“O uísque me salvou”, garante Hugo Carvana

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Por Luís Edmundo Araújo

O ator Hugo Carvana, 63 anos, ficou conhecido do grande público na televisão interpretando personagens memoráveis como o jornalista Waldomiro Pena do seriado Plantão de Polícia, nos anos 80. Mas não esconde de ninguém que sua paixão é o cinema.Nada de surpreendente. Afinal de contas, ele ostenta no currículo 82 filmes, desde a época em que começou como figurante nas chanchadas da Atlântida, durante a década de 50, até os sucessos de Vai Trabalhar Vagabundo, Bar Esperança e O Homem Nu, como diretor.

Há três anos tentando captar recursos para seu novo projeto em cinema, batizado provisoriamente de Tempestade Cerebral, Carvana sobrevive com participações em programas de tevê, entre eles o humorístico Zorra Total. Em 1996, tirou o pé do acelerador quando descobriu ter câncer de pulmão, curado há três anos.

Casado com a jornalista Martha Alencar, o pai de Pedro, 31, Maria Clara, 29, Júlio, 25, e Rita, 22, ainda pretende realizar um sonho antigo: ser dono de bar na Lapa, tradicional reduto da boemia carioca. Não para ficar administrando o negócio atrás de um balcão, mas para fazer o que mais gosta: “Meu negócio é beber”.

Como foi saber do câncer no pulmão logo após o lançamento de O Homem Nu, em 1996?

Quando você descobre que tem a doença é uma porrada. Um soco do Mike Tyson na cara. É uma coisa que você nunca acha que vai lhe acontecer. Só com os outros. Sofri demais no início. Primeiro você tem que chorar. Daí você chora mesmo, não tem jeito. O segundo passo é enfrentar, se informar sobre a doença e procurar as armas para enfrentá-la. É aí que a cabeça do paciente ajuda muito.

De que forma?

A primeira coisa a fazer é não permitir que tenham pena de você, porque a pena dos outros traz mais sofrimento para quem tem a doença. Outra coisa é a fé, não só a religiosa, mas a fé na cura. O câncer é uma doença genética, uma célula que enlouquece, que se rebela, pula da cadeia do seu DNA e se recusa a se ordenar. O trabalho psicológico é importante nesse caso. Passei a fazer análise, e isso me ajudou bastante. Soube da doença em outubro de 1996, poucos dias após a estréia de O Homem Nu. Duas semanas depois, houve uma outra sessão de lançamento no Rio e eu não fui. Tinha tomado a primeira sessão de quimioterapia e estava muito deprimido. Estava fraco, não conseguia andar e não queria que ninguém me visse daquele jeito.

E como o Hugo Carvana boêmio resistiu ao tratamento?

Às vezes burlava a quimioterapia. Tomava um uisquinho antes de começar o tratamento. Aquilo é um horror, você não pode beber. É um veneno. É você injetar na veia Lubrax 4, óleo de combustível. Só que a gente toma quimio hoje e ela só vai fazer efeito daqui a dois dias. Aí é devastador. Então tomava a quimioterapia e no mesmo dia, à noite, tomava um uísque, porque sabia que ia ficar cinco, seis dias desesperado, vomitando e passando mal. O médico proibia mas eu driblava, e acabou dando certo. O uísque me salvou.

Nem o câncer o fez abandonar o uísque?

Tive que parar de fumar, mas não de beber. Gosto de uma história do Vinícius de Moraes. Ele estava num bar com o Tom Jobim e uma amiga. O Vinícius perguntou aos dois quais os bichos que eles gostariam de ser. O Tom respondeu que queria ser um leão, o rei da selva, e a moça disse uma garça. Quando o Tom perguntou que bicho o Vinícius gostaria de ser, a resposta foi imediata. “Uma girafa, porque o uísque ia demorar a descer”. Acho que gosto tanto de uísque quanto o Vinícius gostava.

Qual a sensação de ficar curado de um câncer?

Tive a notícia da cura em junho de 1997. A porrada que eu recebi quando o médico anunciou minha doença, voltou com a mesma força quando soube que estava curado. Aí a porrada é no sentido inverso. Comemorei como de direito. Estou de porre até hoje.

Que privações a doença trouxe?

Praticamente perdi um pulmão com a radioterapia, que é outra coisa absurda. Hoje não posso correr e subir escada. Tem que ser devagar. Fumar, só charuto, que não se traga. Mas eu me controlo. De quatro em quatro meses, faço a manutenção. Marco a consulta com o médico e faço todos os exames antes, me monitoro inteiro. Essa nunca mais me pega, e, se voltar, eu pego no início. Fiquei o rei do controle.

Como será seu próximo filme?

Escrevi uma história de um cantor da noite que viveu no Rio entre os anos 50 e 80. Ao narrar a vida desse personagem fictício, que não é famoso, mas muito conhecido entre os amigos e nos bares da noite, viajo pela música brasileira. Perseguia a possibilidade de um dia ter a música, não como moldura ou adorno, mas quase como um personagem de um filme. Também é uma forma de homenagear os velhos cantores da noite. Antigamente eu ia num bar só para ouvir gente como Altemar Dutra. Essa gente tinha um público fiel.

Será mais um filme sobre bares, boêmios e a noite?

Não é intencional. Só gosto de fazer filmes urbanos contemporâneos. Gosto de olhar as pessoas, descrever tipos humanos. O ator vive disso, de observar. Então acaba aparecendo. Às vezes até elimino os excessos para o filme não ficar muito boêmio, mas de vez em quando é impossível. Bar Esperança, por exemplo, era a história de um bar, tinha que ter a boemia e todos os seus personagens.

Ainda é muito difícil fazer cinema no Brasil?

Tenho 45 anos de cinema e já vi dezenas de crises. Estamos passando por mais uma. A última foi a do governo Collor e agora estamos com essa. Está havendo um esgotamento das leis de incentivo, que estão se tornando ineficazes. Como sempre, o problema é a falta de vontade política. Quem cuida dos setores do governo responsáveis pelo cinema não tem a visão da importância do audiovisual brasileiro em termos de difusão da imagem nacional aqui e lá fora.

Por isso a demora de mais de quatro anos para lançar o filme?

Estou há três anos tentando captar recursos para esse filme e não tenho mais saco. A dificuldade é tanta que parece que estou fazendo o filme da minha vida, e não é isso que eu quero. Tenho mil idéias na cabeça. Quero fazer esse filme, acabar e fazer outro, porque essa é a minha vida. Fazer cinema no Brasil. Só que estou há três anos me angustiando e correndo.

Dá para viver de cinema no País?

Não. Tem que ter sempre uma outra atividade. Eu faço televisão. Não que eu tenha algo contra televisão, pelo contrário, eu adoro, mas quisera eu poder filmar de dois em dois anos. Um ano escrevendo e montando a engenharia financeira e outro ano filmando. Era meu sonho, mas é impossível. Cheguei aos 63 anos, já desisti de sonhar.

Algum filme pode ser considerado a obra de sua vida?

Sou profissional de cinema. Aprendi fazendo, mas não sou um cineasta no sentido de que o cinema para mim é visceral, um instrumento para transformar o mundo ou o homem. Nada disso. Cinema pra mim é diversão e prazer, e quero fazê-lo como tal. Posso dizer que tenho um afeto por Vai Trabalhar Vagabundo, porque foi o primeiro que eu produzi e é um filme comentado até hoje. Assim como o Bar Esperança, que virou até bar de verdade em Cuba.

Que história é essa?

Em 1986, ganhei o prêmio de melhor filme dado pela União dos Escritores e Artistas Cubanos. No ano seguinte, fui a Havana a convite do poeta cubano Rafael Rey, que de tão apaixonado pelo filme resolveu criar o Bar Esperança lá, que só funciona durante a semana do Festival de Cinema de Havana, na sede do Estúdio de Cinema Cubano. Agora eu quero fazer um Bar Esperança no Rio de Janeiro.

Vai virar dono de bar?

O governo do Estado do Rio está criando o Distrito Cultural da Lapa e já pleiteei um espaço no projeto. Quero fazer o Centro Cultural Bar Esperança, o último que fecha. Vai ser o bar dos artistas, com espaço para apresentações de cantores, músicos e poetas. Só que não vou ficar com a barriga atrás do balcão. Sempre achei que quem bebe não pode administrar um bar. Estarei lá para receber os amigos e beber, claro.

Hugo Carvana continua boêmio?

Minha boemia agora é outra. Não volto mais para casa às cinco, seis da manhã, mas sou visceralmente uma pessoa de bar, desde um bar sofisticado até o boteco vagabundo. Quem gosta de beber gosta de ser amigo de quem bebe. Não que eu não tenha amigos que não bebam, mas é uma questão de cultura, um ritual. Tenho uma casa em Itaipava, na região serrana do Rio. Chego lá na sexta-feira e vou direto a um bar, onde sei que vou encontrar os amigos. No dia seguinte vou a outro, e encontro outros amigos. Durante a semana também faço isso no Rio, eventualmente. Só que estão botando televisão em bar. Você tá lá conversando e aquele troço ligado. É um absurdo.

(Entrevista publicada em 2003, na revista IstoÉ Gente)

NR.: O ator e diretor Hugo Carvana morreu aos 77 anos na manhã do dia 4 de outubro de 2014, um sábado, no Rio de Janeiro. Carvana, que estava internado há pouco mais de uma semana, sofria com o mal de Parkinson, doença diagnosticada há quatro anos.

Ele trabalhou em mais de 100 filmes, desde a época em que começou participando de algumas produções como figurante, por volta do ano de 1955, nas chanchadas da Atlântida.

No inicio da década de 1960, veio o primeiro papel de destaque, em Esse Rio que eu amo, atuando ao lado de Agildo Ribeiro e Tônia Carrero. Depois, o artista esteve presente em sucessos como Vai Trabalhar Vagabundo, Bar Esperança e em O Homem Nu – como diretor.

Em 1962, fez parte do movimento do Cinema Novo. Além disso, atuou também no Teatro de Arena de São Paulo, no Teatro Nacional de Comédia e no Grupo Opinião.

Em 1975, Carvana foi convidado para atuar em sua primeira novela de televisão, Cuca Legal, de Daniel Filho. Foi no segmento das novelas televisivas que Carvana se popularizou como ator.

Dentre as novelas em que atuou, destacam-se Roda de fogo (1986), O dono do mundo (1991), De corpo e alma (1992) e Celebridade (2003). Ele também ficou conhecido pelo seriado Plantão de polícia (1979-1981).

Em 1991, o ator esteve em Brasília com o longa metragem Vai trabalhar vagabundo 2 – A volta, tendo sido agraciado com o troféu Candango de melhor ator no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Seus últimos trabalhos no cinema foram as comédias Não se preocupe, nada vai dar certo, no qual atuou e dirigiu Gregório Duvivier, Flavia Alessandra e Tarcísio Meira e Giovanni Improtta, ao lado do ator José Wilker, também morto em 2014.

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