Redes sociais estão deixando usuários “viciados” em likes

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Por Marcel Hartmann

Confesse: ver seu post cheio de likes é bem legal. Muita gente sente o mesmo – e não é por acaso. Quando recebemos uma curtida, nosso cérebro gera uma descarga de dopamina, mesmo neurotransmissor produzido quando comemos chocolate, fazemos sexo ou ganhamos dinheiro. Na prática, Facebook e Instagram nos dão prazer. E, ao que parece, estamos ficando “viciados” – pelo menos os mais jovens.

É o que indica um estudo feito na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e publicado em maio de 2016 na revista Psychological Science. A pesquisa mostrou que o cérebro de adolescentes fica exultante com likes.

Trinta e dois voluntários de 13 a 18 anos participaram de um experimento à la Instagram: em frente ao computador, foram expostos a 148 fotografias, das quais 40 eram deles mesmos.

Ao lado de cada imagem, havia o número de curtidas dadas pelos outros jovens – na verdade, a quantidade era designada pelos pesquisadores.

Os cientistas notaram que o núcleo accumbens, parte do circuito de recompensa do cérebro, era ativado toda vez que os adolescentes visualizavam suas próprias fotos com muitos likes. Feedbacks positivos, aparentemente, os deixavam felizes.

Muito provavelmente eles não estão sozinhos. Reação semelhante pode ser compartilhada pelas 1,3 bilhão de pessoas que fazem parte do Facebook.

Se fosse um país, a rede seria a segunda maior nação do mundo. E seus habitantes estariam unidos em torno de alguns objetivos em comum: entre eles, compartilhar informações, stalkear, curtir posts e ganhar likes.

Para os críticos das tecnologias, estamos modificando nosso comportamento para conquistar mais curtidas, sobretudo os mais jovens. Em última instância, ficaríamos cada vez mais vulneráveis a aprovação dos outros.

– Acredito ser possível que um tipo de vício possa ocorrer com likes e outros feedbacks virtuais. Eles são bons de receber, e algumas pessoas aparentemente anseiam por eles – afirma William Keith Campbell, professor de Psicologia na Universidade da Geórgia (EUA) e autor de três livros sobre o aumento do narcisismo nas novas gerações.

Essa possível mudança de comportamento foi sinalizada em um estudo de 2012 feito com 292 voluntários pela Universidade de Illinois, também nos EUA. O trabalho mostrou que, quanto mais amigos uma pessoa tem no Facebook, mais narcisista ela tende a ser. Ao mesmo tempo, aumentam as chances da publicação de comentários agressivos.

– Podemos, sim, ficar meio viciados em likes. Conforme as pessoas se refugiam nas redes, elas perdem a habilidade de se relacionar com os outros. Você vê jovens que não se relacionam ao vivo, mas estão nos smartphones. Isso gera a incapacidade de ler a emoção dos outros e faz a pessoa se refugiar dentro da vida online, porque lá temos mais controle – explica Cristiano Nabuco, coordenador do grupo de dependências tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da USP.

Reações nesse nível preocupam Sherry Turkle, professora de Psicologia do Massachusetts Institut of Technology (MIT) e referência mundial nos estudos do impacto da tecnologia na sociedade. Ela acredita que o uso massivo das plataformas digitais nos deixa com menos empatia e mais preguiçosos, egoístas e narcisistas.

Em seu mais recente livro, Reclaiming conversation, ela tenta responder a uma difícil pergunta: por que preferimos redes sociais à conversa presencial?

“Autobiografia em edição” nas redes

Mark Zuckerberg faz de tudo para isso. Os algoritmos do Facebook privilegiam que visualizemos publicações de quem pensa como a gente. Esse ambiente fraterno é perfeito para que o usuário se exponha e construa uma imagem de si.

Caso ele se arrependa, basta deletar. É o que alguns especialistas chamam de “autobiografia em edição”.

Em outras palavras, é a busca de modificar a memória que os outros têm de nós. Bom, ao menos a memória online.

O ideal é que o ato de postar seja visto de forma crítica. É o caso da blogueira de moda Júlia Fleck. Com 41 mil seguidores em sua página do Facebook e 12,8 mil no Instagram, a porto-alegrense posta de forma comedida para não cansar os seguidores.

Ela evita conteúdos polêmicos: prefere publicar fotos com seus cachorros e conteúdos de moda. Júlia também confessa manter no smartphone o InstaFollow, um aplicativo para monitorar quem parou de segui-la.

Atualmente, o recurso foi baixado por mais de 10 milhões de pessoas.

– Fico chateada quando uma pessoa de quem gosto ou que admiro para de me seguir. É como se ela não me admirasse de volta. Fico me perguntando: será que publiquei algo que fez ela parar de me seguir? – questiona.

Novas tecnologias, instintos ancestrais

A curtida é, por enquanto, a nova medida de popularidade do século 21. No entanto, o que motiva esse sentimento não tem nada de novo: pesquisadores veem a origem disso em um comportamento bastante ancestral.

“Nossa reputação é importante para nós. A seleção natural fez com que nos importássemos com nossa fama”, afirmam cientistas da Universidade Livre de Berlim em um artigo publicado em 2013 no Journal of Frontiers in Neuroscience.

Nele, relatam um estudo feito com adolescentes que também provou que o núcleo accumbens está envolvido em dar uma descarga de prazer nos jovens que ganham likes.

É que a boa reputação, há milhares de anos, era essencial para sobrevivermos. Na época, alguém “popular” tinha mais chances de ter um membro da comunidade que pudesse arriscar a própria pele para salvar o amigo.

Nossa alegria com likes viria de um instinto de sobrevivência: buscamos ser amados para termos por perto quem nos ofereça ajuda.

Essa ideia de que adaptamos comportamentos do offline para a web é adotada por vários cientistas que são entusiastas das tecnologias. Para eles, as redes foram criadas para suprir as necessidades das pessoas e trazem aspectos positivos.

É que elas mantêm laços sociais, em uma espécie de transposição da vida presencial para a mediada pela internet. Com isso, permitem que sigamos em contato com amigos com quem não falaríamos com tanta frequência sem a web.

Essa é uma das razões que motivam 55% dos brasileiros com 10 anos ou mais a usar a internet, o que corresponde a 94,2 milhões de pessoas. Destes, 80% navega na web todos os dias.

O que eles (e nós) mais fazem, você deve imaginar: enviam mensagens instantâneas por aplicativos como WhatsApp, Facebook ou Skype. Os dados são do Comitê Gestor da Internet.

Um reforço do que já somos

O gaúcho Henrique Negrini se define como um forte usuário do Facebook. Sócio da SDH Marketing Digital, ele deixa a rede social aberta no navegador ao menos oito horas por dia. Acessando ativamente, são pelo menos quatro.

Ele não gosta da exposição das selfies – sua “praia” são textos analíticos sobre acontecimentos do dia a dia. Por trás de cada post, está a ideia de interagir e provocar reflexões nos amigos da rede.

Negrini já escreveu para blogs, mas vê no Facebook uma ferramenta com maior alcance e possibilidade de feedback.

– Quando não há o retorno de uma pessoa, mesmo que seja com um like, dá uma desmotivação. Estou escrevendo isso para quem? Não há uma catarse. As pessoas têm a necessidade de que as coisas sejam compartilhadas. Como seres humanos, temos a necessidade de sermos ouvidos – afirma.

Professora e pesquisadora de redes sociais da UFRGS e da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Raquel Recuero lembra que essa necessidade sempre existiu. A diferença de hoje, para a estudiosa, é que a internet permite mensurar esse reconhecimento em números – isto é, em likes e visualizações.

– Muitos trabalhos mostram que as redes sociais funcionam como uma forma de manter conexões que não se manteriam de outra forma, e isso é positivo. Ao mesmo tempo, na mediação pelo computador, eu controlo mais o que quero dizer e a persona que quero mostrar – defende Raquel.

Em outras palavras, construímos personalidades que gostaríamos de ter: o Eu que entende de política, o Eu que entende de cinema, o Eu que sempre sai bonito nas selfies. Mas essas personalidades preexistem dentro de nós, ainda que de forma incipiente.

Uma pesquisa feita na PUC do Chile e publicada no periódico Personality and Individual Differences, por exemplo, fez um questionário para analisar os níveis de narcisismo de 1.225 pessoas.

As perguntas eram no estilo “Eu sou mais capaz do que outras pessoas” ou “Eu gosto de ser o centro das atenções”, para as quais os voluntários precisavam responder em uma escala de 1 a 5 o quanto se identificavam com as afirmações.

No final do período, 314 pessoas responderam o mesmo questionário e classificaram a frequência com que postavam selfies (sete para diariamente e zero para nunca).

Os resultados sugeriram que as redes sociais reforçaram comportamentos já existentes: narcisistas tiravam frequentemente fotos de si mesmos, e os likes os motivam a postar ainda mais.

A curtida, na prática, é o reconhecimento da importância de um indivíduo e uma moeda de troca: eu curto seu post para você, em um futuro breve, curtir o meu.

Mas essa relação, de certa forma, já existia, quando as pessoas eram agradáveis com conhecidos à espera de uma recompensa no futuro. A tecnologia coloca, na tela, nosso hábito em uma estética mais bonita: com fotos de viagens, pratos deliciosos e sorrisos de ponta a ponta.

– A tecnologia é uma ferramenta. A gente pode dizer que um martelo é bom ou mau em si mesmo? Qualquer artefato criado pode ser usado para os dois. A pessoa é que faz o uso de acordo com suas motivações. O detonador do problema são aspectos do próprio indivíduo, não da tecnologia – explica a psicóloga Rosa Maria Farah, coordenadora do Núcleo de Pesquisa e Psicologia em Informática da PUCSP.

O like, ela diz, é um reforço em nossa autoestima importante no dia a dia. Mas o perigo passa a existir quando o usuário fica ansioso na expectativa do elogio, argumenta Adriana Amaral, coordenadora da especialização em Cultura Digital e Redes Sociais da Unisinos:

– As redes têm efeitos positivos e negativos. Elas aproximam pessoas e, ao mesmo tempo, dão visibilidade a comportamentos narcisistas. O problema é que o gerenciamento da imagem pública talvez amplifique algum tipo de transtorno que a pessoa já tenha.

E agora, pais?

A ciência ainda não tem como bater o martelo sobre a total influência das redes sociais no comportamento de jovens. Afinal, o uso dessa tecnologia é muito recente.

O estudo feito na Universidade Livre de Berlim, que indicou que gostamos de likes por causa da seleção natural, salientou que heavy users das redes sociais podem ter menores notas escolares, redução da produtividade no trabalho e até mesmo depressão. Para evitar o uso prejudicial, pais devem dosar o tempo que os jovens ficam em frente à tela e acompanhar o conteúdo das postagens.

– O jovem termina a maturação do cérebro após os 21 anos. Tudo o que diz respeito ao controle dos impulsos, ele não tem. Os pais devem prestar atenção e acompanhar o jovem da mesma forma como fazem com qualquer outra atividade – aconselha Cristiano Nabuco, do Instituto de Psiquiatria da USP.

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