Pajelança parintinense na Beija-flor de Nilópolis

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Janeiro de 1993. O GRES Beija-Flor de Nilópolis iria apresentar o enredo “Uni-duni-tê, a Beija-flor escolheu: é você!” e contratara os artistas parintinenses Karu Carvalho e João Afonso para elaborarem os carros alegóricos da escola. Os dois estavam trabalhando no barracão da escola desde setembro do ano anterior, quando se viram envolvidos em meio a uma discussão sobre o elevado nível de boiolagem presente nos destaques das escolas de samba e nas tribos de boi-bumbá.

Na presença de cerca de 200 trabalhadores dos galpões, incluindo pintores, marceneiros, aderecistas, eletricistas e soldadores, Karu Carvalho foi taxativo:

– Olha, parente, há 90 anos que brincadeira de boi sempre foi coisa de macho. Até a mãe Catirina tem de ser um homem fantasiado de mulher. As mulheres começaram a participar de uns tempos para cá, apenas para embelezar as apresentações das tribos indígenas. Mas, até hoje, boiola não pode participar da brincadeira.

– Quer dizer que boiola não brinca de boi-bumbá? – questionou Osvaldinho Sumaré, chefe dos marceneiros da escola, visivelmente espantado.

– Exatamente! – garantiu João Afonso. “Aliás, os poucos viados que nascem em Parintins logo se mudam para Manaus ou pra Belém… É mais fácil acertar na mega-sena acumulada do quer encontrar um boiola lá na ilha…”.

Depois dessa revelação fabulosa, os dois caboquinhos parintintins passaram a ser tratados pelo pessoal do galpão como elementos exóticos de uma raça superior.

Pois bem. Em janeiro, Laíla, diretor de Harmonia da Beija-Flor, informou a Karu Carvalho que havia convidados os pajés Waldir Santana (Caprichoso) e Helerson Maia (Garantido) para participarem do desfile da escola como destaques no carro abre-alas e que a carnavalesca Maria Augusta havia concordado.

Numa manhã de quarta-feira, Karu Carvalho e João Afonso foram recepcionar os dois conterrâneos no aeroporto do Galeão e, durante o trajeto de carro até Nilópolis, trataram logo de ir catequizando os dois pajés.

– Porra, bicho, vocês não podem queimar o nosso filme. A gente falou que em Parintins não tem viados e que até os pajés dos bumbás são espadas matadores… Não vão querer soltar a franga lá no meio da rapaziada! – avisou Karu Carvalho.

– É isso aí, parente! Segurem a onda até o dia do desfile… Nada de desmunhecar nos galpões… É a honra da nossa cidade que está em jogo! – garantiu João Afonso.

Mais machos do que nunca, os dois pajés seguiram o script direitinho. Arranjaram até namoradas entre as mais belas passistas da escola. O pessoal do galpão observava aquele quarteto fantástico de autênticos abatedores de lebres com uma inveja cada vez mais malsã. Afinal de contas, os caras tinham vindo de uma terra cheia de mulheres bonitas e onde não havia boiolas para encher o saco. Parintins era mesmo o paraíso perdido!

No sábado seguinte, os parintinenses foram convidados pelo presidente de honra, Anísio Abraão David, para assistirem a um ensaio oficial na quadra da escola com a presença de Neguinho da Beija-Flor. Como era em regime de boca-livre total, eles ocuparam uma das mesas próximas do palco e começaram a encher a cara de birita desde as 19h.

Por volta das 21h, Neguinho da Beija-Flor surge no centro do palco, apanha o microfone e solta seu grito de guerra: “Olha a Beija-Flor aí, geeente! Chooora cavaco…”.

Com a quadra no maior silêncio, André do Cavaco começou a dedilhar o instrumento.

Assim que escutou os primeiros acordes do cavaquinho, Waldir Santana, com a cabeça cheia de truaca, arrebitou a bundinha pra trás na direção do palco e executou uma inacreditável “dança do créu na velocidade cinco”, acompanhando o fraseado do instrumento.

Instintivamente, Neguinho da Beija-Flor começou a olhar, com um ar divertido, para aquela presepada porque nem a Mulher Melancia conseguiria tremer a bunda daquele jeito.

No mesmo instante, Helerson Maia levantou as duas mãos para o alto como se fosse uma odalisca e começou a executar uma alucinante dança do ventre, sacudindo as cadeiras para os dois lados com violência e rodopiando feito uma pomba-gira em transe mediúnico.

A galera dos galpões, que mantinha uma distância respeitável da mesa dos parintinenses, correu em peso para conferir de perto aquela inusitada transformação dos até então dois másculos e invocados pajés em duas formosas e desinibidas cunhãs-porangas. Pegos de surpresa, Karu Carvalho e João Afonso só faltaram se esconder debaixo da mesa, mas não houve jeito de escapar da infâmia e das piadinhas de duplo sentido.

Indiferente ao rebu provocado, as duas cunhãs-porangas já estavam no meio do salão fazendo a “dança da bundinha” na versão parintinense e se esgoelando, afetadíssimas, para acompanhar Neguinho da Beija-Flor no samba enredo: “Uni-duni-tê, ô/ Vem ver o Sol no amanhecer (ê ê, vem ver)/ A Beija-Flor escolheu: é você/ Se a vida é uma volta na lembrança/ Uma roda de esperança/ Espalhando amor no ar/ Liberte do seu peito essa criança/ Dê as mãos na contradança/ Vamos juntos cirandar”.

No dia seguinte, o único assunto entre os trabalhadores dos galpões da Beija-Flor era a inusitada transformação dos pajés em cunhãs-porangas. A centenária brincadeira machista do boi-bumbá foi vilipendiada de vez pelo resto da vida.

Maldito cavaquinho!

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