O resgate do Pavulagem

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Janeiro de 2009. Seis dias de debates, manifestações e cultura popular. Tribos de vários lugares do mundo inteiro, de negros e índios aos brancos europeus. Era possível enxergar de tudo um pouco durante a 9ª edição do Fórum Social Mundial, em Belém (PA), que reuniu mais de 120 mil pessoas na Universidade Federal do Estado do Pará e na Universidade Federal Rural da Amazônia, locais das discussões.

Com uma passeata de abertura, os participantes do maior encontro de movimentos sociais do planeta percorreram as ruas da capital paraense, com palavras que clamavam por um mundo mais justo e sustentável. No Hangar (Centro de Convenções e Feiras da Amazônia), a apresentação dos bumbás Garantido e Caprichoso, com seus itens principais, foi um dos pontos altos do evento.

Uma semana depois do panavueiro, o artista gráfico Gil da Liberdade, um dos mais fanáticos torcedores do “boi do Povão”, recebe um telefonema de Vicente Matos, presidente do Garantido, que solicitava a ajuda dele para “quebrar uma castanha”.

Gil foi se encontrar com Vicente no Bar do Cipriano, ali na Praça 14. Mais nervoso do que de costume, Vicente explicou que precisava urgentemente de R$ 250 para salvar a pele de um “amigo”, que estava preso no porão de um barco regional atracado na Manaus Moderna. Garantiu que “aquilo era uma questão de vida ou morte”.

Gil explicou que emprestaria o dinheiro, sem problemas, mas que gostaria de saber mais detalhes sobre a história. Vicente resolveu abrir o jogo.

Responsável pela delegação do bumbá Garantido durante o Fórum Social Mundial, em Belém, o empresário Armando do Valle havia despachado o “tripa” Piçanã e o boi-bumbá em um barco regional de linha, garantindo que as passagens deles seriam pagas em Parintins. Quando o barco chegou à cidade, depois de três dias de viagem, o empresário já tinha se escafedido. Ninguém quis pagar as passagens da dupla.

Muito puto, o dono da embarcação liberou o “tripa” Piçanã, mas o touro branco ficou detido no porão do barco, que seguiu viagem até Manaus. O barco havia chegando ao porto da Manaus Moderna naquela tarde. No dia seguinte, o barco seguiria viagem para Tefé e Benjamin Constant. Se não aparecesse um responsável para pagar pelo frete do bumbá Garantido, o dono da embarcação pretendia afogá-lo no porto de Tabatinga.

Gil da Liberdade ficou possesso:

– Porra, Vicente, isso não está certo! – argumentou. – Quer dizer que os viados, os destaques, os batuqueiros e os diretores viajam de avião e o pedra-noventa vai de barco de linha? Isso é sacanagem, porra, isso é sacanagem! O Pavulagem é o item mais importante da brincadeira, caralho! Se não fosse ele, a festa nem existia. Como foi que deixaram o Pavulagem nessa situação?… Isso é muita putaria, Vicente, muita putaria!

Aí, batendo na mesa, foi peremptório:

– Se fosse pra outra coisa, eu te dava os R$ 250 agora, nesse instante! Mas pra resolver essa parada e ser conivente com essa situação em que colocaram o Pavulagem, eu não dou não! Porque se a gente resolver o problema agora e ficar por isso mesmo, amanhã vão fazer de novo…

Dito isso, levantou-se da mesa ainda cuspindo fogo, entrou no carro e foi embora.

Na manhã seguinte, depois de muito chororô do Vicente Matos, o boa-praça Claudir Moraes resgatou o Pavulagem, quer dizer, o bumbá Garantido. Choses.

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