Sexo, mentiras e tabuleiros

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Por Stella Maris, do Centro de Treinamento Poliesportivo & Recreação do Puraquequara

Um fato nada olímpico ocupou as manchetes desportivas desta semana. A bombástica separação da supermodelo e astrônoma Svetlana Schuparova e do eneacampeão mundial de xadrez, categoria meio-médios, o brasileiro Vladimir Vladimirovich Vladimir.“Acabou”, decretou Schuparova, após 24 horas de vida conjugal.

Tudo começou na entrega do Prêmio Nobel-Davène – pela primeira vez realizada em Trancoso – quando Schuparova tornou-se a única intelectual do planeta a ser agraciada em duas categorias diferentes: “Simpatia” (sua desenvoltura ao não responder a pergunta sobre “teoria da gravitação quântica num cenário de hiperinflação argentina” cativou a todos) e “Lábios Mais Carnudos”, desbancado o ex-ator Wesley Snipes.

Vladimir compareceu à mesma cerimônia como atração de honra e disputou no octógono 112 partidas simultâneas com chefes de estado, sendo batido apenas por Raul Castro (embora observadores internacionais afirmem ter visto Chico Buarque e Fernando Morais embaixo da mesa, bagunçando as peças de Vladimir nos intervalos).

Apesar do esgotamento neuronial, Vladimir e Schuparova trocaram olhares estrábicos e casaram-se na mesma noite em cerimônia comandada por Valter Mercado.

Um estenógrafo foi chamado às pressas para redigir as 120 cláusulas do contrato pré-nupcial. Era mais um excitante lance na biografia de nosso campeão.

Garoto de origem humilde, Vladimir nasceu na isolada Capão do Muro Baixo, cidade com menor índice de PhDs do país. Muito cedo os pais o despacharam por carta registrada para Kamchatka, na Sibéria.

“Aqui seu único futuro é ser beijado por político em campanha, meu filho”, disse o velho Vladão enquanto selava o envelope.

Após aclimatar-se, o pequeno Vladimir, apesar dos dentes cruzados, dos dedos tortos, dos 45 graus de hipermetropia, das bexigas, do lumbago, das doenças venéreas, do membro desproporcional e da incapacidade em assinar o próprio nome (só conseguia escrever a palavra “bongô”), logo mostrou aptidão para o esporte mais popular no mundo: o xadrez.

Suas aberturas desconcertantes, o gingado malandro dos peões, o genial drible do cavalo, o xeque-mate de folha-seca e o efusivo soco no ar após as vitórias logo e cativaram uma legião de fanáticos e violentos torcedores, os “Peões da Fiel”. Grito de guerra: “Pensa, Vladimir! Pensa!”

Vladimir nunca jogava na retranca, jamais catimbava, nunca aparecia nos treinos. Partia pra cima da linha adversária fazendo o maior estrago.

O bad-boy do tabuleiro se dava ao luxo de deixar todas as suas peças serem comidas pelo incauto oponente, para aplicar-lhe um acachapante cheque-mate só com o rei.

Sua partida mais rápida deu-se contra o então campeão mundial, o russo-camaronês Porris Luambala.

Visivelmente nervoso (a camisa de força desalinhada, o babadouro todo manchado), o velho campeão observou atônito o esguio Vladimir, logo no primeiro movimento, pegar o peão, ameaçar colocar a peça numa casa, depois, noutra, de um lado para o outro, do outro para o um, e assim por alguns segundos de pura magia, até mover o peão para a frente – para delírio da torcida, que gritou o tempo todo “Olé! Olé!”.

Tonto e abalado, Porris Luambala simulou um “compromisso urgente” e abandonou o páreo.

Vladimir esteve perto de ser derrotado de jeito uma única vez, no fim de 1999, pelo supercomputador Bucefálus 12.5.

Na hora H, foi salvo pelo bug do milênio, que fez o sistema do oponente retroceder um século, reduzindo-o a uma máquina registradora.

Schuparova foi o 15º casamento relâmpago de Vladimir, cuja fortuna pessoal está no infravermelho, com uma muralha da China de advogados, profissionais da noite e bookmakers cobrando-lhe honorários.

Desiludido e cansado de ser paparicado pelas pessoas por seu “cerebrozinho bonito”, o campeão decidiu repaginar o visual e acaba de se internar numa funilaria.

Promete lançar um CD de breganejo, assim que terminar de treinar a dicção com as cabras de sua fazenda.

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