O violão Alhambra de Mestre Carlito

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Considerado um dos mais hábeis violonistas da história do Amazonas e cego desde os cinco anos de idade por conta de uma conjuntivite provocada por sarampo, Mestre Carlito estava descansando em sua casa, em Manaus, numa tarde de sábado, quando chegou o músico Alderico Maia, seu amigo de longa data, implorando por um violão emprestado para participar de uma roda de choro.

Carlito relutou, mas o papo de Alderico foi tão convincente que ele acabou cedendo seu inseparável violão espanhol Alhambra, modelo 8C, com tampo de cedro maciço, fundos e laterais de jacarandá indiano, escala de ébano e tarrachas do tipo Alhambra Deluxe Gold Plated. O sujeito explicou que devolveria o instrumento no mesmo dia.

O domingo amanheceu e nem sombra do violão. Uma semana depois, Carlito começou a ficar preocupado. O sujeito havia tomado chá de sumiço. Mestre Carlito contou seu drama pessoal para vários amigos músicos.

Duas semanas depois, o violonista Rinaldo Buzaglo descobriu onde Alderico morava. Ele, então, passou na casa de Carlito, embarcou o violonista no carro e rumaram para o moquifo do sujeito, lá pras banda da Praça 14 de Janeiro.

No trajeto, Rinaldo ia nomeando as ruas para que Carlito aprendesse o endereço de Alderico.

A dona da vila onde Alderico morava não tinha notícias do violão, mas concordou em ensinar o endereço da empresa onde o rapaz trabalhava, lá na Cidade Nova. Os dois rumaram pra lá.

Alderico recebeu Carlito com frieza, disse que estava muito ocupado e que só podia cuidar de assuntos particulares depois do expediente. Eram 9 horas da manhã.

Rinaldo e Carlito resolveram montar campana em um bar perto da empresa e aguardaram pacientemente pelo final do expediente do sujeito.

Seis horas da tarde, voltaram a abordar Alderico. Ele embarcou no carro e os três rumaram para a Praça 14.

Quando estavam se aproximando da Rua Nhamundá, Alderico mandou Reinaldo pegar à direita. Carlito, que apesar de cego (ou por isso mesmo) possui uma memória fotográfica, protestou:

– Que é isso, cara? A tua casa é nessa rua, mas dobrando à esquerda…

– Eu sei, meu mano, eu sei! – explicou Alderico. – Mas nós não vamos lá em casa não. Nós vamos passar primeiro ali na casa da Mãe Ângela de Iansã, chegada recentemente de Faro. Ela é uma cartomante poderosa, filha de catimbozeiros maranhenses. A Mãe Ângela de Iansã é a única pessoa capaz de colocar uma vidência e descobrir o paradeiro do teu violão…

Nunca mais o velho Alhambra foi encontrado.

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