., pois, vá saber, às vezes o fundamentalista muda de ideia. Deixa, no meio do caminho de nossas vidas, de defender as mesmas extremas!

J. tinha um medo desgraçado da dúvida e quaisquer ambiguidade. Até nas festas do Sapo Nu, vilarejo do Engenho do Meio, onde íamos encher a cara de cachaça, mijada pelos Orixás, em um generoso terreiro de macumba, o sertanejo esquivava-se todo diante dos caboclos mais exaltados. O medo do danado diante de um Zé Pelintra presepeiro, que pudesse comprometer o seu ás-de-copa numa manobra em marcha à ré.

O cabra estudava engenharia, cátedra de cabra macho. Vez por outra ia assistir a um espetáculo no Centro de Artes, encontro às 13 horas, um teatrinho ou cineminha de graça no pós-xepa do R.U. (Restaurante Universitário, apressam-se, na tradução, as tripas, lombrigas e solitárias analfabetas!).

Voltava escandalizado tal hombre, mesmo que amasse as comédias porno-brechtianas de Alberto Amaral, os peitos de Moema, a graça-mor de Isabela Rocha, a safadeza subletrada de Mirvana, a que deixou o paraíso zen no momento em que o pai, desavisado no cartório, botou uma perna a mais na letra inicial.

Era bicha demais pro seu gosto no Centro de Artes. J. era capaz de vomitar as 1.600 calorias do bandeijão. E mulher beijando boca de mulher, camaradas androginados, o diabo.

Só sei que o medo da dúvida, das ambiguidades, do comum-de-dois, e de quaisquer outras presepadas desse mundo era grande. J. chegou a ponto – ou talvez tivesse sido assim por toda a vida pregressa – que só frequentava o banheiro coletivo com duas saboneteiras.

Um dia, num aguentei, e sacudi a indagação:

– Mas J., que diabo é isso de usar dois sabonetes?

Ao que o sertão-velho-encruado me respondeu:

– Rapaz, do jeito que as coisas tão, resolvi usar um pra parte da frente e outro pro fogareiro (as ditas retaguardas).

– Mas que cisma é essa, esse menino!? – cutuquei.

– Confio mais não. Já ouvi falar nos vasos comunicantes? Prefiro evitar qualquer viadagem ou contato.

E até as saboneteiras eram guardadas uma longe de outra, para evitar uma suposta e surreal perobice do chamado eu profundo com os outros enigmáticos eus.

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