Turbantes: a guerra ideológica virou pelada de campinho

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Por Ismael Benigno

Não falo por mim. E talvez por isso já tenha sido convidado a não me pronunciar sobre outros dos temas de comportamento social. Ou porque não sou mulher, ou porque não sou negro, ou índio, ou quilombola. Mas como sou teimoso, me reservo o direito de opinar. Afinal, ao que parece, ficar calado é declarar posição e, mesmo que a gente não saiba, está sendo julgado. Então, já que nasci branco, preciso aqui declarar: não sou racista.

Li o texto da Ana Maria Gonçalves sobre a minha “branquitude” (digo “minha” porque, percebi, ter nascido branco me dá esse atributo automaticamente) e, tendo percebido toda a necessidade da autora de explicar o que significa um turbante para os povos negros (depois me corrijam se o termo “povos negros” soa racista, eu realmente não sei), percebi também que a única coisa a que as pessoas de pele branca têm direito é ficar quieto. E aguentar o julgamento sumário, por parte de desconhecidos, sobre o meu caráter, sobre meus valores pessoais, sobre o que penso de tudo isso.

Não importa que meu turbante, meu hijab, minha túnica, meu baby- sling escondam, se é o câncer, se é uma orelha de abano, se é um terceiro mamilo. O fato é que, na cruzada das reparações históricas, eu, que sou frequentemente julgado por usar camisa pólo ou sapato social, não posso cometer o “exotismo”, a “bacanidade” de ser “descolado” e usar um turbante, seja ele árabe, persa, ninja, africano – tudo será africano.

É onde entra a mais absoluta ignorância sobre o que significa cada um dos pequenos gestos da minha vida cotidiana. Eu decidi vestir um turbante porque sou racista e eu nem sabia.

E novamente não falo por mim. Eu não uso turbante africano. E por isso mesmo, sendo um estranho no ninho da discussão, não posso deixar de registrar minha estranheza com a polêmica, especialmente em Manaus, aonde a cultura, as tradições e os signos (é assim que fala?) africanos não são predominantes. Arrisco dizer que não há negros no Amazonas. E ainda assim, o que mais vejo são jovens brancos usando o adereço, assim como penteados africanos, ruivos usando black power, loiros usando dread-locks. O que pra mim não faz a menor diferença, a não ser ver que, muitas vezes, são exatamente essas pessoas as que estão, neste momento, explicando por A mais B porque usar o turbante é, sim, apropriação cultural, resultado da “branquitude” de pessoas que são racistas sem saber disso.

A ideologização generalizada é tal que, numa sociedade cheia de problemas graves como o saneamento, a pobreza e a violência, a gente ainda precisa aguentar, calado, o fato de que é racista, acusação frequentemente feita pelas mesmas pessoas que transformaram a cultura negra em posição política. Hoje, enquanto luto para trabalhar, criar minha família e pagar as minhas dívidas, sou acusado, por ter nascido com essa cor, das coisas que as pessoas que me acusam fazem.

Como eu disse, nessa confusão toda, mais uma vez, o coletivo pisa sobre a história de cada um. Por isso, nunca vai importar se a moça do trem tem câncer, ou que eu tenha vendido pastel na rua aos 10 anos, numa época em que alguns almoços foram arroz com maionese. Pouco vai importar a história de cada um.

Porque há um entendimento maior, uma verdade absoluta que ficam dizendo pra eu ler nos livros: eu sou de uma raça privilegiada, elitista, intolerante e racista. Se eu tiver amigos negros, terá sido porque eu queria posar de bacana. Se eu for visto numa roda de samba, terá sido porque quero posar de superior.

Para denunciar tudo o que já ocorreu, as torturas, os sequestros, os estupros, as surras e as mortes relegadas aos povos africanos no Brasil, é preciso dizer, a partir de agora, que não vale tentar não ser racista. Não vai colar eu ficar fazendo de conta que brancos e negros são iguais aos meus olhos. Afinal, em 1671 pessoas da minha cor açoitavam negros. Não adianta agir, pensar e ver as coisas diferentes em 2017. Não importa que a gente queira se misturar em 2017, porque é preciso reagir. Aos assassinatos de negros pela polícia, às violências nas salas de parto, nos supermercados.

A ordem para esmagar qualquer sinal de mistura é tão forte que nada pode escapar. Os séculos de violências sofridas, até hoje, têm responsáveis que precisam ser “coletivizados”. O turbante precisa ser respeitado, porque, segundo o mesmo texto, é o signo que carrega uma longa história de segregação e supressão de direitos e liberdade.

Vivemos a era do palco. E no palco, assim como no teatro, é preciso mais trejeitos, mais caras e bocas, mais empostação, mais linguagem corporal. Todos são protagonistas de alguma causa. Neste caso, mesmo que não façam parte dela, de modo que não vale lembrar que, se vamos partir para o patrulhamento dos adereços que cada um usa no ônibus, com base na cor da pele, está na hora de fazermos um censo racial no Brasil, definindo, talvez com instruções normativas ou decretos governamentais, quem sabe ditados por comissões raciais, o que cada um pode ou não usar na cabeça.

De tudo isso, fica somente a impressão de que, na era da informação e da tão propalada diversidade cultural, estamos cada vez mais com raiva da diversidade, do pluralismo e da consciência da existência dos outros. Todo sinal de pacifismo é tido como provocação, toda demonstração de tolerância é tida como deboche, toda vontade de se misturar, quem sabe começando no século 21 a mudar a história que não pode ser apagada dos séculos anteriores, é vista com desconfiança.

Eu, que achava não fazer parte dos agressores nem das vítimas, percebi que não há como escapar da guerra ideológica que virou pelada de campinho. Ou você é do time com camisa ou do time sem camisa. Mas, como eu disse antes, falo por mim. Sou um homem branco, não tenho como mudar isso. Não tive pai, passei por privações que a gente nem percebe quando criança. Mesmo assim, tive uma infância feliz.

O turbante deve significar a união de um povo e não a segregação de uma raça

Acho uma pena que causas justíssimas já nasçam com tutores intelectuais, quase sempre pessoas que não fazem parte das vítimas do problema, e cuja imaturidade ideológica acaba sempre levando problemas reais para o viés político, muitas vezes partidário até. É uma pena que a romantização do passado brasileiro, com gente livre posando de oprimida, com gente branca posando de quilombola, com gente rica posando de pobre, com gente solta posando de perseguida, esteja impedindo as pessoas de se misturarem, de se conhecerem, de criarem empatia com a história do outro.

É uma pena descobrir que, nesses tempos, frear o carro para não atropelar animais virou causa. Comer rúcula virou causa. Assanhar o cabelo virou causa. Usar um pano na cabeça virou causa. E a gente, que cresceu ensinado a ver todos como iguais, a ajudar as pessoas, a gostar de bicho, a gente vacilou e não alardeou essas coisas. Não se juntou a um coletivo que não mata cachorro, a um coletivo que come rúcula, a um coletivo que pode usar turbante, mesmo sendo branco.

A bondade, o caráter, a tolerância, o respeito e a empatia que a gente exercia em 1981, a gente não sabia, eram ideias que já tinham donos que só nasceriam em 1997. O que nos resta, agora, é continuar a ser bacanas, ter caráter, ser tolerantes, respeitar os outros, mas em silêncio.

Porque o câncer de uns é mais câncer do que o dos outros, e se já chegamos ao ponto de passar por uma banca julgadora para sermos livres de pensamento, o debate morreu. E como eu já senti na pele – e certamente sentirei novamente –, quem sou eu para falar de coisas que eu não sofro, né?

Bom, eu sou só um branco, como é branca a maioria dos patrulheiros da “branquitude” alheia. Eu só cometi um erro: o de não ter me associado a nenhum sindicato de brancos que posam de negros, ou de ruivos que posam de índios, ou de ricos que posam de pobres.

A não ser por esse texto, nascido da vontade de me defender do que não sou, eu sou só parte da silenciosa maioria que não está nem aí para os sindicatos da bondade.

E como tal, aceito continuar assistindo o debate morrer por dentro. Porque o que me importa é o que aprendi a ser, e o que posso ensinar meus filhos a serem. Bacanas, tolerantes, respeitosos, pluralistas, democratas, empáticos.

Mas, acima de tudo, livres disso tudo.

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