Thiago de Mello no olho do furacão

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Setembro de 1973. Golpe militar no Chile. O presidente Salvador Allende morre dentro do Palácio Presidencial, depois de um bombardeio das Forças Aéreas. Pelas ruas, trafegam caminhões militares cheios de corpos crivados de balas, o sangue escorrendo pela carroceria e inundando o asfalto. Os inimigos do regime estão sendo caçados e mortos como ratos.

O estádio de futebol se converte num formidável açougue humano. O cantor Victor Jara, uma espécie de Chico Buarque local, tem as duas mãos decepadas e é fuzilado dentro do estádio, na frente de milhares de prisioneiros.

Começam a desembarcar em Santiago dezenas de militares ligados à repressão do Brasil, Argentina e Uruguai para identificar seus cidadãos entre os subversivos que estão sendo presos e torturados. O acesso às embaixadas está sendo controlado por gorilas armados até os dentes.

Amigo de Salvador Allende e Victor Jara, o poeta Thiago de Mello e seu filho Alexandre Manuel (aka “Manduka), na época um jovem artista plástico de 21 anos, abandonam o apartamento onde moravam e, só com roupa do corpo, tentam chegar à embaixada do México.

São interceptados por uma patrulha chilena e levados para um improvisado centro de triagem. Centenas de homens estão enfileirados sob a mira de soldados portando metralhadoras.

De vez em quando, um tenente escolhe aleatoriamente três ou quatro homens na fila e eles descem uma escada em direção a um porão no mais completo silêncio, sendo escoltados por alguns soldados.

Dali a pouco, ouvem-se os ruídos de tiros. Mais alguns minutos e os corpos passam de volta arrastados pelos soldados. Os mortos são amontoados dentro da carroceria de um caminhão militar.

Para diminuir a tensão, Manduka, encolhido num canto, começa a tocar “Desafinado”, de João Gilberto, no seu violão, único objeto que conseguiu salvar da casa abandonada às pressas. O tenente se aproxima.

– Brasileños, no?…

Thiago confirma com a cabeça, acreditando que chegou seu dia.

E do meio do inferno, surge a luz.

O tenente é fã de João Gilberto e propõe um acordo: se Manduka lhe ensinar as notas de “Desafinado”, ele fornece um salvo-conduto para os dois chegarem até a embaixada do México.

O adolescente Manduka se transforma, então, no melhor professor de violão da América do Sul e em meia hora o tenente já está tocando a canção. Manduka e Thiago recebem o salvo-conduto, conseguem alcançar a embaixada do México e de lá ganham a liberdade. Graças a um tenente chileno apaixonado por João Gilberto.

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