Pequena biografia de alguns rebentos ilustres

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Por Millôr Fernandes

Pedro Tico Lavinhe – Filho de um humilde milionário de Teresina, com mania de explorar experimentalmente os seus empregados para ver até onde vai a resistência do proletariado. Essas experiências, aplicadas no Metrô do Rio de Janeiro, permitiram que trabalhadores ficassem dando duro até setenta e duas horas sem reclamar da falta de alimentação. Lavinhe se dedica de corpo e alma à política aduaneira de liberar bagagens de poderosos. Por isso se considera um liberal.

Renato Sireisilva, que recebeu esse nome de batismo em homenagem a vários ministros ao mesmo tempo, com um ano de idade já engraxava o sapato das visitas importantes e dizia, bem alto: “Que bonita é a sua careca, senhor ministro!” Ficou realmente espantado ao saber que a PUC não tem nenhum curso de puxa-sacos, pois mesmo uma pessoa pouco observadora percebe logo que é a atividade mais prestigiada e mais rendosa de quantas se exercem no país. De qualquer forma, Renatinho, quando crescer, vai ser adjunto.

José Badalin de Souza Quintas (Martino) – Desde 1492, quando Colombo deu com os costados na América, seus ascendentes vêm ocupando espantosos cargos públicos, com exceção de um bisavô, condenado a trabalhos forçados porque, inabilmente, se distraiu e afanou pouco. Martino é um intelectual puro, agindo sempre com todo o respeito por alíneas e parágrafos do código vigente, mas, sendo necessário, demonstra também extraordinária agilidade com os dedos. Extremamente míope, seu grande sonho na vida é, um dia, ser Homem de Visão.

Angélica Bompiano – Os progenitores – a progenitora mais do que o progenitor – são presidentes de seis departamentos de relações públicas ministeriais. Dirigem também um cursinho de comunicações e uma faculdade subterrânea de relações públicas. Angélica porém prefere muito mais se dedicar às relações particulares. Diz que não tem jeito para andar assim na rua, mas vai à praia num biquíni que poderia ser vendido pela Johnson & Johnson como bandeide. Angeliquinha vem subindo muito. Atualmente já está em seu terceiro milionário.

Carlinhos Nova Soares (Baby) – Filho espúrio do nosso estimado amigo e colaborador – não perguntem em quê – Reembrant Pessoa Basílico, respeitado técnico em finanças inafiançáveis, considerado extraordinário especialista em crises fiduciárias e mudanças súbitas de política cambial. Carlinhos, por sua vez, é tido como habilíssimo em vários tipos de contato. Ultimamente vive a bordo do Concorde, entre Rio e Paris, com ligeiras paradas no Regine’s e no Maxim’s. É casado e tem quatro filhos, mas a mulher não sabe.

Joca Nenúfar – A mãe e o pai de Joca, com trabalho duro e suado, louvando e puxando o saco de todos os políticos no poder, conseguiram comprar um pequeno terreno de seiscentos mil metros quadrados na Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro e, um dia, cavando distraidamente (são muito cavadores) no fundo do quintal, encontraram um magnífico reservatório de ouro negro na diretoria da Petrobrás que por acaso ia passando. Joca é partidário ferrenho das eleições indiretas, que não dão despesas com votos, e do cinema mudo, justamente porque não fala.

Mariinha Nini – O avô de Nini foi um incansável defensor da família constituída, além de fundador e principal acionista de uma cadeia de motéis na Barra. Lutou ferozmente pela emancipação da mulher, dando-lhe o direito de trabalhar em igualdade de condições com os homens em suas minas de carvão em Santa Catarina. Nini, seguindo a tradição do avô, também tem batalhado por melhores condições de alimentação popular nos restaurantes de luxo, embora seja contra a campanha “Pechinche” se estender às boates e night-clubs.

Adolfo Rita Passos – Dileto rebento do Dr. Veiga Contral – que andou sumido uns tempos –, atual diretor-geral das atividades lúdicas dentro do iate transatlântico do presidente da Automotores Nacionais, Adolfinho, apoiado pelo pai, importa motores extras (o barco já tem seis motores) para – pura previdência, lógico! – evitar enguiços do iate oficial no meio da baía de Guanabara. Atualmente passando suas férias no Hipopótamo, Adolfinho está se especializando, na Suíça, em fondue de queijo e contas numeradas.

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