Sebastião Nunes: a sátira para poucos de um escritor incomum

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Por Chico Lopes

Conheci Sebastião Nunes lendo um artigo publicado por ele no site “Cronópios” em que brincava com a traição célebre da Capitu de Machado de Assis, numa gozação saborosa. Acho fundamental que os artistas não sejam criaturas solenes, auto-adoradoras e cheias de si como monumentos prematuros de uma glória que a gente sabe totalmente incerta num país como este, e gosto particularmente dos escritores para quem nada é sagrado e a brincadeira abre um caminho saudável de desmistificação (no caso do Brasil, a gente já está cansado de saber que, diante de tanta perversidade e absurdo, só mesmo rindo, ainda que o punhal continue a doer nas costas e o riso talvez seja um esgar).

Satisfeito com o artigo, li outros, e fui procurar saber sobre o Tião na Internet. Encontrei dados sobre uma vida de iconoclasta que me pareceu incomum e me arrisquei a escrever para o homem. Muito acolhedor e acessível, ele foi respondendo à vontade e iniciamos uma conversa, que deu em troca de livros. Os seus são particularmente divertidos e criativos e acho uma pena que pouca gente os conheça. Sua “História do Brasil”, pândega, seu “Decálogo da classe média”, sarro enorme nessa coisa que ele considera “inexplicável”, seu “Elogio da Punheta” e “Somos todos assassinos” me pareceram edições daquelas que a gente curte intensamente, como formas criativas de desabafo e bizarrice denunciadora. Sebastião é um homem ocupado, tem uma editora pequena e cuida da feitura e da distribuição dos livros sozinho, tendo também muito a dizer sobre o que é ser escritor neste país, sobre editores e tudo mais.

Fiz uma entrevista com ele, exclusiva para o leitor de “Verdes Trigos”, que não perderá em conhecer esse mineiro provocador.

Chico Lopes: O que é ser um escritor satírico, um grande brincalhão com palavras e idéias, num país onde a imagem do escritor, para ser levada a sério, cai em geral no pedantismo engravatado e na babaquice dos “doutores”?

Sebastião Nunes: É principalmente divertido, mesmo porque os autores “sérios” costumam desconfiar dos satíricos, aquela desconfiança de quem não sabe muito bem o que o cara está querendo. Houve um tempo em que a literatura me expulsava para as artes plásticas e estas me empurravam de volta para a literatura. Do mesmo modo, os poetas mais conservadores sempre me rotularam como concretista, coisa que nunca fui, e os ficcionistas me condenavam à poesia, mesmo quando escrevia prosa. Daí que nunca fui convidado para antologias de poesia ou de prosa, já que não me consideram poeta ou prosador, mas um corpo estranho, desqualificado. Com a atual permissividade entre as artes (é coisa de puta mesmo), ficaram com vergonha de me expulsar mesmo das periferias e então me ignoram ou desprezam, quando não fazem as duas coisas. Mas tenho uma meia dúzia de amigos e defensores ferrenhos, a maioria em São Paulo, turma da pesada, que tem dado as cartas na literatura brasileira recente. Isso quer dizer que não virei múmia nem estou enfaixado, já que a média de idade deles é de mais de 20 anos abaixo da minha, estando entre os 30 e os 50, havendo até quem esteja nos 20 e ainda alguns adolescentes. E quando me encontro com essa turma fazemos a maior farra. Quer dizer, não fui enterrado com minha geração. Se não fui digerido pela minha, vou sendo pelas seguintes. Talvez porque eu nunca tenha deixado de ser um moleque malcriado. Menos mal. Aliás, muito melhor.

Teus livros, criativos e impiedosos com tudo e todos, sugerem outros escritores que sempre foram ferinos, humoristas temidos como Karl Kraus, e até gênios do nonsense de outras áreas como Groucho Marx, mas sugere mais ainda gente que criou bizarrices e arrebentou com a linguagem, abusando dos neologismos e investindo numa espécie de surrealismo para exercer a crítica ou escapar à camisa-de-força das convenções: Lewis Carroll, Jonathan Swift. No “Decálogo da classe média”, as criaturas bizarras têm a função clara da crítica social através do riso, mas não de um riso que dê necessariamente alívio. Fale sobre isso.

Engraçado: até agora eu não sabia quem era Karl Kraus, descobri com você, porque fui pesquisar na internet. Tenho uma filha chamada Alice, o que já significa alguma coisa, principalmente porque o nome foi colocado por outra filha cinco anos mais velha, além de ter lido não sei quantas vezes o próprio Carroll. Sempre me diverti muito com o Groucho e tenho uma paixão sagrada pela “Modesta proposta”, do Swift, a melhor sátira (ou será ensaio humorístico?) que já li e continuo relendo. Acho que sempre que escrevo acendo uma vela mental em sua homenagem. O Decálogo é uma espécie de bestiário de nossa classe média, que não fode nem sai de cima. Foi também a maneira que encontrei de satirizar sem explicar muito. A classe média é inexplicável. Por falar nisso, a nona Lei, já escrita, se chama “Republiclame” e é um pastiche do Platão da República, mas pastiche extremamente livre. Os personagens são Socratião e Plautião, que dispensam explicações. Ah, é claro que se trata de um autêntico diálogo socrático. Também já escrevi várias das outras leis inclâmicas, as de números quatro a oito, três delas pastiches livres de clássicos da ficção científica (“1984”, “Admirável mundo novo” e “A máquina do tempo”), enquanto a última reconstrói a vida na Terra, dos primórdios até hoje. No fundo não passa de uma palhaçada, que é o máximo que a classe média merece.

“Somos todos assassinos” faz um ataque violento à publicidade, área onde você trabalhou. Pode falar disso um pouco mais?

Quando tive de ganhar a vida, fui obrigado a escolher entre jornalismo e publicidade. Preferi publicidade porque paga bem e exige muito pouco, em tempo e em inteligência. Mas com três meses já odiava a profissão. Continuei porque sempre fui inquieto (não me daria bem numa sinecura pública) e ganhava o suficiente para abandonar a profissão – eu jurava que para sempre – uma vez por ano, ou pouco mais que isso. Pedindo demissão ou sendo mandado embora, podia viver três ou quatro meses com a grana da indenização, e era o tempo em que eu produzia literatura. Nunca consegui escrever no emprego. Depois de algum tempo consegui trabalhar só quatro dias por semana ou então só na parte da tarde. Quer dizer: quase nunca fui publicitário em tempo integral, exceto nos primeiros anos. Ganhava o suficiente para viver e tinha tempo para escrever. Nunca quis mais do que isso, daí ter suportado a mediocridade publicitária durante mais de vinte anos.

A tua “História do Brasil” (editora Altana) é um compêndio de coisas heréticas e pseudo-biografias divertidas. Como o público o recebeu? Haverá reedição dele e de outros de seus livros em breve?

Minha “História” foi bem recebida pelos mais cultos, gozadores e inteligentes e desconhecida pelo resto, quer dizer, pelo grande público. Isso resume tudo. Aliás tudo que escrevi é um tanto difícil, tem muita intertextualidade, de modo que sem cultura mais ou menos ampla o leitor fica atolado num pantanal de idéias, citações, mentiras, chutes e heresias. Com o tempo certamente haverá reedição dela, mas por ser grande, difícil de entender e cara, isso deverá levar bastante tempo. Já os outros livros, por serem menores, são mais reeditáveis, digamos assim, sendo cínico e sincero. Este ano, ou no próximo, sairá a segunda edição do “Decálogo da classe média” e a quinta de “Somos todos assassinos”. Já é o suficiente pra ficar com o nariz fora d´água.

“O Elogio da Punheta” começa sendo provocador pelo título, usando um termo designado como “chulo”, aliás, muito mais engraçado, expressivo e apropriado que o douto e cabuloso “masturbação”. Mas não é um livro que vá satisfazer Juquinhas e quem procura pornografia pra todo canto. Fale sobre isso.

O “Elogio” é outra brincadeira com a linguagem e as pistas falsas que gosto de semear em meus textos. Parto é claro de experiências pessoais, que todo garoto teve e tem, mas divago de uma forma até irritante. Quando foi lançado, no Palácio das Artes de Belo Horizonte, órgão da Secretaria de Cultura, tive de escrever uma explicação, dizendo que era punheta no sentido intelectual, o que não deixa de ser verdade, aliás está muito mais próximo da verdade. E a punheta continua na segunda parte do livro, no pseudo policial “O mistério da pós-doutora”, um texto em que nada acontece.

Você se publica e publica livros infanto-juvenis, através de uma pequena editora-de-um-homem-só, a Dubolsinho. Decidiu tentar uma alternativa editorial e tem na certa muito a dizer sobre essa dificuldade danada de se publicar livros no Brasil. Fale sobre esta experiência.

Decidi ser escritor mais ou menos aos 15 anos, embora pensasse nisso desde os nove. Lá pelos vinte e poucos descobri que ninguém vivia de literatura no Brasil. Foi quando pensei em comprar um mimeógrafo e imprimir meus textos, idéia que nunca realizei. Quando desisti de escrever prosa, depois de muita tentativa frustrada, e também de ser artista plástico, idem, escolhi poesia e, nesse cipoal, a vertente experimental. Aí mesmo é que tive certeza de que nunca encontraria editor ou ganharia alguma coisa. Na década de 1960, quando já passava dos 25 anos, comecei a colaborar e a frequentar o Suplemento Literário do Minas Gerais, criado por Murilo Rubião, que incentivava ao máximo a turma nova, deixando que a gente publicasse qualquer coisa e fazendo vista grossa pra nossas asneiras. Foi com ele, pela sua benevolência com a experimentação e sua ojeriza com a pasmaceira dominante, que aprendemos quase tudo que nos levou adiante. O mais importante nisso tudo foi que retomei a prática esquecida (embora muito usada em séculos passados) da subscrição. O Suplemento tinha uma lista com cerca de 400 intelectuais brasileiros, os mais importantes, entre escritores, jornalistas, pintores, teatrólogos e críticos. Para editar meu segundo livro, em 1970, mandei uma cartinha pedindo dinheiro a todos eles, recebendo mais ou menos 70 respostas positivas, que já cobriam metade do custo. Quando o livro saiu, mandei um exemplar a todos os 400, mesmo os que não haviam respondido da primeira vez, e consegui completar 150 respostas positivas, suficientes para cobrir as despesas. Daí em diante fiz o mesmo e sempre consegui entre 150 e 300 respostas positivas, nunca menos ou mais do que isso. De forma que financiei todos os livros com a ajuda deles. Na lista havia desconhecidos totais, mas havia também alguns dos mais importantes intelectuais do país, e todos foram sempre extremamente generosos com minha mendicância. Por insistência de amigos cheguei a tentar editoras grandes, mas nunca fui aceito e isso não fez diferença alguma. Daí a Dubolso, que não publica mais nada, e a Dubolsinho, que criei há nove anos e vou levando aos tropeções. O melhor de tudo é que nunca me iludi com editores. São todos uns grandes comerciantes e nunca serão outra coisa, por mais que façam de conta que se interessam por livro e literatura. O que querem é lucrar e, por acaso, o produto que vendem é livro.

Você começa a receber o reconhecimento devido a uma literatura satírica genial, mas pouco conhecida. O reconhecimento para quem pratica a crítica social através de um humorismo negro como o teu confirma ou relativiza o poder da sátira?

Obrigado pelo elogio e pela compreensão do pequeno reconhecimento que obtive e continuo obtendo. Não quero mais do que isso. Mas eu não escolhi a sátira, ela é que me escolheu. Não sei escrever sério, acabo ficando piegas. Mas o poder da sátira é muito limitado. Se o escritor faz uma sátira ligeira é mais bem aceito, mas também facilmente digerível e consumível. Acho melhor ficar no ostracismo relativo, o que demonstra o grau de dificuldade na apreensão do que escrevo. Também tenho a maior birra de prêmios literários. Tenho conhecidos que ganharam mais de 20 prêmios e dormem sobre eles e também sobre o silêncio da crítica e dos leitores. Vão sumindo na poeira da estrada. E do tempo. E da literatura. Claro que de vez em quando um bom escritor é premiado, mas isso é raro, como sei por experiência própria de julgador em vários concursos, alguns até relativamente importantes.

 

Chico Lopes é autor de dois livros de contos, “Nó de sombras” (2000) e “Dobras da noite” (2004) publicados pelo IMS/SP. Participou de antologias como “Cenas da favela” (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como Cult e Pesquisa. Também é tradutor de sucessos como “Maligna” (Gregory Maguire) e “Morto até o anoitecer” (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios. Essa entrevista foi realizada em 12/8/2008.

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