Lembranças da minha cidade natal (3)

0

Por Agripino Grieco

Em frente à cidade, do outro lado do rio, morava o major Damião, já afastado de seu cartório, amigo compadre de Carlos Gomes, que lhe comeu as boas conservas e bebeu os bons vinhos, sob o “céu de Paraíba” que viria a refletir-se numa das mais envolventes árias do nosso Ponchielli.

O escrivão José Cláudio não era homem dos sete instrumentos, mas de vinte ou trinta, arrancando melodias de quantos lenhos ou metais lhe apresentassem e fabricando flautas e flautins com uma habilidade de manual de estarrecer.

Forte na química dos licores era o Venâncio, dado a extrair todos os sabores de plantas trazidas pelos herboristas vizinhos.

Atirador dos mais certeiros, o Pedrinho Araújo matava pássaros no vôo, furava moedas que jogassem ao ar e tornara-se o espantalho dos adversários em dia de eleição.

No Mingu (aquele córrego onde nos banhávamos ao fazer gazeta, para indignação do professor) morava o italiano Salvador, a quem faltava uma orelha, perdida na semana em que fora guardado como refém por uns bandidos da Calábria.

Delicioso mel o das abelhas do morro do Brocotó, vendido por um mulato azedo, ao qual nem as fitas da Max Linder arrancariam um sorriso.

A irmandade do Rosário, que repelia os brancos, polemizava nas folhas com a irmandade de Sant’Ana, que repelia os pretos.

Acusados de destruir o erário da Casa de Caridade, os Valadares eram excomungados pelo bispo.

Muitas alcunhas na cidade: Neves Maneta, Milote, Pedro Galo, Joaquina Perereca, e um Dr. Soares, formado em direito pela molecagem dos conterrâneos, que conservou o título velhacamente até à morte.

Doces apelidos de raparigas ficaram em meus ouvidos para sempre: Miquita, que aproveitou os meus sonetos em papelotes, e Fifita, que acabou mulher de um farmacêutico, depois de namorar o sargento de polícia Guilherme Cruz, invejado por mim, devido à boina vermelha que ostentava e às continências que lhe faziam.

De quando em quando, quebrava-se a monotonia do lugarejo à chegada dos cegos cantores exímios em desfiar, ao som da guitarra, gosmentos fados lusitanos de que eu não recolhia senão farrapos de palavras.

Amadores restringiam-se, num teatrinho, a peças de poucas personagens e ambientação imprecisa, a permitir cenários sempre idênticos.

Para lavradores que tropeçavam na leitura dos nossos jornais e revistas, a Câmara adquirira suntuariamente livros em francês sobre agricultura técnica.

E as Afrodites de lá, as menos exigentes de qualquer Cítera, davam semanas de amor em troca de um par de chinelos de liga…

A esta altura, poderão indagar de mim: “E seu pai? Você não nos fala dele?”

Falarei agora, um pouco tarde, porque só um pouco tarde comecei a perceber quanto ele valia. Correndo a rua, eu me apegava a tanta gente estranha e esquecia a excelente criatura que tinha em casa, o instintivo adorador das belas-letras que, uma vez terminada a sua trabalheira diurna, me pedia lhe transmitisse, no original, um canto completo da “Divina Comédia”.

O filho não se expressava bem. E o pai, de zona em que se emprega emaranhado dialeto, perdia muita coisa do poema. Entanto, poderia dizer, à semelhança da mãe de Mistral ao ouvir os versos deste: “Não entendo tudo, mas vejo uma estrela!”

Pascoal Grieco era italiano, da Basilicata, e reportava-se sempre aos vinhos de lá, aos conventos em ruínas, aos últimos bandidos refugiados em altitudes alpestres, se perseguidos pelos carabineiros da casa de Sabóia, aos conflitos nas cantinas, onde o vinho escorria dos odres feitos com pele de bode.

Mamãe, a trabalhar em silêncio, sem nada de passeios e festas, movia-se de manhã à noite em salas estreitas e estendia a mais generosa das maternidades às criancinhas pobres que lhe fossem pedir doces ou frutas, e papai, verboso, gesticulante, gostava das palestras que o libertavam do balcão opressor, opinando sobre a política da terra, mandando-me ler as folhas em voz alta para que os frequentadores da sua venda se deslumbrassem com a dição do garotinho de calças curtas.

Quase não saía sem me levar pela mão através daqueles caminhos que pareciam destinados a emboscadas de sátiros e onde as flores ocultavam a sujeira dos muros velhos, enquanto o sol fazia todas as cigarras cantarem.

E descrevia-me a Itália, o seu período de caserna em Brescia, onde, mal o alfabetizaram, soletrou logo entre lágrimas as narrações do sentimental Edmundo P. Amicis.

Casara-se e viera para o Brasil, aceitando as tarefas de simples colocador de dormentes numa via férrea, passando a mascate e evitando a fazenda do chamado capitão Mata-Gente, inimigo de quem transitasse por seus redutos com dinheiro ou mesmo dos credores que fossem importuná-lo.

Metera-se em seguida a tintureiro e acabara num Jubiloso sentimento de triunfo ao saber-se dono do armazém de secos e molhados por ele pomposamente denominado “Fonte Limpa”, segundo inscrição bem visível na frontaria.

Era no tempo da cerveja marca Pá, da água Apollinaris e dos fósforos jockhopings. Tudo isso meu pai vendia, e eu, que nunca me envergonhei de auxiliá-lo até junto ao tacho de tintas, espanto-me ao sentir que um literatelho nosso, de cabeça em forma de paralelepípedo e cujos artiguetes só se alinham após aflitivos puxos cerebrais, rompeu relações com os que lhe recordaram o humilde gênero de comércio da parentela.

Muito depois de ter tido o seu tempo de serviço militar encurtado por ser bom atirador, foi Pascoal Grieco ao júri de Paraíba. Perfurara alguém a bala? Não, apenas derribara a cacete um mulato de nome Galdino que, além de caloteá-lo, o tratava de carcamano gatuno.

Não chegou à cadeia, mas houve necessidade de apelar, uma vez que os jurados, daltônicos a seu modo, se enganaram na escolha das bolas e o condenaram, fazendo com que se perdesse o farto bródio preparado para festejar-lhe a absolvição.

E ainda recordo o furor do honesto Pascoal à hora da sentença. “A culpa é de Colombo!”, dizia. Sem querer, repetia ele nesta exclamação, o trecho de uma das cartas em que o diplomata Gobineau, a caminho da América, descompôs o navegante genovês por haver descoberto o continente execrável.

Grande admiração de papai, especialmente pelos seus ataques ao clero, foi o publicista Saldanha Marinho, de quem sempre conservou o retrato, com aquele cavanhaque de Tio Sam, e outra admiração sua foi um pintor italiano que vagou pela Paraíba e se dizia parente do romancista Petruccelli della Gattina, autor das “Memórias de Judas”.

Eu ainda não percorrera este romance, que afirmam haver ajudado o Eça a escrever “A Relíquia”, mas gostava de ouvir o nome do prosador, quando o artista me falava do parente suposto ou verdadeiro.

O nome de Pina Manique sugere logo o rigor policial, sentindo-se, ao escutá-lo, um tinir de grilhões nos pulsos das vítimas. O de Petruccelli della Gattina, que perpetrou variantes perversas aos Evangelhos, sugere a independência dos felinos que preferem os telhados à lareira.

Belos dias os de 1900 a 1910! Caía o tempo com a leveza dos grãozinhos da ampulheta. Na venda da rua Marechal Deodoro, que o povo teimava em chamar de rua da Estação, reuniam-se os tipos mais dissemelhantes e até os mais opostos.

Gerente da empresa Salutaris, o português Barroso, que nunca bebeu água, aludia, a afagar as barbas que o tornavam um sósia do regicida Buiça, à placa colocada numa das fontes da empresa em homenagem a Nilo Peçanha e que foi retirada quando Nílo deixou o governo, retomando à fonte quando Nílo a ele retornou.

Ria-se muito o Barroso das coroas fúnebres que a viúva de um padeiro levava todos os anos, em dez ou doze caixas volumosas, do Rio a Paraíba, na manhã do dia de Finados, para ornar a cova do esposo, voltando com elas no trem da tarde, embora passasse o ano todo, com exceção do dois de novembro, a divertir os vivos da capital.

Quanto ao escrivão Santiago, fanhoso e perneta, gostava de mulatas bem novas e só era tradicionalista no amor aos vinhos velhos.

Fugia dos livros. Adormecera no começo da “Estética” de Véron, mais tarde classificada de veronal. E nem suportava romances de crimes. Folheando um, onde o assassino era o detetive e depois o próprio autor da história, apressara-se em deixar o volume, com medo de ser ele, leitor, o criminoso.

Ante a dedicatória de uma tese de medicina: “A meu pai”, indagou a quem seria oferecido o folheto, dada a filiação duvidosa do novo esculápio.

Ouvindo uma quadra do Celso Ribeiro, saiu-se com esta: “Tédio é sempre sem remédio, unicamente por imposição da rima…” Ria-se de um Cornélio Tácito, assinalando: “Coitadinho! Sofre calado…”

Para frisar o seu desprezo por outro cidadão, declarava: “Sinto-o pequeno, pequeníssimo. É como se o visse por um binóculo às avessas…”

E se o aconselhavam a vir ao Rio, a fim de visitar o Jardim Botânico e o Jardim Zoológico, respondia já existir isto em derredor, ali mesmo na Paraíba do Sul: aquelas árvores e aqueles sujeitos feiíssimos.

Desde pequeno, fui sentindo assim nos brasileiros a tendência a deprimir tudo, o gosto das deformações irônicas.

Ainda atrás do balcão paterno, ouvia eu tratarem a Guarda Nacional de guarda-não-sou-nada.

Nosso armazém fornecia gêneros aos trabalhadores de várias estradas de ferro em construção e observei que eles, em geral caloteados pelos empreiteiros, procuravam vingar-se chamando à Oeste de Minas, resto de Minas, à Sapucaí, essa porcaria, à Melhoramentos do Brasil pioramentos do Brasil, à Muzambinho, molambinho.

Mas o escrivão Santiago valia por vinte pessoas nas refregas da maledicência.

Três senhores detestava ele de modo especial.

O primeiro, um ateu que relutava em converter-se ao catolicismo e fazia disso grande alarde, inspirou-lhe este comentário: “Mas a Igreja não precisa dele, porque já tem lá o burro do presepe…”

O segundo era um português encarregado da iluminação das ruas e da limpeza pública da cidade. Apelidaram-no Zé do Lixo e, fiscalizando os seus combustores alta noite, espionava ele a vida dos lares locais, conhecendo melhor que ninguém os dois lixos das casas.

Finalmente, o terceiro era um advogado cearense que, no dizer de Santiago, se vira rechaçado de uma zona nordestina onde não chovia e fora chover maroteiras em nosso município, cumpliciando-se com um tabelião e um meirinho e devastando tudo, provocando demandas e enriquecendo, enquanto os litigantes, mesmo vitoriosos, feneciam na miséria.

Que vida mostrava o escrivão nos olhos ao articular essas coisas maldosas em tom roufenho, com algo de flautim endefluxado!

Nem aos parentes poupava. Até de um tio seu, que se formara em medicina e morrera logo, insinuava que se dera em holocausto pelas suas possíveis vítimas futuras.

Deixe uma resposta

Please enter your comment!
Please enter your name here