“Se pudesse, não escreveria mais uma linha”, diz Sérgio Augusto

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O escritor e jornalista Sérgio Augusto revê sua carreira de 54 anos no jornalismo e fala sobre os temas que mais o instigam ainda hoje, como a literatura, os grandes cronistas e o declínio do jornalismo cultural brasileiro

Por Marcio Renato dos Santos e Luiz Rebinski

A história do jornalismo cultural brasileiro do século XX não pode ser contada sem que Sérgio Augusto empreste o nome a um verbete. Colaborador das principais publicações do país desde os anos 1960, quando estreou no jornalismo como crítico de cinema na Tribuna da Imprensa, aos 18 anos, Sérgio Augusto representa hoje uma espécie em extinção no jornalismo cultural brasileiro: a do jornalista que consegue, sem ser cabotino, escrever com a mesma propriedade sobre temas tão variados como cinema, música, futebol, problemas sociais e política.

Esse ecletismo já lhe rendeu elogios superlativos ao longo da carreira, como o de “Montaigne brasileiro”, exaltado por Moacyr Scliar na orelha de As penas do ofício, uma reunião de artigos de Sérgio Augusto publicada na metade dos anos 2000.

A literatura foi outro tema que rendeu ao jornalista muitos textos. Suas análises e memórias sobre autores importantes da nossa literatura povoam prólogos e posfácios de obras essenciais, em geral resgatadas do limbo editorial.

É o caso recente de O mais estranho dos países, livro de crônicas de Paulo Mendes Campos em que Sérgio Augusto dá ao leitor a dimensão do cronista mineiro dentro do cenário literário nacional.

Há poucos anos, o jornalista coordenou a reedição dos livros de Rubem Fonseca pela editora Agir, um dos temas que ele comenta nesta entrevista. O escritor também fala sobre jornalismo pós-internet, a derrocada dos cadernos de cultura tradicionais e o mercado editorial brasileiro.

Com a crise da imprensa escrita, os cadernos de cultura estão sendo escritos por gente muito jovem, que se submete aos salários baixos que os jornais oferecem hoje. Qual a sua avaliação a respeito do jornalismo cultural praticado atualmente no Brasil?

É uma cobertura utilitarista, norteada pelo mercado e pautada pelos divulgadores de editoras, artistas, produtores de filmes e peças etc, que se tornaram superegos dos editores. Se o noticiário político muito se ressente da promiscuidade que existe, sobretudo em Brasília, entre jornalistas e políticos, do jogo de favores que se estabelece entre eles, na cobertura cultural não é menor o compadrio, a complacência com os produtos lançados e a desigualdade de tratamento dispensado a quem é e não é amigo ou “funcionário da casa”. Em 54 anos de profissão nunca vi o jornalismo de patota ou dinástico praticado com tanta intensidade e desfaçatez como agora. Claro que em redações com alto índice de noviços e elevada rotatividade, onde o medo de perder o emprego só fez crescer nos últimos tempos, esse clima encontrou o ecossistema ideal para proliferar. As editoras mais poderosas praticamente editam o que sai sobre seus lançamentos e é publicado nos jornais; escolhem o dia, exigem primeira página, às vezes escolhem até qual veículo deverá ter prioridade ou mesmo exclusividade. Montaram um esquema que transformou os cadernos de cultura & amenidades em meras vitrinas, em extensões de seus press releases. E ai de quem ousar romper esse pacto sinistro.

Nos últimos anos o cerco tem se fechado para as publicações dedicadas à cultura no Brasil. As últimas baixas foram a revista Bravo! e o caderno “Sabático”, do Estadão, ambos veículos em que você era colunista. Por outro lado, a cultura se expandiu de outra maneira, com mais publicações segmentadas surgindo fora do Eixo Rio-São Paulo, sem falar na internet. Assim como acontece com a informação de um modo geral, os grandes veículos perderam a hegemonia e a relevância na área cultural?

Perderam, não sei quanto, e na certa perderão mais à medida em que a imprensa gutenberguiana apressar seu passo rumo à extinção. Há bastante jornalismo cultural de qualidade igual ou superior na internet, embora o lixo ainda predomine, quando nada porque na web o espaço é infinito e o que nela se divulga não é filtrado, editado, apenas manipulados por algoritmos desprovidos de qualquer senso crítico. Muita gente, especialmente as gerações mais novas, se informa pela internet, capta e troca opiniões pelas mídias sociais. O primado do jornalismo de serviço ao qual os segundos cadernos se escravizaram há duas ou três décadas, em detrimento de um jornalismo mais, digamos, reflexivo, crítico e impermeável à agenda de lançamentos, foi um tremendo retrocesso. Facilitou o trabalho e a ascensão de profissionais mal formados e informados, pois o jornalismo de serviço pouco exige deles, é quase um trabalho braçal, mas não atraiu novos leitores na quantidade almejada. Como o jornalismo impresso só terá futuro se tomar o caminho inverso, tornando-se reflexivo, analítico, nada de textinhos curtos e opiniosos, apanágio da internet, ainda lhe resta uma esperança. Mas o problema maior persiste: como superar a preguiça das pessoas para ler textos que excedam dois parágrafos curtos, sejam eles impressos ou pixelados numa tela? O maior paradoxo da internet foi ter inventado o hipertexto e estimulado o hipotexto.

“Fazer listas, esse passatempo adolescente que a juvenilização do planeta transformou num esporte ecumênico e onipresente, vem enchendo a burra de um bocado de gente.” A frase está no texto “Para quando o mundo acabar”, publicado na revista Bundas, em 21 de novembro de 2000, e incluído no livro Lado B. O jornalismo cultural utiliza-se do expediente. O que acha das listas? Faz sentido ter listas?

Fazer listas é um folguedo infantil (ou adolescente, como queira), uma masturbação taxonômica, inócuo e inconsequente. Já brinquei muito disso, em priscas eras, mas tomei fastio, assim como me cansei de dar cotações a filmes, estrelinhas, bolas pretas e outras avaliações reducionistas, tão tolas quanto as reações do bonequinho de O Globo. Sei que fazer listas é uma das coisas que distinguem o ser humano dos animais, mas não faço a menor questão de me distinguir por essa habilidade dos bichos que tanto admiro e venero. Já os questionários, cujo modelo mais famoso é o de Proust, me agradam.

Você é um entusiasta do jornalismo praticado em revistas americanas como The New Yorker e Atlantic. Temos uma tradição rica de grandes jornalistas, mas o jornalismo americano ainda é melhor que o nosso? Sempre foi?

Sempre foi. Tivemos e ainda temos jornalistas culturais de enorme talento – hoje em menor quantidade, certo –, mas nesse ramo os americanos e ingleses continuam imbatíveis. Só que nem nos Estados Unidos nem na Europa houve um fenômeno da magnitude de Otto Maria Carpeaux, que era austríaco mas se fez jornalista aqui no Brasil.

Recentemente a literatura nacional perdeu João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna, dois escritores que, de alguma forma, pensaram o Brasil em seus romances. Um tema que parece não estar na rota dos escritores contemporâneos. O romance-painel, como Viva o povo brasileiro, já não tem mais função, nossa literatura já explorou suficientemente a formação da nação?

Desconfio que sim. Ficaria surpreso se aparecesse aí um novo épico, um novo romance-painel do fôlego de Viva o povo brasileiro. Os romances encolheram, muitos são quase novelas ou contos espichados, consoantes a preguiça cada vez maior do leitorado, viciado pela internet e certos jornais na leitura de textos curtos. O roman-fleuve secou e nem podemos culpar a degradação do meio ambiente por esse desastre intelectual.

Quando se pergunta a um escritor com mais de 60 anos o que ele anda lendo, é provável que ele responda que não tem acompanhado as novidades, que está relendo livros que foram importantes em sua trajetória, mas não suficientemente digeridos como deveriam. Como pauta suas leituras hoje? Também está na fase da releitura?

Infelizmente não. Mas não é por falta de vontade. Não tenho mais aquela sofreguidão da onisciência, típica da imaturidade, que alguns chamam de juventude. Divido minhas leituras entre o desejo e a necessidade. O desejo está ligado, de certo modo, à curiosidade. A necessidade está sempre ligada ao trabalho. Gasto horas percorrendo links atrás de links para conhecer melhor um assunto sobre o qual escreverei (ou tentarei escrever) um artigo para o jornal, em geral para o “Aliás” do Estadão, que trata de questões mais ligadas à atualidade. Às vezes me meto a tratar de temas com os quais tenho pouca intimidade, justamente para superar essa lacuna. Há pouco gramei, em versão kindle, trezentas páginas de um fascinante estudo sobre o hidronegócio global— The Price of Thirst — porque cismei de tocar no problema da falta d’água em São Paulo. Talvez jamais o lesse se não tivesse de escrever sobre a escassez e a comercialização da água no planeta. Como quase sempre eu mesmo me pauto, pode me chamar de masoquista. Ah, sim, faço com livros o que faço com filmes: se me aborrecer, largo no meio – ou mesmo no início. A vida é curta e são muitos os livros que ainda não li por falta de tempo. Com ficção costumo ser implacável. Se um romance ou uma novela não me seduz, não me intriga, começo a me cobrar por que diabos não estou relendo Flaubert.

E a literatura de ficção brasileira contemporânea? Procura conhecer novos nomes?

Não como deveria fazê-lo, nem que fosse por mero dever de ofício. Milton Hatoum, Cristovão Tezza, Sergio Sant’Anna e Bernardo Carvalho me interessaram desde o início; outros (não citarei nomes) nem no início; e outros abandonei à medida em que fomos envelhecendo e envilecendo. Tenho graves lacunas, nenhuma, creio, tão gritante quanto Evandro Affonso Ferreira, que não vejo a hora de degustar. Confesso, sem culpa ou vergonha, que leio mais e com maior interesse os autores de língua espanhola. Nacionalismo em arte não existe.

Há certo consenso de que o mercado editorial brasileiro se profissionalizou nas últimas duas décadas, além de ter se expandido, com mais e melhores editoras. Isso passa tanto pela parte operacional do negócio, quanto, por exemplo, pelas traduções, hoje feitas diretamente de qualquer língua. Concorda com essa visão?

Concordo plenamente. As duas coisas caminham juntas, não? Quando leio um livro estrangeiro, costumo marcar a lápis as frases e expressões capazes de derrubar um tradutor; se por acaso me cabe resenhar sua edição brasileira, já tenho meio caminho andado: se o tradutor superou aquelas armadilhas, posso confiar no restante.

Quando Rubem Fonseca saiu da Companhia das Letras e passou a ser editado pela Agir/Nova Fronteira, você foi o responsável pela coordenação da reedição da obra do autor. Nesse trabalho, foram recuperados textos de outros autores sobre Fonseca, além de posfácios inéditos assinados por você. Como foi esse trabalho de revisão da obra de um escritor tão importante? A releitura dos livros de Fonseca foi reveladora em algum sentido? Apontou novas perspectivas?

Embora amigo de Zé Rubem desde o início dos anos 1960, quando ele ainda trabalhava na Light, não soube por ele de sua saída da Cia. das Letras, mas de Paulo Roberto Pires, então diretor da parte editorial da Ediouro/Agir. A Nova Fronteira ainda não havia entrado na história. Paulo Roberto partiu logo para conquistar Zé Rubem para suas hostes e me propôs fazer a curadoria da reedição, o que, segundo ele, facilitou sua cantada no cobiçado escritor, pois, conforme já disse, somos amigos de longa data. Parêntese importante: fui responsável pela ida do Zé Rubem da Francisco Alves para a Cia. das Letras. Luiz Schwarcz me confidenciou que adoraria ter Zé Rubem em seu catálogo. A transação foi facilmente armada durante um almoço en petit comité no Copacabana Palace com a agente espanhola Carmen Barcells, a escritora chilena Isabel Allende, Luiz Schwarcz, Zé Rubem, Nélida Piñon, Affonso Romano de Sant’Anna, este que vos fala, e não me lembro mais quem, no Copacabana Palace. Zé Rubem não estava satisfeito com a Francisco Alves e fez muito bem em ir para a Cia. Fechado o parêntese. Fazer a curadoria foi uma tarefa tranquila. Zé Rubem não lê, ou pelo menos diz que não lê, o que escrevem sobre ele e seus livros, mas seu arquivo de recortes, organizado por uma amiga, é farto e organizado. Nele e nos meus guardados catei as resenhas e os ensaios que me pareceram os mais relevantes, montei um arremedo de “fortuna crítica”, reproduzimos as capas das traduções de cada livro no exterior, escrevi os posfácios, e pronto. Posfácio é um fardo: supõe-se que seja lido depois do texto principal, o que, se em parte nos libera do risco de “spoilers”, nos obriga a fugir da redundância o tempo todo. Conforme os volumes iam saindo, meu estoque de observações e achegas sobre o autor e determinados aspectos e personagens de sua obra foi-se esgotando. Quase entrei em pânico. Seu conceito como mestre em narrativas curtas permanece, a meu ver, inabalado. Zé Rubem enobreceu o gênero noir entre nós e criou uma legião de discípulos e imitadores que nunca me apeteceram, até porque nunca fui chegado à literatura policial.

“Bunda” ainda é a sua palavra preferida da língua portuguesa? Por quê?

É. Por seu poder descritivo, por sua sonoridade. Também era a palavra favorita de Drummond. Gosto muito de cafuné, dengoso (dengosa é melhor ainda), chamego, pachola. Do ponto de vista estritamente semântico, minha favorita, em qualquer língua, é alívio. É o que sentimos quando superamos nossas piores dores e aflições.

Você mesmo afirmou: a televisão emburrece, a televisão é a cocaína do povo. Tem assistido algo na televisão? Caso sim, o quê?

Raramente vejo televisão. Para quem passa o dia plugado na internet, os telejornais pouco acrescentam. De todo modo, meu canal default é, faute de mieux, a Globo News. Até a Copa acompanhava de perto o futebol, mas me desencantei tanto com o futebol aqui praticado – e mais ainda com o Botafogo – que cancelei minha assinatura do PFC (Premiere Futebol Clube), uma inutilidade se você quiser apenas assistir aos campeonatos europeus, transmitidos de graça pela ESPN e pela Fox. Sou, em parte por necessidade geográfica, digamos assim, assinante da Sky Net, que é uma porcaria. Oferece trezentos e tantos canais, se me sirvo de meia dúzia é muito. Não podemos fazer nosso próprio pacote, cancelando o que consideramos lixo, como, no meu caso, por exemplo, os canais infantis (não tenho criança em casa), os evangélicos, os de compra e venda, os de leilão de gado etc. Dia desses descobri que estava pagando cinco reais por um canal que nem de graça me interessa: o japonês NKD. Isso é um sacanagem com o consumidor. O problema é que você não tem opção. A programação de filmes é uma tristeza – e até filmes dublados já passam na TV a cabo. Salvam-se os seriados e o Netflix. Fui um fanático seguidor de Mad men, desde o início, e também de House of cards, Newsroom e Homeland.

Alguém já comentou que há pontos de contato entre o seu texto e o de Paulo Mendes Campos. Há algo em comum? O que seria?

Nunca me disseram isso. Creia-me: você acaba de me fazer o maior dos elogios. Se temos algo em comum, só você, por enquanto, pode discorrer a respeito, e adoraria que o fizesse. Invejava a maneira como Paulinho conseguia ser, a um só tempo, erudito e claro, leve e profundo, lírico, sem pedantismo, informativo e encantador. Um jornalista cultural perfeito. Quem me dera pertencer a essa liga.

Atualmente há inúmeros textos autorais publicados na imprensa brasileira, crônica, comentário, opinião, etc. Quem são os seus cronistas, comentaristas favoritos? Quem você não deixa de ler?

A turma da New Yorker é indispensável. Idem, a maioria dos colaboradores da New York Review of Books. Assino uma porção de publicações, a maioria online, atualmente, de modo que seria fastidioso listar quem sigo, já segui e deixei de seguir. Já li com mais assiduidade Paul Krugman, mas economia não é minha praia. Da prata da casa, Elio Gaspari, Janio de Freitas, Renato Janine Ribeiro, Milton Hatoum, Fernando Calazans e Lucia Guimarães são os primeiros nomes que me ocorrem, e desde já peço desculpas aos que mereciam ter sido lembrados mas não foram – vistam a carapuça da vaidade. Há muito me dispensei dos cronistas que não saem do lero-lero, ficam fazendo embaixada com as palavras e nada me ensinam. Também não tenho saco para os cronistas-vovô, que nos impingem as gracinhas de seus netinhos e netinhas. Para ganhar tempo, paro de ler de imediato qualquer texto com clichês e expressões que abomino. De imediato, mesmo, ainda que o assunto me esteja interessando. É minha forma de protestar em silêncio contra o insulto que a meu ver representam coisas do tipo “resgatar a memória”, “conquistar corações e mentes”, “ícone” disso e daquilo, “emblemático”, e por aí vai, o glossário não para de crescer. Com a internet e seu vale-tudo vernacular, sintático e estilístico, esse descalabro atingiu culminâncias inéditas. Há blogs que, só de olhar, me provocam engulhos, com seus pontos de exclamação torrenciais, suas palavras “gritadas” em caixa alta, seu gosto por hipérboles do tipo “o máximo”, “genial”, “imperdível”.

De tempos em tempos você reúne sua produção mais recente em livro, como fez ao publicar Lado B e As penas do ofício. Teremos em breve uma nova reunião de seus artigos e ensaios?

Não tenho nada desse gênero programado. Vivem me cobrando uma coletânea do que escrevi sobre cinema, mas não me animo. As editoras de ponta me parecem cada vez mais arredias a compilações e similares. Por elas, o que saiu em jornais e revistas deve lá permanecer sepultado, à espera de que o autor morra e a próxima onda de nostalgia o traga de volta, quiçá com o rótulo de “esquecido”, “maldito”.

Você tem formação em filosofia, é aficionado por cinema, militante do jornalismo e um leitor voraz. Se tivesse que escolher apenas uma dessas manifestações artísticas, com qual ficaria?

Se pudesse, ficaria lendo e ouvindo música, não escreveria mais uma linha; ao menos por obrigação, para ganhar dinheiro, não escreveria. Quem por acaso aprecia o que escrevo deve torcer para eu jamais acertar um bolão da Mega-Sena.

Você não teve filhos e, a exemplo da narrador de Machado de Assis, “não transmitiu a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.” Não ter sido pai explica o fato de você ser um sujeito acima da média em sua atividade, que conseguiu se dedicar como poucos à cultura e à escrita? Ou essa observação não tem sentido?

Não sei se faz sentido. Não ter filhos me proporcionou mais tempo para viajar, disso tenho quase certeza. Deixava os gatos com minha mãe, e pé na estrada. Viajei muito, para tudo quanto é lugar. Tirei praticamente um ano sabático em 1974, viajando pela América do Norte e Europa. Felizmente cansei de voos e aeroportos na mesma época em que o jornal cancelou os dois bilhetes aéreos internacionais que todo ano me dava de bonificação. Quanto aos filhos, às vezes me arrependo de não ter legado minha miséria a uma criatura, de preferência do sexo feminino. Como minha mulher tampouco tem filho, nem irmãos, como eu, já me vejo, bem velhinho, vivendo da caridade de estranhos, como a Blanche Dubois. Se tiver sorte, é claro.

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