O verdadeiro caboco pávulo

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O radialista e humorista Tom Claro nasceu em Gurupá (PA), mas acabou sendo criado pelos avôs em Macapá (AP), onde viveu até seus 15 anos de idade, mudando-se depois para Manaus.

Ouvindo dois famosos locutores de Macapá, Vadico e Lurdico, que utilizavam o linguajar caboquês para se comunicar melhor com a população, Tom Claro ficou fascinado pela vida simplória dos moradores dos beiradões e utilizou esse aprendizado para compor seu famoso personagem Caboclo Pávulo, que conta piadas, canta e borda na linguagem do caboclo ribeirinho da região amazônica.

Em setembro de 1997, Tom Claro foi convidado para se apresentar em uma noite de sábado na badalada 10ª Exposição Agropecuária de Apuí, considerada a maior festa country do estado. O município tem o segundo maior rebanho bovino do Amazonas, com 170 mil animais, e sua população é formada basicamente por forasteiros oriundos do sul do país. Eles não conhecem a linguagem dos beiradões nem de ouvir falar.

O Caboclo Pávulo seria responsável pelo pré-show da banda pernambucana Forró da Brucelose, comandada pelo médico veterinário, tecladista e vocalista Gilson Machado, que estava aproveitando a festa country no município para lançar o segundo CD do grupo.

Por volta das 21h, o Caboclo Pávulo subiu ao palco e começou a desfiar seu show lítero-musical para uma multidão estimada em cinco mil pessoas. Depois de cantar duas músicas de sua autoria, ele contou a primeira piada da noite, caprichando no sotaque de caboquinho perreché:

Dois caboquinhos tavam querendo saber como se escreve “cemitério”.

Um deles disse:

– Olha estezinho, eu acho que é “cemetério” porque lá é tudo feito de “cemento”.

Diz o outro:

– Mas quando já então, eu acho que é “sumitério” porque quando nóis vai pra lá nóis “sume” pra sempre.

Ninguém riu. Tom Claro cantou mais duas músicas de sua autoria e contou uma nova piada, tendo o cuidado de limar um pouco o “caboquês” para não ficar tão incompreensível para a plateia:

Um caboquinho tava ali pescando na beira do rio. De repente chegou um policial ambiental à paisana e começou a especular o caboco.

– E aí pegou bastante?

– Vixi, olha só a quantidade! E olhe que isso num é nada já mandei quase uma tonelada de peixe pra cidade!

– O senhor sabe com quem está falando?

– Não!

– Com um policial ambiental e o senhor está preso por estar pescando na época do defeso!

– E o senhor sabe com quem está falando?

– Não!

– Com o maior mentiroso aqui dessa redondeza!

Ninguém riu. Tom Claro começou a ficar nervoso. Ele cantou mais duas músicas e, quando se preparava para contar uma nova piada, um moleque vestido de cowboy se aproximou do palco e gritou lá de baixo:

– Êi, tio, o senhor aceita pedido?…

– Claro, meu filho, claro! – derreteu-se Tom Claro. – Dizaê o que você quer!

– Dá pro senhor parar de cantar? – fulminou o moleque.

Tom Claro só não desceu do palco para tomar satisfações com o cowboy adolescente porque foi impedido pelos seguranças.

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