Os travellings de Kurosawa

0

Por Luís Fernando Verissimo

Uma vez ficamos tentando decidir qual era o melhor começo de filme de todos os tempos. Alguém lembrou a primeira tomada de Janela indiscreta, do Hitchcock. Num único deslocamento pelo interior de um apartamento, a câmera mostra fotos e objetos que dizem tudo sobre o seu dono. Quando chega no personagem já sabemos sua profissão, seu passado, a cara da sua namorada e a causa da sua perna engessada.

Mas eu votei na primeira cena de Yojimbo, do Kurosawa. Um samurai à procura de emprego chega a uma encruzilhada. Não sabe para que lado seguir. Nisto, por uma das estradas, surge um cachorro com uma mão humana entre os dentes. O samurai vai pelo caminho que trouxe o cachorro, certo de que no fim da estrada encontrará trabalho.

O fascínio do cinema de Akira Kurosawa era, um pouco, o fascínio do Japão, aquela mistura de hábitos e gestos estilizados há séculos e tecnologia moderna explosiva. Você era hipnotizado pela estranheza do cenário e da interpretação ritualizada, e de repente era levado por um daqueles travellings maravilhosos, como ninguém fez igual na história do cinema, com a possível exceção de Max Ophuls e John Ford.

O travelling é o momento mais autoconsciente do cinema, é um exibicionismo da câmera, e no caso de Kurosawa foi o que o destacou dos diretores clássicos japoneses, para os quais a câmera discreta era uma declaração de princípios.

Dizem que no Japão ele nunca teve o prestígio que teve no Ocidente. Podia ser uma reação à mobilidade desrespeitosa da sua câmera. Talvez não tenha sido um dos melhores diretores do Japão, mas foi um dos melhores diretores do mundo.

Nunca fez o espetáculo só pelo espetáculo e até uma carga de cavalaria num filme seu podia ser uma reflexão humanista, mas foi tudo menos um introspectivo oriental.

Kurosawa, como o seu samurai seguindo a estrada do cachorro, estava atrás de barulho.

Deixe uma resposta

Please enter your comment!
Please enter your name here