Rappers gays contra a homofobia no hip hop

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Por Ana Freitas

Rappers gays e bissexuais existem. Eles estão saindo do armário para as batalhas de MCs e para os festivais de música. E isso deve mudar a cara do hip hop, gênero outrora conhecido pelo machismo dos clipes cheios de mulheres seminuas que ficam com os caras de corrente de ouro.

O rap mainstream começou a flertar com o discurso de tolerância no hit “Same Love”, do rapper Macklemore, que defende o amor entre gêneros iguais. A música ganhou performance ao vivo e discurso de Macklemore no Video Music Awards, premiação de clipes da MTV, em 2013.

As cenas underground no Brasil e no exterior têm apresentado novos rappers talentosos que são LGBT. Seu espaço vem aumentando em razão da diversificação do público que ouve hip hop. No início, esse tipo de música era feito por e para homens. Mulheres foram incluídas. Homens brancos também. Agora é a vez do público LGBT.

“Há pessoas gays, homens e mulheres, produzindo trabalho de qualidade e que vão conquistar seu espaço quer os homofóbicos queiram ou não. Com o passar do tempo, a exceção vira regra e as pessoas passam a se acostumar”, diz Eduardo Ribas, jornalista responsável pelo blog Per Raps, especializado em hip hop.

Conheça alguns rappers que já saíram do armário e usam a música para falar do tema:

Rico Dalasam – “E aí, bi? Ficou rica de uns anos pra cá. E aí, bi? […] Tá riquíssima”, diz a letra de “Riquíssima”, cheia de gírias do universo gay. Rico Dalasam cresceu no Taboão da Serra, na região metropolitana de São Paulo, e lançou o primeiro disco de rap brasileiro com temática gay, Modo Diverso. Ele diz que sua música espelha as baladas gays do centro e os shows de rap da periferia de São Paulo: “Seria natural que eu refletisse esses dois mundos. Minha música é esse encontro de protesto, autoafirmação e dança”. Rico participou do disco mais recente do rapper Emicida, “Sobre crianças, pesadelos, quadris e lições de casa”.

Mykki Blanco – O americano é um dos pioneiros do movimento chamado de Queer Rap, que mistura a estética gangsta com elementos do universo drag. Michael, o alter-ego de Mykki, já se descreveu como transgênero e multigênero e se declarou soropositivo em um post do Facebook. As letras têm influência do movimento Riot Grrrl: são rápidas e agressivas. Em “Join My Militia”, ele descreve o amante como quem faz uma ficha policial: “Seu nome: Ahsan Abdul. Peso cento e setenta, altura sessenta e dois. Tamanho doze de sapato, cabelos negros, olhos castanhos. O sorriso mais caloroso do mundo, mas sangue-frio por dentro”.

Childish Gambino – É esse o nome de trabalho como rapper do ator, escritor e humorista Donald Glover, de “30 Rock” e “Community”. O artista nunca fez nenhuma declaração se assumindo homossexual, mas tem algumas letras românticas em que usa substantivos e pronomes masculinos para falar de amor. “Acho que você é especial de verdade. […] Vamos ficar juntos, eu e você, garoto, não tem ninguém igual a você por aí”, diz “So Into You”.

Le1f – O rapper e produtor dos EUA é dono de um selo de hip-hop, Camp & Street. É um dos mais notórios rappers do estilo Queer Rap, com performances explosivas, clipes e coreografias cheias de referências do universo gay.

Frank Ocean – Ele saiu do armário em uma postagem no Tumblr em que ele diz já ter se apaixonado por homem. Não significa que o rapper norte-americano Frank Ocean seja gay, mas é um posicionamento que gerou repercussão – especialmente no universo machista do hip-hop. Depois disso, o rapper T-Pain veio a público para manifestar apoio a Ocean. Disse que conhecia artistas que não trabalharam com ele por causa de sua orientação sexual e que isso não fazia sentido.

Cakes Da Killa – “The Eulogy”, o segundo disco do rapper, foi bem avaliado pelo site de resenhas musicais Pitchfork. Norte-americano, Cakes é assumidamente gay. Suas letras falam de sua vida sexual com homens e criticam a homofobia, como em “Get Right”, em que ele diz que vai rimar tão bem que vai transformar os fãs “homofóbicos em hipócritas”.

Zebra Katz – Ojay Morgan é Zebra Katz, rapper que se define como “negro, queer e outros”. Seu hit “Ima Read” ganhou as pistas quando virou trilha sonora de um desfile da semana de moda de Paris, em 2013. Ao jornal inglês “The Guardian”, ele falou sobre o desafio de ser um homem abertamente gay no hip-hop: “dá medo se posicionar como um homem queer. As pessoas são atacadas no mundo todo, mas você tem que usar sua sexualidade como uma ferramenta, em vez de deixar os outros a usarem contra você”.

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