Os maribondos de fogo da paixão!

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Setembro de 1998. A mulher do mecânico Reginaldo Geladeira, um caboco perreché pedra-noventa de Parintins, cismou que queria trabalhar fora de casa, para colaborar com o apertado orçamento doméstico. Apesar do ciúme doentio que devotava pela cara-metade, Geladeira concordou. A carestia estava mesmo de lascar.

Com o primeiro salário de cozinheira em uma casa de família, a distinta comprou pelo crediário um possante aparelho micro system com 600 W de potência, o sonho de consumo de dez em cada dez mulheres da cidade.

Um dia, quando chegou mais cedo em casa, Geladeira tomou um susto. O micro system estava ligado no volume máximo, tocando “Depois do prazer”, do grupo Só Pra Contrariar, enquanto sua esposa, tomando banho, também cantava a plenos pulmões, acompanhando o cantor Alexandre Pires: “Estou fazendo amor com outra pessoa…”.

Geladeira nem esperou pelo segundo verso (“Mas meu coração vai ser pra sempre teu”). Pegou um terçado e desferiu um golpe violento no meio do aparelho de som. Foi caco pra todo lado.

Aí, derrubando a porta do banheiro com um coice, invadiu o recinto e começou a estrangular a mulher com as duas mãos. Foi um para pra acertar.

Quando a distinta conseguiu se desvencilhar do agressor enciumado, que parecia estar com o cão no couro, fugiu para a casa de sua (dela) mãe.

No dia seguinte, arrependido, Geladeira passou num açougue, comprou três quilos de alcatra, chamou seu compadre Marco Aurélio, o “Periquito Novo”, e lhe pediu para entregar a encomenda na casa onde estava refugiada sua agora quase ex-esposa. Aquilo era um pedido público de desculpas.

– Fala pra ela fazer um assado de panela! – recomendou.

Marco Aurélio atendeu ao pedido.

A esposa do Geladeira aceitou de bom grado o presente e o pedido de desculpas. Sem esconder os hematomas por toda a extensão do pescoço, ela mandou um recado pelo portador, com o fiapo de voz que lhe sobrara da garganta ainda bastante machucada:

– Eu aceito o pedido de desculpas porque ele é o homem da minha vida. Mas fala praquele cretino que, depois do que ele fez comigo, não dá pra encarar um assado de panela não.  Talvez eu consiga, no máximo, tomar um caldo…

E só voltou pra casa do Geladeira depois que a garganta desinflamou.

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