Um baile na S.D.F. “Caprichosos da Estôpa”

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Por Orestes Barboza

A sede do clube, a exemplo dos Tenentes do Diabo, que se denomina a Caverna, chama-se Tear. Eu cheguei ao Tear quando o baile estava quente, às 2 horas da manhã.

Crioulos, crioulas e mulatos mal se equilibravam nos sapatos de raro convívio com os pés chatos.

Uma charanga, composta de clarineta, trombone, saxofone, tambor, violões e pandeiros fazia o pessoal delirar no arrasta-pés.

Quando penetrei nos “Caprichoso” os admiradores de J. B. Silva (Sinhô) e do Caninha dançavam, torcendo o pescoço numa denúncia de alegria excepcional.

O clarinetista tinha uma cara de pássaro.

O saxofonista piscava, seguidamente, atrapalhadíssimo com as chaves do seu cachimbo harmonioso.

O do trombone era um negro gordo, de côco raspado, que, de vez em quando, tirava o bocal do instrumento e escorrupichava ali mesmo no chão uma baba abundante.

No meio do salão, mantendo a disciplina, estava o mestre sala, de colarinho em pé, a gaforinha esticada para trás o mais possível, e os olhos fixos nos cavalheiros que, num volteio mais propício, sempre encostam a perna das damas sequiosas…

– Olha isso, seu Augusto…

– Que foi, seu Paulino?

– Não foi nada…

Seu Paulino responde isso e olha logo para outro lado, para pegar na boa empernação…

Damas e cavalheiros fingem espanto com a observação de seu Paulino e o baile vai ao final assim, mais ou menos moralizado.

De repente o tambor faz um rufo surdo e demorado – é o sinal de que a música vai parar.

Aquela gente toda quebrava agora mais gostosamente, aproveitando bem as últimas tascas, porque o Tatu subiu no pau ia parar.

Parou a música.

– Damas ao bufete! – gritou um mulato baixinho, de óculos de aro de tartaruga.

Em seguida a esse grito, do tope da escada um associado exclamou:

– Está aí seu Zizinho, da Trombeta.

Era a imprensa que chegava.

Eu, que ali estava com um convite cheio de novidades – oferta régia de um cronista de carnaval –, ia enfim passar mais radiante o resto da noite, no convívio, por tudo precioso, desse colega que se anunciava assim tão íntimo da agremiação.

Logo que seu Zizinho, entrou, o presidente dos “Caprichosos” perguntou por mim nestes termos:

– Quê dê o outro?

O secretário, aquele de óculos, apontou-me:

– É aquele.

O presidente disse-me, todo festivo:

– Aqui está um colega do sr. É o seu Zizinho.

Eu conhecia o apresentado não por seu Zizinho, mas como o Correia Neves, repórter suburbano de sensação.

Estendi a mão para o colega recém-vindo e alegrei mais o presidente:

– Oh! Conheço muito!… Batuta velho…

Seu Zizinho quebrou o corpo para a direita e caiu em cheio no burburinho das mulatas.

Que prestígio!

Eu estava assim, embevecidamente contemplando o sucesso do meu confrade, quando o presidente do Clube anunciou que ia fazer uma saudação à imprensa.

A charanga parou instantaneamente.

O povaréu do baile afluiu para a sala onde o presidente ia falar – sala que por uma pequena porta se comunicava à saleta onde eu tomei posição solene, junto aos músicos, a uma máquina de costura e dois manequins de d. Elvira – crioula consorte de seu Rodrigues, dono da casa e presidente honorário da associação.

Silêncio.

O presidente anunciou o discurso, mas deu a palavra ao mulato dos óculos.

Meu Deus! A minha alma deve muito ao céu esses instantes de inenarrável satisfação!

O mulato principiou, dirigindo-se a mim:

– “Sr. representante da imprensa”.

E fez um parênteses:

– “Seu Zizinho eu já conheço.”

Continuando:

–  “Seu Sinhô! Este clube tem hoje a alegria em duplicata. Tem a presença deste baluarte da nossa glória, que é seu Zizinho, e tem mais a presença deste jovem mas já festejado artista da palavra escrito, símbolo da nossa regúlia meridional.”

Regúlia, impressionou-me.

O orador balançou mais o copo de cerveja e terminou, depois de muita preciosidade que eu não apanhei:

–  “Saudando a imprensa que, é força primaz da nossa terra, que faz in loco, a clarividência eternil da obscuridade do valor, (sensação) eu bebo pela felicidade geral do clube, seus sócios e sócias, e aqui pela de seu Zizinho que sendo da imprensa é também pessoa diluída da nossa agremiação.”

Seu Zizinho, que ouvira com a fisionomia concentrada o discurso do secretário geral, levantou o copo de cerveja e disse:

–  “Sr. presidente da Sociedade Dançante Familiar Caprichosos da Estôpa. Aqui o meu distinto confrade (dirigindo-se a mim) pede-me para responder ao vosso orador que em sua peroração exprimiu todo o sentir eivado de sinceridade e definiu a alma intrínseca das similitudes gerais.

A escolha foi íntima. Falta-me dotes oratórios para dizer as palavras em resposta à saudação do digno secretário, saudação feita à imprensa e a mim próprio, de per si, pessoalmente.

Mas, como na vida as situações se mandibulam de forma tal que a gente não sabe nunca o to be das coisas, eu bebo a saúde de todos, fazendo votos para que o Caprichosos da Estôpa seja sempre esta beleza!”

Bendita hora em que eu aprendi taquigrafia!

Quando o orador terminou, houve palmas e abraços.

– Mais cerveja aqui pra seu Zizinho!

E a charanga rompeu um samba de arrepiar.

Eram quase 3 horas da manhã.

Eu fiquei por ali misturado com a negrada que se dissolvia de calor.

Andei a casa toda.

Fui até ao quintal!

Voltei ao salão

Aí conversei com a Herondina – uma mulata pernóstica dona de uma pensão no bairro da Saúde.

A Herondina perguntou-me, num requebro:

– O sr. conhece o Hermes Fontes, autor das Apoteoses?

– Conheço. Um grande poeta.

– Pois eu sou irmã dele…

– Oh! Muito prazer.

A Herondina requebrou mais e fomos para a janela conversar.

À certa altura da conversa ela me disse:

– Vamos sair daqui. Olhe seu Paulino….

O samba continuava frenético.

Agora, o preto do trombone já soprava dormindo e as bolhas de suor, na testa brilhavam como um diadema.

Empurrado pelos pares afoguedos, eu a custo li, na parede, um edital proibindo a entrada de um repórter Odilon desses no Clube.

Embaixo do edital havia esta nota:

“Motivo: Querê imperrá.

O secretário

Laurindo Simas.”

Já se ouvia na rua o rumor dos veículos da manhã quando o baile acabou.

Fui saindo, silenciosamente.

Quando cheguei à esquina da rua do clube ouvi o ruído de um bonde e parti a toma-lo.

Ainda vi, nessa esquina, um aspecto do fuzuê: uma crioula, rodeada de outras, sentada na soleira de uma porta; tinha, na mão não só os sapatos do baile, mas as meias cor de rosa com que fizera figuração.

E os pés chatos da preta, com um dedo grande que parecia uma manivela de bonde, eram uma festa, assim à fresca, naquela madrugada sensacional.

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