O renascimento do capitalismo selvagem

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Por Luís Fernando Verissimo

É um pouco como o homem da anedota, que matou o pai e a mãe e, no seu julgamento, pediu misericórdia para um pobre órfão. O governo quer a compreensão dos trabalhadores para o sacrifício de mais alguns dos seus direitos no combate ao mal que ele mesmo criou com seu modelo empregocida.

Em vez de substituir o paternalismo e o obsoletismo de muito da legislação trabalhista por formas mais modernas de proteção social, estão saindo da Era Vargas para trás, para o sistema semi-escravagista, que hoje continua no campo, mas então era regra em toda parte, e no qual o padrão decidia tudo sobre a vida do empregado.

Por trás da conversa mole de flexibilização e racionalização das relações de trabalho está apenas outro capítulo, versão periferia dependente, da volta triunfante do capital ao seu paraíso perdido do deixa-fazer total, pisando, no caminho, em todos os direitos conquistados pelo trabalhador em cem anos.

Estamos numa onda de retroação. Nações se desfazem em tribos, o mercantilismo selvagem volta travestido de globalização e o capital mal pode esperar a passagem do milênio para estar de novo no século 19, desta vez com o computador e sem os socialistas.

O que atrapalhou o capital foi que, junto com a burguesia que ele criou, nasceu a moral burguesa, um subproduto inesperado e até hoje de gênese misteriosa.

A brutalização das relações humanas pelo mercado teve sempre a companhia incômoda da consciência, mesmo que fosse só na forma de duas ou três vozes insubmissas, ou da arte sentimental.

Até o materialismo “científico” de Marx vinha tocado pelo sentimento de que ideias justas resistem à lógica da exploração inevitável do fraco pelo forte por nenhuma razão científica. Apenas por serem justas, seja lá o que isso for.

Levou tempo, mas o capital conseguiu se libertar de todas estas baboseiras que só diminuem o lucro. Vão começar o próximo século 19 com agenda limpa.

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