Por que a Cidade do Cabo pode ficar sem água?

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Nas últimas semanas, a população de Cidade do Cabo vem rezando para chover, algo que não vem acontecendo o suficiente. A vegetação da cidade está seca e morta, as piscinas estão vazias e os reservatórios que abastecem a cidade estão operando com 26% de sua capacidade.

A Prefeitura da cidade alerta para o risco da chegada do Dia Zero, quando os reservatórios cairão para 13,5% de sua capacidade. A menos que as coisas mudem, tudo indica que o Dia Zero vai chegar no dia 16 de abril, embora estimativas anteriores tenham apontado que seria em 22 de abril.

Tal fato fará da Cidade do Cabo a primeira metrópole do mundo a ficar sem água. Os moradores terão de enfrentar filas em postos de abastecimento, onde terão um limite diário de 25 litros de água por pessoa. Tudo isso sob a supervisão de guardas armados.

A população vem racionando o uso de água, recorrendo a banhos mais curtos e ao uso esporádico de descargas. Estabelecimentos comerciais também vêm reduzindo o consumo de água. Os cidadãos se perguntam como as coisas chegaram a este ponto?

A Cidade do Cabo é a segunda mais populosa da África do Sul, com cerca de 4 milhões de habitantes. Mas o desenvolvimento de novas fontes de abastecimento de água não acompanhou o crescimento da cidade. O clima também contribuiu para levar a situação ao limite. As últimas temporadas de chuvas, que ocorrem entre abril e maio, geraram poucas precipitações.

Segundo Piotr Wolski, um pesquisador do Grupo de Análises Climáticas da Universidade da Cidade do Cabo, a seca que vem afetando a cidade desde 2015 ocorre numa escala de uma a cada 300 anos. A prefeita da cidade, Patricia de Lille, culpa os moradores, que, segundo ela, não respeitam os limites de uso diário. Segundo a Prefeitura, apenas 41% obedeceram ao limite de 87 litros diários de água por pessoa, meta que agora caiu para 50 litros por pessoa. Como forma de punição, multas são aplicadas a quem usar grandes quantidades de água.

A chegada de chuvas em boa quantidade, somada ao respeito ao limite de 50 litros diários poderia salvar a cidade do Dia Zero, pelo menos até a temporada de chuvas deste ano chegar. Porém, muitos cidadãos se perguntam quanto a crise atual é culpa do clima e quanto é culpa da falta de planejamento do governo.

A cidade é governada pela Aliança Democrática, que se apresenta como um partido limpo e transparente. Porém, a liderança local está em crise e o partido estuda expulsar a prefeita Lille por suspeitas de corrupção. Para piorar, a Aliança Democrática vive um embate com o Congresso Nacional Africano (CNA), partido que governa o país. A aliança acusa o CNA de falhar em investimentos para abastecimento de água.

À medida que o Dia Zero se aproxima crescem também os temores do alastramento de uma crise sanitária, uma vez que a população lavará menos as mãos e reduzirá outras ações básicas de higiene. Isso em pleno momento que África do Sul enfrenta uma séria epidemia de listeriose, uma infecção bacteriana causada pelo consumo de alimentos contaminados.

A economia da cidade também seria afetada com o Dia Zero, já que muitos estabelecimentos suspenderiam as atividades, pois o fornecimento de água seria restrito a serviços essenciais como escolas e hospitais. O turismo na Cidade do Cabo, hoje um alento em meio às agruras econômicas do país, seria prejudicado, assim como a agricultura, outro ponto forte da cidade.

No campo político, o Dia Zero poderia comprometer as ambições da Aliança Democrática, que tem planos de enfrentar o CNA nas próximas eleições gerais do país.

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