Tem gente demais fazendo de tudo

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Por Luís Fernando Verissimo

Não quero ser alarmista, mas já tem gente matando tubarão a soco. E isso é só o que saiu nos jornais. Não foi noticiado, mas já tem gente assaltando cachorro pela coleira, comungando pela hóstia e guardando pastel pelo ventinho quente.

Tem gente apertando porteiro eletrônico só pra ter com quem conversar, respondendo a alto-falante e discutindo com mensagem gravada.

Tem gente fazendo rodízio em pé – segundas, quartas e sextas pula com o direito, terças, quintas e sábados com o esquerdo, domingos fica em casa – para economizar sapato.

Tem gente fazendo das tripas coração – e vendendo!

Tem gente chamando urubu de compadre pra dar remorso.

Tem gente afiando a unha do mindinho pra não gastar com palito.

Tem gente se pintando de verde pra ser comprado na Cobal.

Tem gente tentando se fingir de rico pra ganhar subsídio, isenção fiscal cheque especial, cartão de cortesia, up-grade, amostra grátis, desconto e financiamento do BNDES com juros baixo, mas não conseguindo, a manga puída põe tudo a perder.

Tem gente se agarrando a poste para não cair na escala social e sequestrando elevador para subir na vida.

Tem gente oferecendo o apêndice para transplante.

Tem gente comprando tinta para retocar a radiografia porque não pode comprar remédio.

Tem gente tentando matar cachorro a grito, não conseguindo, e tendo que fugir do cachorro irritado.

Tem gente, enfim, fazendo de tudo.

Esse é o problema do Brasil. Gente demais. Gente confusa, gente perdida, gente doente, gente diferente. O governo faz o que pode, mas não consegue solucionar o problema e reduzir nossa população só a banqueiros, por exemplo, o que melhoraria nossa posição no ranking da ONU consideravelmente.

É a nossa diferença do Canadá. Lá tem canadenses, e poucos; aqui tem gente estranha, e demais. Por outro lado, não há notícia de um canadense que tenha matado um tubarão a soco.

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