Prefeitura quer matar artesãos indígenas de fome

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Confinados num estacionamento na Rua Floriano Peixoto onde não entra ninguém nem para pedir informações sobre endereços de repartições públicas, os artesãos manauaras, quase todos indígenas, estão comendo o pão que o diabo amassou. Quando tem pão.

“Trabalhei 22 anos na Praça Tenreiro Aranha e todo dia conseguia vender umas coisinhas para os turistas”, queixa-se a índia Maria Saterê. “Aqui, a gente passa até uma semana sem conseguir apurar um mísero real. Como vamos colocar comida na mesa dos nossos filhos? É desesperador!”

Na última segunda feira, a reportagem do CANDIRU esteve no local das 10 às 12 horas da manhã. Não apareceu um único cliente.

“Esse ‘movimento’ é assim o dia inteiro, a semana inteira, o mês inteiro”, reclamou o índio Paulo Tukano. “Muitos dos parentes estão desistindo da profissão por que não querem morrer de fome. A gente não sabe mais pra quem apelar!”

Os problemas dos artesãos indígenas começaram há três anos, quando a Prefeitura de Manaus interditou a Praça Tenreiro Aranha para fazer a chamada “revitalização do centro de Manaus” e os transferiu para um lugar provisório.

Como tantas outras promessas de campanha do Arturzão, essa também não saiu do papel. E o que era para ser um endereço provisório dos artesãos começou a tomar ares de local definitivo.

Na verdade, com exceção de uma placa ainda existente na Praça Tenreiro Aranha indicando a remoção dos artesãos, nada mais foi feito pela Prefeitura. Os próprios moradores da cidade não sabem da existência dessa nova “feirinha”, localizada onde judas perdeu as botas.

“Ninguém sabe que estamos aqui, nesse verdadeiro campo de concentração, longe de tudo e de todos, principalmente do nosso público-alvo que são os turistas”, analisa o artista plástico Mauro César, que vende camisetas pintadas a mão. “Mas se a gente cair na besteira de fazer como os peruanos e haitianos, que colocam suas barraquinhas na rua, os fiscais da Prefeitura vem e tomam tudo. Parece que eles têm implicância com nós…”

Diferente das cidades nordestinas, onde o artesanato é incentivado e respeitado – basta visitar o Mercado Central de Fortaleza e o Centro de Artesanato de Pernambuco, em Recife –, Manaus continua tendo vergonha de suas origens.

“A cultura popular nunca foi valorizada em nossa capital porque as elites locais são provincianas, continuam com a cabeça na Europa ou nos Estados Unidos”, avalia o antropólogo José Luiz Beltrão. “É por isso que se gasta R$ 10 milhões num Festival de Jazz para meia dúzia de pessoas e não se gasta R$ 2 milhões numa Festa de Carnaval para 100 mil pessoas. As elites têm nojo da ralé e nenhum apreço pelas nossas origens indígenas. Para eles, isso é um estorvo que deve ser combatido a ferro e fogo…”

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