O Woodstock tupiniquim de Aldisio Filgueiras

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Outubro de 1969. Dois meses depois do festival de Nova York, os músicos locais mais antenados resolveram dar uma resposta aos organizadores do Festival Universitário de Música, patrocinado pelo Governo do Estado, que havia limado dezenas de canções inscritas sob o argumento de que se tratava de “lixo subversivo”.

– Resolvemos fazer um festival só com as músicas descartadas, ou melhor, censuradas pelos guardiões da moral e dos bons costumes – recorda Aldisio Filgueiras. “Eu mesmo tinha uma música classificada no FUM, intitulada ‘Malária’, mas retirei a mesma para apresentá-la no festival alternativo”.

Se as músicas do FUM eram exibidas para um público aristocrático, pero provinciano, no palco engalanado do Teatro Amazonas, a escolha do local para o improvável festival alternativo foi a praia da Ponta Negra, que gozava de péssima reputação por ficar fora da zona urbana da cidade.

A estrada da Ponta Negra, para quem não se lembra mais daqueles anos de chumbo, era uma autêntica trilha de rally no meio da selva. Do quartel do Cigs, onde ficava a barreira rodoviária, até um simpático boteco no formato de um Chapéu de Palha, que ficava localizado nas proximidades de onde depois foi instalado o restaurante da Charufe Nasser, não havia nenhum sinal de civilização. Era somente a estrada de piçarra, cercada de árvores por todos os lados.

Durante a semana, a praia de areia fina e águas límpidas (o Tropical Hotel ainda não havia transformado o aprazível logradouro em um esgoto a céu aberto), o simpático boteco – especializado em vender peixe frito, Cocal, Ron Merino e cerveja XPTO – e as modestas barracas de praia eram ponto de encontro quase que exclusivo de jovens bem nascidos, que possuíam condução própria, e de garotas prafrentex, dispostas a ir fundo (e bota fundo nisso) na nascente revolução sexual. Afinal de contas, ninguém ia se aventurar naquele fim do mundo apenas pra ficar bebendo cachaça, olhar o rio e jogar conversa fora…

Nos finais de semana, uma alegre profusão de gente humilde com seus teréns, trecos e pandarecos (meio de transporte preferencial: caminhões e ônibus alugados) invadia o local, trazendo galinha assada (o ubíquo “galeto”, vendido no “Canto do Galeto”), maionese enfeitada com rodelas de ovo cozido, arroz branco, farofa de farinha seca (de preferência, torrada na manteiga Aviação), garrafas térmicas contendo ki-suco de groselha ou guaraná Baré, pencas de bananas-maçã, sacolas de laranjas e, os mais abonados, algumas vistosas melancias japonesas, e transformava a então deserta Ponta Negra em um ruidoso parque de diversões.

Na sequência, as águas do rio Negro ficavam coalhadas de câmaras de ar para a garotada boiar em pneumáticas performances e, na praia (as 15 barraquinhas não aguentavam a primeira leva de “farofeiros”), as comidinhas eram dispostas em toalhas de banho, ao lado do rádio portátil, da esteira de cipó ou estopa pra não melar o fundilho na areia e dos frascos de azeite doce misturado com beterraba para pegar aquele bronzeado carioca. Na falta de “chapinha”, os meninos de cabelo “ruim” esfolavam o miolo da casca de melancia na cabeça, para supostamente alisar os cabelos.

Bom, mas tirando essa aglomeração que se passava unicamente aos sábados e domingos, no resto da semana a Ponta Negra era o grande mocó dos amantes, onde levar a paquera às novidades da praia deserta e suas possibilidades eróticas fez parte da iniciação sexual de centenas de adolescentes. Dizem que muito cabaço foi perdido ali. Sem falar de pregas-rainha.

De qualquer forma, assim que a mídia impressa e radiofônica tomou conhecimento da pretensão daqueles jovens rebeldes de realizar um festival alternativo para se contrapor ao festival oficial, o cu da cotia assobiou.

– Diariamente, o editorialista do jornal A Notícia, Farias de Carvalho, em editoriais apocalípticos e raivosos, dizia que aquilo seria um encontro de maconheiros para a prática do sexo livre e exigia providências urgentes das forças policiais para reprimir o evento. O tiro acabou saindo pela culatra –, diz Aldisio. “De repente, a cidade inteira tomou conhecimento do nosso festival”.

Na sexta-feira 13 de dezembro do ano anterior, a “ditadura disfarçada” havia se transformado em “ditadura escancarada”, mediante a edição do AI-5, e a caça às bruxas estava na ordem do dia. Qualquer manifestação artística teria que ser aprovada previamente pelos órgãos da repressão que combatiam o “inimigo interno” – nome genérico para designar qualquer cidadão que não estivesse integrado ao sistema, dos aloprados guerrilheiros de esquerda aos pacíficos hippies bonachões.

Por conta desse clima pesado, a Polícia Federal e o Dops vetaram o nome “Festival do Lixo”, por soar meio subversivo. A solução foi batizar o festival de 1ª ExposiSom de Manaus.

Aos 22 anos e já Chefe de Reportagem do jornal A Crítica, Aldisio Filgueiras se aproveitou do espírito rebelde do jornalista Umberto Calderaro para se licenciar do batente durante uma semana, sem prejuízo no salário, a fim de fazer as coisas acontecerem.

– A turma que estava organizando o festival era formada basicamente por cineclubistas, escritores diletantes, músicos em início de carreira, poetas existencialistas e estudantes universitários, ou seja, todo mundo era liso e confiado. Como não havia nenhum tipo de ajuda oficial, a gente teve que fazer o festival só com a cara e a coragem! – recorda o poetinha.

O arquiteto Mário Toledo projetou um palco flutuante, que ficaria a dez metros da praia. Com a ajuda de um jeep Land Rover que havia servido na 2ª Guerra Mundial, eles – Aldisio, Noval, Cezinha, Joaquim Marinho, Wanderlaine, Manuel Batera, Mario Toledo, etc – começaram a levar diariamente o material de construção do palco (taboas, ripões, pernamancas, tabiques) das serrarias da cidade para a Ponta Negra.

Eram inevitavelmente parados na barreira rodoviária, duas, três, quatro vezes ao dia, para explicar os motivos daquela presepada. Os militares desconfiavam que algum tipo de subversão estava em curso, ali nas suas barbas. Quem iria acreditar naquela história de que aquela turma de cabeludos estava construindo um palco flutuante para um suposto festival de música? Ninguém.

O hoje advogado Wanderlaine Caldas arranjou um gerador elétrico para suprir a falta de energia e emprestou os instrumentos – guitarras, baixo, violão, bateria, flauta, gaita de boca, metais – da banda Black Cats, onde ele tocava. Fernando Peninha descolou um imponente e centenário piano de cauda, imaculadamente branco, cujo transporte para o palco flutuante se transformou em uma aventura épica. (no verão, a praia tinha uns 500 metros de extensão)

Na sexta-feira, o palco estava concluído, mas faltava o fundamental: os equipamentos de som. O empresário José Azevedo, da Importadora TV Lar, havia se comprometido em emprestar os equipamentos, mas queria uma garantia financeira de que eles seriam devolvidos depois do evento. Como estavam matando cachorro a grito, a dois dias do festival os organizadores se viram encalacrados numa belíssima sinuca de bico.

Na tarde daquele dia, Aldisio estava matutando na praia à espera de um milagre, quando um moleque de cabelos nos ombros se apresentou. Queria saber quando custava para se apresentar no palco durante o festival.

– Ah, é de graça, porra! Basta se inscrever até na hora, que sua apresentação vai estar garantida – explicou o poetinha.

– Porra nenhuma! Eu faço questão de pagar porque quero me apresentar com a minha banda completa – devolveu o moleque, que devia ter, no máximo, uns 17 anos.

– Bom, sendo assim, você vai ter de pagar 50 mil cruzeiros novos! – detonou Aldisio, querendo se livrar do moleque o quanto antes. (em valores de hoje, algo como R$ 5 mil).

– Por mim, tudo bem. Amanhã eu trago a grana! – avisou o moleque, que montou na sua motocicleta Honda sessentinha e foi embora.

No sábado, por volta das 5 da tarde, o moleque reapareceu, trazendo um cheque no valor combinado. Seu pai era dono de uma empresa de ônibus e não ia ser por causa de algumas merrecas que iria impedir o filho caçula de se apresentar em um festival de música…

Aldisio quase não acreditou no que viu. Imediatamente, os organizadores do festival aboletaram-se no jeep Land Rover e se mandaram pra cidade, para falar com o empresário José Azevedo.

Na casa do empresário, a empregada explicou que ele e a esposa haviam ido assistir a “Sessão das Oito” no cine Politheama. Sim, homeboys, naquela época os homens de bem costumavam levar as esposar para uma prosaica sessão de cinema, nas noites de sábado.

O Politheama ficava na rua Getúlio Vargas canto com a Sete de Setembro, e tinha portas de saída pelas duas ruas. Metade da curriola ficou em uma porta, metade na outra, esperando o empresário sair.

Quando ele foi abordado, tomou um susto.

– Pô, Aldisio, são 10 horas da noite…

– Pois é, doutor Azevedo, mas se o senhor não fornecer os equipamentos, o festival desanda. A gente já conseguiu o mais difícil, que era o dinheiro da caução. Agora, só depende do senhor…

Ouvindo aquilo, o empresário foi pessoalmente até o depósito da Importadora TV Lar, abriu as portas, esperou pacientemente que os equipamentos fossem escolhidos, escreveu a mão uma caução com a relação dos equipamentos cedidos, guardou o cheque no cofre e se despediu dos moleques. Se não fosse ele, o festival do lixo tinha ido pro lixo. Infelizmente, já não se fazem mais empresários como o José Azevedo.

De volta à Ponta Negra, Aldisio e companhia vararam a madrugada instalando os equipamentos e fazendo a passagem de som. No domingo, sabe-se lá como, 20 mil pessoas se acotovelaram nas areias da praia para escutar cerca de 80 músicas, numa maratona que se iniciou às 8h da manhã e terminou às 5h30 da tarde. A apresentação das músicas era feita pela saudosa Elaine Ramos.

Apesar do farto consumo de dirijo, cachaça e Ron Merino, não houve qualquer incidente durante o festival. A turma da repressão (Polícia Federal, Dops, Polícia Militar, Polícia Civil, arapongas do SNI, Cenimar e Ciex, etc.), presente na platéia, fez questão de parabenizar os organizadores pelo transcurso ordeiro do evento.

A “geração paz & amor” manauara fazia seu début em grande estilo. Nenhum jornal cobriu o evento, daí que as poucas fotos feitas no local foram registradas pelo saudoso guitarrista Hilton Oliveira, que depois foi morar na Alemanha. O resto, conforme se diz, é história.

Na realidade houve um acidente fatal durante o Festival do Lixo, sem que coubesse alguma culpa aos organizadores. Pilotando uma pequena voadeira, um exibicionista de ocasião começou a demonstrar para a platéia seus dotes de piloto radical, como se estivesse participando de um Freestyle Jet Game da vida, realizando suas manobras por trás do palco flutuante.

Ele foi advertido várias vezes pelos organizadores do festival de que as ondas que estava levantando colocavam em risco tanto a vida dos músicos – a água é um excelente condutor de eletricidade – quanto a vida útil dos equipamentos. O sujeito não deu a mínima e continuou a fazer suas gracinhas, cada vez mais perto do palco.

De repente, ao tentar fazer um 360º, o exibicionista foi “cuspido” da voadeira. Desgovernada, a embarcação começou a rodar em círculos em sua direção e ele acabou tendo uma das coxas atingida pela hélice, nas proximidades da virilha. Apesar de imediatamente socorrido pelo Corpo de Bombeiros, o exibicionista não sobreviveu ao corte da veia femoral e morreu de hemorragia a caminho da cidade.

Dois meses depois do Festival do Lixo, um outro incidente fatal ocorrido na Califórnia, durante o Altamont Free Concert, decretaria o fim da era “paz & amor”. Até nisso, nós fomos periféricos: quando a gente achou que a festa estava começando, os garçons já estavam recolhendo os pratos…

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