Os monstros sagrados (2)

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Residencia do Sr. Carlos de Figueiredo Presidente do Banco Amazonense Fonte: Álbum do Amazonas 1901-1902 Coleção: Jorge Herrán

Por Jefferson Peres

Waldemar Pedrosa era muito mais jurista do que homem de letras. Dividia com Leopoldo Péres o mais prestigioso escritório de advocacia da cidade. Dizem que nas causas criminais ficava a seu cargo a fundamentação jurídica, cabendo a Leopoldo o combate no Tribunal do Júri. Infelizmente, não enfeixou em livros todos os seus pareceres e arrazoados, que, em sua maioria, jazem perdidos em arquivos mortos, à espera de algum pesquisador que se anteceda às traças e aos cupins.

Político, teve uma passagem brilhante no Senado Federal, onde se distinguiu pela participação ativa na reunião de um dos órgãos da ONU em Paris, e pelo célebre parecer de sua lavra, favorável à cassação dos mandatos dos parlamentares eleitos pelo Partido Comunistas Brasileiro. Argumentou que, havendo o Tribunal Superior Eleitoral cancelado o registro do PCB, que deixou, assim, de ter existência legal, entendia como automática a perda dos mandatos dos senadores e deputados eleitos sob legenda desse partido.

Com base nesse parecer, o Congresso, em reunião tempestuosa e dramática, procedeu à cassação dos mandatos dos comunistas, inclusive de Carlos Marighella, deputado, e de Luiz Carlos Prestes, colega de Waldemar no Senado, onde representava o Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Com isso, Waldemar caiu no índex das esquerdas, que passaram a ferreteá-lo com a pecha de reacionário.

Mas não foi a impressão que me ficou daquele senhor baixinho, encanecido, afável e simpático que, senador da República, primeiro, e mais tarde ministro do Tribunal Superior do Trabalho, aparecia nos comícios da Cruzada Amazonense de Resistência e da Frente Nacionalista, para me abraçar e se dizer solidário com a nossa luta. E como poderia ser de outro modo, em se tratando de um homem que eu havia conhecido anos antes, já advogado famoso, de cabelos grisalhos e pai de filhos adultos, no pátio de sua casa na Sete de Setembro a empinar papagaio com um entusiasmo infantil.

Huascar de Figueiredo disputava, com Leopoldo e Waldemar, o título de maior advogado do Amazonas. Seu escritório, na Rua Barroso, era frequentado por uma grande clientela, em busca de seu patrocínio para causas, principalmente cíveis, que dificilmente perdia. Comentava-se que guardava profunda mágoa pela morte prematura de sua primeira mulher, vítima de hanseníase. Quando despertei para o mundo, ela já havia desaparecido, mas era mulher elegante e de grande beleza, segundo depoimento de todos que a conheceram.

Entretanto, nas poucas vezes em que pude observar Huascar, não cheguei a perceber nele nenhuma sombra de tristeza, a menos que a dissimulasse, extravasando-a somente para os íntimos. Ao contrário, parecia um homem extrovertido e alegre, bom contador de anedotas, que narrava sem medir palavras, arrancando gargalhadas dos que o ouviam.

Irreverente, causou grande constrangimento ao poeta Sebastiao Norões, quando este lhe foi apresentado, ao disparar: “Norões?! Que boa rima para colhões!” E soltou uma gargalhada. Norões, muito tímido, sorriu amarelo e engoliu em seco. Mas parece ter guardado mágoa para o resto da vida, pois era visível o seu mal-estar quando lembravam o episódio.

Esse destempero verbal era uma das suas características, não poupando sequer os clientes, se lhe atazanava a paciência. Um dia foi procurado por um comerciante português, homem rico, mas conhecido por sua avareza, que lhe encomendou a elaboração de um contrato. Huascar, pediu que ele voltasse daí a duas horas. Decorrido esse tempo, o português voltou e recebeu o contrato pronto. Ao perguntar quanto devia, ouviu como resposta uma quantia que lhe pareceu exagerada e reclamou: Tudo isso por um serviço que lhe custou duas horas de trabalho?! Huáscar então explodiu: Olhe aqui, sêo f.da p., para redigir este documento em duas horas, eu precisei estudar mais de vinte anos. Pague ou procure outro advogado. O homenzinho pagou, mas naquele dia ele perdeu um cliente.

Tal como Adriano, não deixou nenhum livro. Sua obra se encontra dispersa em conferências, artigos de jornal e, sobretudo, editoriais nos vários órgãos de imprensa com os quais colaborou. Estes últimos são irrecuperáveis, porque impossível identificar a sua autoria. É fora de dúvida, no entanto, que sua pena contribui para manter elevado o nível do editorialismo na imprensa local. Para perpetuar sua memória, a municipalidade deu seu nome ao trecho da Rua Saldanha Marinho entre a Avenida Getúlio Vargas e o Igarapé de Manaus, onde nasci e passei minha infância.

Peço licença, agora, para colocar a modéstia de lado e falar um pouco do meu tio, Leopoldo Carpinteiro Péres. Aos olhos da comunidade, ele formava, juntamente com Péricles e Adriano, embora mais novo do que eles, a Santíssima Trindade do mundo intelectual amazonense. Orador fulgurante, conseguiu brilhar em quase todos os ramos da oratória: literária, parlamentar e judiciária. Tão grande o seu prestígio, que era solicitado, como profissional, até pelos seus desafetos.

Certa vez, foi procurado para aceitar a causa de membros da família Brasil, de Boa Vista, cujo patriarca, coronel Bento Brasil, se tornara inimigo irreconciliável de seu pai, e meu avô, quando este lá servira como juiz. Leopoldo então procurou o pai, que o liberou para agir profissionalmente. O mesmo brilho demonstrava como professor e ainda hoje suas aulas são recordadas com saudades pelos seus ex-alunos. Mas assim como dominava a arte do bem-falar, não se descuidava igualmente do bem-escrever. Era um estilista, de prosa escorreita, fluente, elegante. Pode-se dizer que escrevia como falava.

Lamentavelmente, os dois livros em prosa que nos deixou, além de um outro de poemas, póstumo, constituem apologias do Estado Novo e de seu criador. Como diz o povo, queimou boa cera com um mau defunto. Mas se redimiu amplamente desse pecado, quando, deputado à Assembléia Nacional Constituinte, fez inserir na Constituição de 46 o famoso artigo 199, que destinava 3% da receita da União ao desenvolvimento da Amazônia. Se mais não tivesse feito, já teria justificado o seu mandato.

Mas tudo o que se disser de Leopoldo será inútil para quem não o tenha conhecido. O forte dele era a personalidade, o encanto que sabia irradiar. Fisicamente não impressionava. Baixo, quase gordo, óculos de aros de tartaruga, passaria despercebido, não fora a requintada elegância no modo de ser e de dizer. Causeur admirável, dominava todas as rodas, nas quais se tornava logo o centro das atenções, quaisquer que fossem os seus integrantes. Não é de admirar que tenha colecionado muitas conquistas femininas, pois nem os homens escapavam ao seu fascínio.

Uma de suas muitas aventuras amorosas quase se transforma em tragédia quando, ao sair de sua residência, teve de arrostar a fúria de um marido ultrajado. A custo, alguns transeuntes desarmaram o agressor, salvando-lhe a vida, mas não a tranquilidade, afetada pelo escândalo. Um aristocrata, sabia receber os humildes com a mesma simpatia que dispensava aos importantes. À sua casa iam diariamente pessoas de condição modesta, às quais distribuía, generosamente, dinheiro que lhe fazia falta. Um esteta, sua preocupação descia a pormenores.

Certa vez, em conversa com Péricles Moraes, pronunciou o nome de Anatole France, com o “o” fechado (Anatôle). No dia seguinte Péricles, inconformado, lhe telefonou para indagar por que ele se pronunciara assim o nome do escritor francês, que para ele, Péricles, devia ser pronunciado com o “o” aberto. Leopoldo deu uma gargalhada e respondeu: Ora, Péricles, porque é mais eufônico. Por ocasião do meu nascimento, ao ser informado de que me seria dado o nome de José Jefferson, estranhou: José Jefersson? Zé-jé? Não soa bem. E aconselhou que eu fosse batizado apenas como Jefferson. Mas o parto ocorrera a 19 de março, dia de S. José, e minha mãe decidiu manter o prenome duplo, em homenagem ao santo.

Por lhe parecer de péssima concepção arquitetônica, detestava o edifício-sede da Associação Amazonense de Imprensa, na esquina de Eduardo Ribeiro com 24 de Maio, que só chamava de horrendo caixote. Para minha tristeza, convivi pouco tempo com ele. Deixou-nos muito cedo, aos 47 anos, fulminado por um derrame cerebral. Morreu praticamente na tribuna parlamentar, provavelmente como gostaria.

Num livro de memórias, Afonso Arinos de Melo Franco, testemunha ocular, conta como aconteceu. Reunida a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal, Leopoldo lia um parecer, quando, a certa altura, sua voz foi ficando pastosa, seus movimentos descoordenados e logo, para estupefação geral, caiu no chão e foi levado ao hospital, onde morreu horas depois. Sepultado no Rio de Janeiro, até hoje seus restos não foram transladados para Manaus.

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