Péricles, o pai do Amigo da Onça

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Criador e criatura: o cartunista Péricles e seu mais famoso personagem

Por Frima Santos

Ele nasceu no Recife, em 14 de agosto de 1924, e publicou seus primeiros desenhos ainda no Colégio Marista, onde estudava. Mas foi em 1940, com apenas 16 anos, que entrou pela redação do jornal Diário de Pernambuco com dezenas de desenhos embaixo do braço e entregou tudo ao jornalista Aníbal Fernandes. Impressionado com a habilidade do menino, o jornalista escreveu uma carta a Leão Godim, então diretor da revista O Cruzeiro, recomendando o jovem desenhista.

Veio para o Rio de Janeiro, então capital federal, com a cara, coragem e a carta – claro, a ser entregue ao diretor da então revista semanal ilustrada mais lida da América do Sul.

Péricles de Andrade Maranhão, ou simplesmente Péricles como passaria a ser conhecido, foi contratado como contínuo e, aos 19 anos, já era o mais novo de uma equipe de jornalistas. Chegou a ser parceiro de Millôr Fernandes na lendária seção Pif-Paf, mas foi com o Amigo da Onça que faria história.

O primeiro desenho saiu na edição de 23 de outubro de 1943 e logo se tornou o mais importante e popular personagem do humor brasileiro nos anos 40 e 50. Com direito a garrafinha com seu rosto, bibelôs que decoravam de cozinhas a salas de jantar e quadrinhos com a célebre frase “Fiado, só amanhã!”. Lembram disso nos bares pé-sujos da cidade? Pois é, criação de Péricles!

Péricles tinha tentado outros personagens antes, mas sem muito sucesso. Um dia lhe contaram uma piada sobre uma onça e, conta a lenda, ali mesmo sentou e desenhou um boneco. Nascia e era batizado, então, o Amigo da Onça. Com suas piadas irreverentes, sorriso irônico, jeito malandro e bigodinho (moda entre os meninos hipsters da época), o personagem estava sempre impecável em seu summer jacket branco.

Interessados em saber qual foi a piada?

Dois caçadores conversam enquanto estão no acampamento…

– O que você faria se estivesse agora na selva e uma onça aparecesse bem aqui na sua frente?

– Ora, daria um tiro nela – diz o amigo.

– Mas e se você não tivesse nenhuma arma de fogo?

– Bom, então eu a mataria com meu facão.

– E se você estivesse sem o facão?

– Apanharia um pedaço de pau.

– E se não tivesse nenhum pedaço de pau?

– Subiria na árvore mais próxima!

– E se não tivesse nenhuma árvore?

– Sairia correndo.

– E se você estivesse paralisado pelo medo?

Então, o outro reclama irritado:

– Mas, afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?

Voltamos à história de Péricles. Quando não estava na redação carioca, estava nos bares das redondezas, conversando com garçons, prostitutas, motoristas, gente comum de onde colhia histórias para as situações de malandragem que escrevia para o personagem. Aos vinte e poucos anos, no apogeu de sua fase artística, passou a ser reconhecido, mas não pelo nome de Péricles e sim pelo nome de seu personagem.

Foi casado duas vezes, a primeira com Angélica Maranhão e a segunda com Kátia Santana. Do primeiro casamento veio o único filho, Péricles Filho, a quem ele chamava carinhosamente de Oncinha. Durante a abertura de uma exposição retrospectiva sobre Péricles, Angélica Maranhão disse ao GLOBO em reportagem publicada no dia 26 de julho de 1982:

– Normalmente era sisudo, mas tinha um grande senso de humor. Quando menos a gente esperava ele soltava uma daquelas tiradas que fazia todo mundo rir. Sua capacidade de raciocinar e perceber as coisas era também incrível. Observador, tudo era motivo para ser transformado em charge.

Chegou a virar peça de teatro em 1988. “O Amigo da Onça” foi escrita pelos também cartunistas Chico Caruso e Nani e dirigida por Paulo Betti. O elenco contava com, entre outros, Chiquinho Brandão, Andréa Beltrão, Cristina Pereira, Sérgio Mamberti e Eliane Giardini. Chico Caruso mergulhou na pesquisa e chegou a estabelecer uma identidade com o colega humorista, revelou ao GLOBO na edição de 22 de novembro de 1987.

– Tenho sensações parecidas com as dele. É como se estivesse na cabine do piloto de um avião chamado Péricles.

Paulo Betti, em entrevista ao jornal publicada em 16 de abril de 1987, falou de sua admiração:

– O Amigo da Onça é, sem dúvida, o personagem de humor mais popular do Brasil. Ele foi publicado de 1943 a 1961 em O Cruzeiro, garantindo vendagem de cerca de 780 mil exemplares em todo o país. As pessoas compravam a revista para ler as suas aventuras, e todos se divertiam com elas. Os leitores recortavam as tirinhas, colecionavam, faziam álbuns. O Amigo da Onça fez parte da minha adolescência também, e eu lembro da empolgação que sentia com suas histórias.

O humorista que sabia fazer o país rir também era triste. Tinha um temperamento sensível que o fazia extrovertido e sentimental, angustiado e insatisfeito, isso tudo ao mesmo tempo. Sua notória boemia e farra com amigos escondia um homem profundamente solitário e infeliz. E, apesar de manter uma aparência engraçada, sofria de depressão. O Amigo da Onça era sua válvula de escape e, como tantos com exacerbada sensibilidade, não conseguia lidar com seus temores e frustrações.

Com o passar dos anos, já não frequentava mais a redação da revista, apesar de ir toda quarta-feira entregar seus desenhos – sem nunca falhar. O resto do tempo passava nos bares, sempre com um copo na mão. Na tarde de 31 de dezembro de 1961, solitário, Péricles foi para casa, o apartamento 612 do Edifício Monte Claro, na Rua Barata Ribeiro 160, em Copacabana, na Zona Sul. Lá escreveu três bilhetes, um para sua mãe e o segundo: “A quem interessar possa”.

A história da vida de Péricles Maranhão terminava ali, aos 37 anos. Ele foi para a cozinha, abriu o gás do forno e, antes de fechar todas as portas e janelas com fita adesiva, pendurou o terceiro recado na porta: “Não risquem fósforos”. Foi encontrado morto com a cabeça sobre um travesseiro no chão da cozinha. Estava impecavelmente vestido com um terno de linho branco, camisa azul, gravata escura e sapatos de verniz preto. O criador à imagem e semelhança foi engolido pela criatura; o humor que criou é, entretanto, imortal.

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