Ode a uma vênus calipígia

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Um dos mais conhecidos textos teatrais de Pedro Bloch, a peça “Dona Xepa”, conta a história de uma feirante que, abandonada pelo marido, criou os dois filhos sozinha, dando-lhes tudo o que podia. Ela abdica de sua vida e faz todos os sacrifícios para oferecer a Edson e Rosália uma realidade mais cor-de-rosa do que a sua.

O desejo das pessoas simples de ver seus filhos doutores e sentirem-se orgulhosas por isso é a chave de todo o conflito que rege a trama. Enquanto Edson se empenha em tornar-se um escritor e esbarra na dificuldade de entrar no mercado editorial, a ambiciosa Rosália só pensa em fazer um casamento financeiramente rentável, que a faça ter uma vida de luxo e ostentação.

Em meados dos anos 50, a peça foi encenada em Manaus pelo Teatro Escola Amazonense de Amadores do velho João Braga – um conhecido chapeleiro que também consertava guarda-chuvas –, tendo no papel de “Dona Xepa” a estonteante Marisa Lobato, uma vênus calipígia da maior competência.

O poeta Farias de Carvalho, que participou da peça num papel secundário, ficou mortalmente apaixonado pela, digamos assim, “padaria” da atriz. Não era para menos. Perto do porta-malas da moça, o “derrière” da Mulher-Melancia seria confundido com o da Olívia Palito. Pra completar, a distinta era casada com um militar de alta patente e nunca deu a mínima para o olhar de cachorro pidão do renomado poeta.

Tempos depois, em meados dos anos 60, durante uma reunião informal de poetas e jornalistas no “Palácio da Moda” (na realidade, eles iam lá diariamente para matar o tempo e filar cafezinho do empresário Belmiro Vianez, dono da loja e amigo da turma), eis que Farias de Carvalho depara-se com uma epifania: a estonteante Marisa Lobato, em carne e osso (muito mais carne do que osso, claro), ostentando um coladíssimo vestido de lycra na cor “vermelho-hemorragia”.

Vinda da loja “Quatro e Quatrocentos” (depois Lobrás), a vênus calipígia ia subindo a Eduardo Ribeiro em direção à Confeitaria Avenida e passou pela frente do “Palácio da Moda”. Farias de Carvalho entrou em transe místico. Parado na calçada, ele ficou saboreando avidamente aquela aparição divina.

Ainda transfigurado, o poeta entrou no “Palácio da Moda”, descolou um lápis Johan Faber nº 2 com Belmiro Vianez e, num papel de embrulho, rascunhou um soneto, que se tornou instantaneamente um dos grandes clássicos da nossa poesia porno-erótica:

“Este teu cu, ó minha doce amada,/ Voltado, assim, pras bandas do nascente,/ Pareceu aos meus olhos, de repente,/ Um pedaço de lua ensanguentada!/ E é por vê-lo assim, indiferente,/ Às preces desta pica apaixonada,/ Que me quedo a adorá-lo diariamente/ Nesta minha capela de calçada./ Porém, um dia, amor, se tu quiseres/ E o teu róseo botão enfim me deres,/ Cheia de amor e de paixão profunda,/ O mundo inteiro iria ver, tremendo,/ O quarto Sputnik arremetendo/ Na abóbada do céu da tua bunda!”

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