Os anticristos

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Por Millôr Fernandes

Quem eram, ou foram, Gaspar, Baltasar e Melchior? Reis, é o que dizem. Mas que reis? Reis com uma distante pré-visão socialista? Senão, como se explicar que, monarca autoritários e personalistas, tenham se prontificado imediatamente a prestar homenagens a um recém-nascido cuja missão na terra era, declaradamente, a igualdade entre os homens?

Eu disse que eram autoritários: a rapidez com que, conhecida a notícia do advento do Messias, eles se aprestaram a ir até Ele, não pressupõe consulta a um parlamento de nobres, conselho de barões. E um dos reis até levava ouro para Cristo, pouco ouro, é verdade, quase tão simbólico quanto o incenso e a mirra dos outros dois, todavia ouro, evidentemente do erário público, apropriado possivelmente sem pedir licença a ninguém.

Três reis vindos do nada, felizes pela abertura de um mundo cheio de paz, bicho, e amor, onde os vagabundos teriam vez igual aos trabalhadores, as prostitutas não seriam pior consideradas do que as damas de bem e o ato de viver seria uma perene e geral aleluia. É difícil de acreditar. E, ao mesmo tempo, se é difícil de acreditar nas suas intenções, a própria ausência de séquito dos reis faz com a gente duvide até de sua realidade.

Vejam as gravuras, leiam as histórias. Nunca se fala que os reis – importantíssimos que eram – viessem acompanhados de embaixadores, bobos, palafreneiros, cozinheiros, concubinas. Não, teriam vindo navegando pomposamente sozinhos pelos areais sem fim, montados nos seus navios do deserto (por outro lado maravilhosamente ajaezados e adornados, como mostram as pinturas), seguindo, confiantemente, a precária orientação da estrela de Nazaré, Kohoutek da época.

E eram, na aparência, avançadamente democráticos – está lá o crioulo Baltasar que não me deixa mentir, caminhando com terna fraternidade ao lado do branco Melchior e do trigueiro (ou amarelo, como queria São Paulo?) Gaspar.

Ora, eu já vivi bastante para saber que esse tipo de rei não existe, como não existe o médaillon-surprise do restaurante: o que está por baixo é sempre um pedaço de carne, bem ou malpassada.

Ou os três estavam em busca de farta publicidade demagógica (e foram altamente bem sucedidos através dos tempos) ou eram elementos infiltrados no contexto popular (potencialmente subversivo), que via em Cristo o salvador e a salvação. Seriam até mesmo alcaguetes do aparelho repressivo de Herodes, que, mais tarde, informado por eles, mandaria decapitar milhares de criancinhas (decisão para sempre invejada), na esperança de que uma delas fosse o Iluminado.

De qualquer forma o gesto dos “magos” não merece a menor fé, e apenas uma certa indulgência se, como última hipótese, fossem apenas três gozadores natos que se apresentaram na cerimônia explosiva com o único fito de acavalhá-la, e lá ficaram, formando um bloco popular, entoando futuros sucessos carnavalescos: “Que rei sou eu, sem reinado e sem coroa, sem castelo  sem rainha, afinal que rei, sou eu? O meu reinado é pequeno e é restrito, só mando no meu distrito porque o rei de lá morreu”.

Ou:

“A coroa do rei não é de ouro nem de prata. Eu também já usei e sei que ela é de lata”.

Três gozadores, eu disse. Três palhaços. Três sacripantas. Três iconoclastas. Três réprobos. Três humoristas.

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