Os marrecos do Jorge Machado

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Junho de 1992. O jornalista Jorge Machado (aka “Machadão”) convidou o artista gráfico Gilmar Barbosa, o “Gil da Liberdade”, para conhecer um pequeno sítio que ele havia adquirido recentemente no município de Manacapuru. Os dois embarcaram na velha Pampa do jornalista e se mandaram.

Após entrarem em um ramal da rodovia Manuel Urbano, cerca de 20 quilômetros antes da cidade de Manacapuru, chegaram até uma pequena casa de madeira. O caseiro estava deitando em uma rede, pitando tranquilamente seu cigarrinho de palha. Sentada no chão, a mulher do caseiro catava os piolhos da filha do casal.

– Como é que está a minha vaca holandesa e o bezerrinho? – indagou Machadão.

– Estão bem, seu Machado, estão bem, seu Machado… – devolveu o caseiro, sem se levantar da rede.

– Na última vez que estive aqui, eu te pedi pra fazer uns cinco quilos de queijo coalho pra mim. Você fez? – insistiu Machadão.

– Fiz não, seu Machado, fiz não. O bezerrinho é um glutão, depois que mama não sobra leite nenhum…

Machadão tirou um cigarro Hollywood do bolso, acendeu, deu uma tragada, olhou para o sítio tomado de mato e questionou:

– E como é que está a minha criação de marrecos?

– Vai mal, seu Machado, vai mal – devolveu o caseiro sem se levantar da rede. –Apareceu um jacaré-açu e já comeu uns 150 marrecos… Eu ia até lhe pedir dinheiro pra comprar cartuchos pro meu rifle papo-amarelo pra ver se acabo com o desgraçado…

Machado abriu a carteira, deu uma determinada quantia de dinheiro pro caseiro e avisou:

– Daqui a duas semanas eu volto aqui e vou querer meu queijo coalho. Dá o teu jeito…

Dito isso, ele e Gil embarcaram na velha Pampa e foram pra Manacapuru. Almoçaram no restaurante do Roxinho e retornaram pra Manaus.

Duas semanas depois, Machadão e Gil voltam ao sítio.

O caseiro estava deitado em uma rede, pitando tranquilamente seu cigarrinho de palha. Sentada no chão, a mulher do caseiro catava os piolhos da filha do casal.

– Você fez meu queijo? – indagou Machadão.

– Fiz não, seu Machado, fiz não… – devolveu o caseiro, sem se levantar da rede. – Eu apartei o bezerrinho da vaca, mas ela parou de dar leite sem mais nem menos… Desconfio que ela está doente…

– E como é que está a minha criação de marrecos?

– Eu já matei o jacaré-açu, seu Machado! – devolveu o caseiro, sem se levantar da rede. – Mas agora eu tô cismado de que tem uma sucuriju na área. Na última semana, sumiram uns 150 marrecos… Se não tem mais jacaré, só pode ser cobra… Aliás, eu ia até lhe pedir um pouco mais dinheiro pra comprar novos cartuchos pro meu papo-amarelo pra ver se acabo com a desgraçada…

Machado abriu a carteira, deu uma determinada quantia de dinheiro pro caseiro e, irritadíssimo, avisou:

– Daqui a duas semanas eu volto aqui e se você ainda vier com essa conversa fiada sobre a minha criação de marrecos a gente vai ter uma conversa de homem pra homem…

Dito isso, ele e Gil embarcaram na velha Pampa e foram pra Manacapuru. Almoçaram no restaurante do Roxinho e retornaram pra Manaus.

Duas semanas depois, Machadão e Gil voltam ao sítio.

O caseiro estava deitado em uma rede, pitando tranquilamente seu cigarrinho de palha. Sentada no chão, a mulher do caseiro catava os piolhos da filha do casal.

– Como é que está a minha criação de marreco? – indagou Machadão.

– Olha, seu Machado, eu matei a sucuriju… Guardei até um pouquinho de banha da bicha pra lhe dar… – explicou o caseiro, sem se levantar da rede. – Mas agora a gente está com um novo problema. Os ônibus da Emtran e da Transgil começaram a entrar nesse ramal. Só na última semana os desgraçados já atropelaram pra mais de cem marrecos…

Machadão tirou um cigarro Hollywood do bolso, acendeu, deu uma tragada, olhou para o sítio tomado de mato e avisou:

– Da Liberdade, me espera aqui que eu vou ali em Manacapuru e volto logo!

Dito isso, Machadão embarcou na velha Pampa e se mandou.

Retornou depois de uma hora trazendo uns dez peões e um pequeno caminhão baú. A peonada embarcou no caminhão a vaca, o bezerrinho e os marrecos em que conseguiram colocar as mãos. Depois disso, os peões entraram na casa e começaram a amontoar os teréns do caseiro na frente da casa. O sujeito não estava entendo nada.

Machadão foi taxativo:

– Meu amigo, você pegue suas coisas e sua família e suma daqui. Eu vou almoçar em Manacapuru e vou voltar aqui por volta das 5h da tarde trazendo gasolina para colocar fogo na casa. Eu não quero nunca mais lhe ver na vida!

Dito isso, ele e Gil embarcaram na velha Pampa e foram pra Manacapuru. Almoçaram no restaurante do Roxinho e retornaram pra Manaus.

Gil não se recorda se Machadão incendiou mesmo a casa. Lembra apenas que o sonho do jornalista de se transformar em um próspero criador de marrecos virou cinza.

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