Um amigo à beira de um ataque de nervos

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Por Edney Silvestre, de Nova York

Estou metido numa complicada situação conjugal. Não própria, felizmente. Mas envolve dois de meus amigos mais próximos e a mulher de um deles. Um óbvio caso clássico, embora não exatamente. Trocados os nomes, deixem que eu lhes conte meu problema.

Jonathan, educado em Oxford, mora aqui há mais de vinte anos e dá aulas de literatura inglesa na Columbia University. Imagino que tenha quarenta e alguns anos e parece uma versão grisalha de Jeremy Irons, acrescentados uns dez quilos.

David é um self-made man nascido no Brooklyn, onde herdou uma loja de ferragens do pai, que fez evoluir em uma rede de material de computador. É mais baixo que Jonathan e mais velho alguns anos, porém tem aquele vigor das pessoas que parecem sempre estar a caminho de fazer alguma coisa – e ganhar dinheiro com isso. Talvez valesse acrescentar que, mesmo com escassos fios de cabelo na cabeça morena, tem muita gente que o acha parecido com Omar Shariff.

Christina, que completou trinta anos em 23 de setembro passado, trabalha para uma televisão australiana. Talvez não seja a profissional mais inteligente do jornalismo aussie, mas tem lá suas qualidades, uma das quais é um inegável charme desprotegido e uma maneira de sempre fazer você crer que sua conversa é das coisas mais interessantes que ela já ouviu, sabe o tipo? Conheceu Jonathan em 1983 ou 1984, se apaixonaram, ela o levou para conhecer os pais em Sidney, casaram-se.

Vez por outra o casal aceitava o convite para passar os finais de semana na faustosa casa de campo de Mr. E Mrs. Parson – ele é executivo de uma administradora de hospitais –, onde os conheci e onde, também, David era outro frequente guest.

A antipatia entre David e Jonathan foi instantânea. Um achou o outro pedante, o outro achou o um grosseiro. O erudito ficou chocado com a desinformação do comerciante. O bem-sucedido empresário irritou-se com a ignorância do filólogo quanto ao mercado financeiro. Um sentava-se na varanda, lendo Keats. O outro ficava nadando, quilômetros a fio, na piscina em forma de âncora.

Conseguiam evitar-se, menos na hora do jantar, quando as trocas de farpas eram inevitáveis e a disputa de atenções virou rotina. Se Jonathan mencionava uma nova gravação de algum quarteto de Schubert, David contava seu novo truque para importar peças mais baratas made in Taiwan.

Se David exortava a republicana limitação de impostos abençoada aos mais ricos, Jonathan lamentava os estragos que os cortes de verbas feitos por Reagan e Bush vinham fazendo á cultura do país.

O boxe civilizado – ou quase – entre eles acabou por virar folclore e a discretamente nos divertir a todos. Eram os dois lados antagônicos que sempre empurraram os Estados Unidos para a frente, nos parecia.

Separadamente, descobri o prazer de estar e conversar com cada um, e passamos a nos falar e nos ver com frequência. Evidentemente, com quem eu ia ver O Anel dos Nibelungos não era o mesmo a quem eu acompanhava nos jogos dos Rangers.

Como e quando começou a história entre David e Christina, eu não sei. Me lembro que, tem menos de um ano, Jonathan comentara que o casamento não ia lá muito bem das pernas. Christina e ele chegaram a se separar por um mês ou dois, mas pareciam ter chegado a um entendimento que, se não era amor (e tem quem possa definir?), parecia uma ligação bem-ajustada.

David, sempre possuído por incansável energia de sátiro, mantinha sua tradição de troca mensal – às vezes semanal – de companheiras de leito. As que tive oportunidade de ver, vale contar, eram todas atraentes, quando não belas, por vezes divertidas, sempre bem mais jovens que ele.

Semana passada David me ligou para dizer que vai se casar. Não me revelou com quem. Jonathan, no mesmo dia, telefonou contando que Christina resolvera separar-se dele. Marquei almoço com o professor e jantar com o empresário.

Tive o pressentimento de que havia uma ligação da história A com a história B, o que atribui à minha paranoia afetiva, às minhas ressacas sentimentais e a um instinto inteiramente gagá.

Aquelas foram as refeições mais indigestas da minha vida.

Resumindo: meu instinto estava antenado na estação certa. Tudo o que fantasiei era verdade. A futura mulher de David é a atual de Jonathan. O que é pior: Jonathan não sabe de nada.

Meu conflito: o que é que eu faço? Conto para ele? Não conto? Insisto (sim, já pedi) para David – que acredita ser matéria de caráter particular entre Christina e Jonathan – falar com o (ex) marido? Suplico a Christina que exponha a situação ao homem com quem viveu durante oito ou nove anos, mesmo quando ela acreditava que a relação já estava mesmo caindo aos pedaços e que David foi apenas o agente deflagrador? Fico calado? Escrevo uma carta anônima?

Conflito adicional: Christina mandou David me convidar para ser o padrinho do (novo) casamento.

E meu instinto, que nesta e em outras situações recentes vem se mostrando mais acurado do que eu quero crer, está me avisando que, seja como for que este affair se conclua, só uma pessoa vai ficar mal: eu.

O que me faz sentir como personagem de telenovela mexicana, despencado em um daqueles intermináveis filmes suecos que discutem relações de casais.

Como se não bastasse tudo isso, Mr. e Mrs. Parsons estão convidando para o fim de semana nos Hamptons, onde – ironicamente – celebração seus dezoito anos de (provavelmente) feliz matrimônio e (seguramente) próspero e tranquilo companheirismo. Jonathan e Christina já confirmaram que irão. David também. Eu declinei.

Se virar notícia nas páginas policiais, prometo que conto.

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