Poetas oficiais

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Por Ivan Lessa

Os ingleses gostam de futebol, mas praticam a poesia. Tenho a impressão que já li, ouvi ou, quem sabe?, escrevi esta frase em algum lugar.

O que ela quer dizer é que o futebol pode ser o esporte das multidões, mas é de poesia que eles, os ingleses, são bons.

Assim como é covardia citar Pelé ou Garrincha em matéria de futebol, covardia também é citar Shakespeare ou W.H. Auden na poesia.

Na poesia, eles, os ingleses, têm cintura, malícia, jogo de corpo, tudo aquilo, enfim, que falta à seleção mesmo ganhando (como ganhou recentemente) da Alemanha de 5 a 1.

Vai daí que uma das coisas mais comuns aqui no Reino Unido é o cargo de “poeta em residência”.

O que e quem é essa figura? É mais ou menos feito o Poeta Laureado: tem o encargo de versejar sobre temas de ocasião e a propósito.

Em segundo lugar – e isso é importante –, o poeta ganha pouco, muito pouco.

Seja laureado pela rainha, seja em residência no Banco da Inglaterra, que aliás não sei se tem ou não um poeta em residência compondo sonetos em louvor da libra ou, mais controvertidamente, em louvor do euro.

Fato é que notícia desta semana anuncia que a polícia britânica não só inaugurou, em Humberside, o cargo de um poeta em residência como também este produziu seus primeiros versos.

Trata-se de Ian McMillan, que, aliás, frise-se, possui alguma experiência do cargo, uma vez que já fixou residência também num time de futebol, o Barnsley, modesto em resultado de jogo, mas rico de rima.

Um porta-voz da polícia de Humberside explicou que a intenção era fornecer “uma visão alternativa do policiamento ostensivo.”

Parece-me uma solução das mais inteligentes.

Não só seria uma maneira de calar para sempre essas pessoas que vivem dizendo que a poesia, por mais bonita que seja, não dá camisa a ninguém, como ainda há a distinta possibilidade da poesia comover e dissuadir os malfeitores de seus nefandos propósitos.

E se é para ficar no Brasil imitando (mal) o “gangsta rap”, por que não tentar uma solução elegante?

O soneto policial petrarquiano condenando os traficantes de drogas e assaltantes de uma forma geral.

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