Sexo também é cultura

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Por Edney Silvestre, de Nova York

Como namorado que chega ao encontro antes da hora marcada, o outono apareceu sábado passado. Trouxe ventos, amplas nuvens em carregados tons de cinza e cristalino céu azul que elas não foram capazes de encobrir.

Junto veio aquela sensação de final de férias, de adeus às desculpas por não fazer nada porque o calor não permitia, de impossibilidade de continuar adiando decisões sérias para o futuro próximo.

Deve ser por isso que, nesta época, há exércitos de nova-iorquinos matriculando-se em cursos os mais diversos. É uma tradição de outono aqui, junto com a estreia na Broadway, o reinício da temporada de balé, ópera e música erudita.

Os mais cínicos apontam para a grande quantidade de gente solteira, divorciada ou a caminho, e veem num projeto de caça-ao-consorte o verdadeiro objetivo por trás de tão aparentemente intensa necessidade de informação ou atualização cultural. Mais ou menos a derradeira oportunidade de garantir um inverno aconchegado para todos aqueles que não tiveram a melhor das sortes no verão.

Há cursos sobre praticamente tudo e qualquer aspecto das atividades humanas – e não creiam que me refiro a pintura em porcelana ou semelhantes interlúdios para esposas entediadas, antes de começarem a trair seus maridos com o dentista.

A amplitude de ofertas tem a vantagem de – além da informação convencional sobre algo que interesse especialmente a quem se matriculou ali – colocar o solitário coração e a mente sequiosa junto a pessoa que, supostamente, partilham dos mesmos interesses.

Não parece uma boa ideia estar ao lado de alguém que goste das mesmas coisas? Não é uma forma esperta de evitar equívocos do tipo você quer ir ao Metropolitan assistir à montagem de Franco Zefirelli para a Tosca e ele, seu better half como chamam aqui, prefere tomar umas cervejas assistindo ao futebol na televisão?

Ou você ter preocupações genuínas com o desequilíbrio de forças na política mundial, após o desmoronamento ideológico do bloco soviético, enquanto sua cara-metade acha que Deng Xiaoping é uma versão light de porco agridoce?

Digamos que você gosta de boxe (ou aprecia aqueles parrudos homens suados apertando-se, esmurrando-se e agarrando-se ritualmente). Há um curso no Times Square Boxing Gym especialmente dedicado a advogados, médicos e profissionais engravatados: “White Collar Boxing”. Depois dele, coitado do cliente que vier reclamar de uma sentença, uma compra de ações ou um diagnóstico.

Quem acha Yoko Ono algo mais que a bem-sucedida viúva de John Lennon pode aprender com a própria as particularidades de “ O Processo Artístico que Desmitifica a Arte” – o que quer que isso queira dizer – no Whitney Museum. Aqui ela não vai acrescentar muita coisa à fortuna que já possui: dura um dia só, pela módica quantia de US$ 8 e vagas limitadas a quarenta pessoas.

Para algo mais excitante, porém sem perder o ar de o-que-eu-quero-mesmo-é-cultura, a CooperUnion oferece “The Erotic Element in Modern Literature”. Deve reunir um público ávido, durante as doze terças-feiras (US$ 78 mais US$ 7 de matrícula) em que o expert Barry Wallenstein exemplificará onde termina o rio do erotismo e começa o mar de pornografia.

Um tanto mais ousado é o curso “The New Queer Cinema”, da New School. São doze palestras sobre como, onde e por que o cinema gay vai estar cada vez mais presente nas telas. Custa US$ 200 e vem ilustrado por nove longas-metragens. Na mesma linha está “Erotic Photography: The Male Nude”, onde, por US$ 29, as fotógrafas Mariette Allen e Dianora Niccolini ensinarão como “capturar a sexualidade masculina” e “usar iluminação para obter os efeitos desejados” no homem pelado (que elas fornecem) diante de sua câmera (que você deve levar, junto com um filme de 400 ASA).

Minha fascinação fica mesmo por conta daqueles cursos que garantem melhorar a maneira como a gente vai tocando a vida no mundo. A confiar nas promessas de seus anúncios, não há limites que resistam aos seres humanos fantásticos e poderosos que podemos nos tornar a partir dali. Tudo por quantias rezoabilíssimas.

Que homem não paga US$ 39 para saber “Como Enlouquecer Sua Mulher na Cama”, ministrado pela stripteaser Christine Martin? Qual mulher não solta com prazer a mesma quantia para aprender “Roube o Homem que Você Quer dos Braços de Outra Mulher”? Quem resiste á possibilidade de aprender, de uma vez por todas, “Como Conquistar Um, a Qualquer Hora, em Qualquer lugar”, onde as dicas de Susan Rabin incluem desde postura até frases que aumentaram a descarga hormonal do alvo em questão?

Há também cursos que ensinam bruxarias, ler 25.000 palavras por minuto, fazer sucesso no show business, casar com homem rico, mudar de voz, mudar a aparência, mudar de marido.

Pra onde quer que se olhe, há um novo, ilimitado universo esperando por cada um de nós a partir desde outono.

Se não der certo, bem, há um monte de novos cursos previstos para o próximo inverno. Até lá, na falta de com quem partilhar tudo o que se aprendeu, há o consolo das novas peças e musicais na Broadway, os novos balés, concertos, óperas, os jogos de futebol na televisão e algumas garrafas de cervejas Rolling Rock na geladeira.

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