Sacro brasileiro

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Por Marcos de Vasconcellos

Ano 1950. Inaugura-se no Rio a TV Tupi e o Estádio do Maracanã. Eram raríssimos os aparelhos de televisão e raríssimas as câmeras da Tupi: apenas uma. Na primeira transmissão de futebol, Ary Barroso, experimentadíssimo narrador dos jogos pelo rádio, entusiasmado, falava sobre a maravilha eletrônica para os telespectadores e as extintas figuras dos televizinhos:

– Agora, meus amigos, os locutores de rádio não têm mais que se esforçarem com um imenso vocabulário para levar a você as emoções de um jogo de futebol.

Enquanto o Ary falava, a solitária câmera passeava pelo campo, mostrando os jogadores que se preparavam para o início da peleja. O Ary continuava o discurso:

– Não será mais necessário esmiuçar a finta, descrever o drible, anunciar o perigo, descrever as minúcias do lance; a maravilha da eletrônica levará aos seus lares as jogadas emocionantes, os gois inesquecíveis. Os jogadores, amigos, estarão dentro de sua sala, convivendo com seus familiares!

Nessa precisa hora, a câmera detém-se em Zizinho, que está parado e, brasileiramente, coçando, com unção e bonomia, a genitália.

O Ary, a voz resignada:

– Também tem dessas coisas…

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