Pela emancipação do índio

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Por Millôr Fernandes

Estranho que haja tanta gente contra a emancipação do índio. É inútil não ser. Não há – que eu saiba – nenhum processo mágico, quer dizer, antropológico, de evitar que um selvagem, ao ser apresentado a um facão de aço ou a um rádio de pilha, não dê um salto (de contentamento) irreversível para uma civilização muitos séculos adiantada. Depois se arrepende. Mas aí já é tarde. Tá emancipado.

Dona Margaret Mead – que inventou a antropologia das ilhas Samoa, aquela em que você faz uma teoriazinha bem maneira, bem caprichada, sobre costumes e evolução de povos primitivos e sai procurando onde encaixá-la – taí que não me deixa mentir.

Foi exatamente a morte de Margaret Mead que me lembrou de escrever esta nota. Pois, é claro, uma civilização mais “adiantada” só teria direito de emancipar o índio se desse a este exatamente o mesmo direito dos emancipadores.

No presente caso, brasileiro, o índio poderia escolher, entre os vinte e tais ministros do governo, três ou quatro que seriam também emancipados do ponto de vista indígena. Mais claramente: no momento em que os índios fossem integrados à civilização urbana, o Dr. Armando Falcão, o general Golbery e o vice-presidente Adalberto Pereira seriam obrigados a tirar a roupa e ir viver nus no meio do mato, comendo peixe moquecado, morando em maloca e obedecendo á lei do morubixaba.

Só desse modo eu estaria em acordo com a emancipação. Só assim poderíamos, dentro de alguns anos, escrever o elogio fúnebre de um índio, exatamente como se faz agora com Margaret Mead:

Juruna – 1944-2039. Morreu ontem, aos noventa e cinco anos de idade, num despenhadeiro na fronteira da Bolívia com Mato Grosso, o índio Juruna, que morreu vendendo saúde, estudou antropologia no Encosto de Jeribitibá, com os grandes mestres Aruin Kagé e Apô-Arinã Kanela.

Ganhou maior prêmio distribuído pelas tribos do Alto Xingu, o troféu Muruxuxawa, por seus dois notáveis estudos: “Relações familiares e rompimentos de parentalha no clã dos Villas Boas” e “A linguagem Cary-Yoe na  na obra do professor Darcy Ribeiro”.

Esses trabalhos de Juruna tiveram grande influência na reforma da visão indígena sobre os brancos do sul do Brasil, até essa altura considerados civilizados.

Juruna fez também o curioso ensaio crítico sobre o que o rádio transístor representa de retrocesso social em relação ao atabaque, mostrando que o atabaque comunica muito mais rápido, é menos neurotizante, não tem estática nem exige reposição de pilhas.

Em suas incursões metódicas em regiões completamente perdidas (lato senso), como São Paulo, Rio e Porto Alegre, Juruna constatou a extraordinária capacidade de sobrevivência dos nativos dessas regiões, que atingiam a espantosa média de sessenta e sete anos de vida apesar de cheirarem quilos de monóxido de carbono, comerem toneladas de poluentes e arriscarem a vida vinte e quatro horas por dia no meio de máquina mais perigosas do que mil bordunas manejadas por selvagens carijós.

Além disso, a monumental divulgação que Juruna fez das práticas sexuais de sua tribo, introduzindo-as entre as adolescentes discotecas do Rio e Salvador, se transformou num livro que, apesar de sério, é leitura altamente faz-cyi-nante (em português: “pornográfica”).

O paralelo da vida de Juruna com a de Margaret Mead chega, algumas vezes, a ser inacreditável. Durante a II Guerra Mundial, todos sabem, Margaret constatou que os habitantes da sociedade lacustre dos Manus de Peri (bombardeados pelos japoneses e ocupados pelos americanos), em apenas cinco anos, saltaram da civilização das pirongas para a dos computadores.

Num estudo genial realizado nas cidades de Hiroxima e Nagassáqui, Juruna descobriu algo antropologicamente ainda mais espantoso: uma civilização que, em apenas vinte e quatro horas, passou da era da fissão atômica para a era dos hospitais de doenças degenerativas.

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