O rapto do Metrô

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Por Edney Silvestre

Um dos mitos desta terra é que sonhos não têm limites. Pode até ser verdade. Mas o garoto Keron Thomas, francamente, extrapolou. E agora está ameaçado de pegar de um a quatro anos de xadrez por causa disso.

Keron veio de Trinidad, uma ilha no Caribe onde ele sequer desconfiava da existência de trens andando por baixo da terra. Quando, com os pais e três irmãos mais velhos, imigrou para Nova York há quatro anos, não foram os arranha-céus, as vitrines prometedoras ou a facilidade de consumo que deixaram seus olhos e imaginação correndo soltos. Keron encantou-se, mesmo, foi com o subway.

Sempre que podia, após as aulas na Automotive High School de Brooklyn (um subúrbio fora de Manhattan), ele se metia sob as ruas, conversando com os motorneiros do metrô, enchendo-os de perguntas sobre como funcionava aquela coisa metálica e barulhenta, fazendo passeios intermináveis de uma estação para outra.

Também adotou vestimentas iguais ás dos funcionários da Transit Authority, a empresa municipal que administra os transportes coletivos. Taludão, parecendo mais velho que seus reais dezesseis anos, Keron acabou se misturando com eles, aprendendo seus nomes e suas gírias, fazendo amizades. Uma delas foi com o motorneiro Rogoberto Sabio.

Quando Mr. Sabio – um quarentão veterano da guerra do Vietnã, há oito anos trabalhando nos trilhos nova-iorquinos – entrou de férias, Keron soltou os freios do plano que vinha tramando há tempos.

Identificando-se como Sabio, Keron telefonou para a administração da Transit Authority oferecendo-se para substituir quem não pudesse comparecer naquele sábado de maio. Não demorou muito, foi convocado para uma substituição de última hora.

Munido de boné, camisa e ferramentas habituais dos condutores – e que podem ser compradas por qualquer um –, Keron partiu para lá. Ao ser visto de jeans, em vez das calças azuis do uniforme, recebeu uma advertência do administrador da estação, e mais nada. Ninguém lhe pediu identificação, ninguém checou se era mesmo Regoberto Sabio. E deram ao garoto o trem nº 538 da Linha A, a mais comprida de Nova York (sai da Rua 207, no Bronx, e vai até o Lefters Boulevard, no Brooklyn, passando pelo centro de Manhattan).

Enquanto aguardava seu comboio chegar, Keron deu uma estudada no roteiro, confiando no que aprendera com sua curiosidade e livros de mecânica que lera. Às 3h58 da tarde estava saindo da estação no Bronx. Às 5h39 chegava ao Lefters Boulevard, sem cometer um erro. A gostosa aventura tinha um final feliz, certo?

Errado.

Keron queria mais.

Deram-lhe outro trem e lá ele de volta, sentindo-se cada vez mais esperto. E foi essa segurança que lhe caiu sobre a cabeça.

Voltando do Brooklyn, depois de atravessar Manhattan quase inteira, o trem de Keron se aproximou de uma curva em acentuado declive na Rua 175. Qualquer motorneiro experiente saberia que o ponto é perigoso e que diminuir a velocidade é obrigatório. Mas Keron estava delirando de prazer.

O trem começou a ganhar mais velocidade, descendo cada vez mais rápido. Keron vibrava, sentindo-se o comandante daquela montanha-russa particular. A borda, os passageiros nem desconfiavam da tragédia que estava para acontecer no próximo minuto.

Se a segurança humana falhou – ou foi negligente, como é a opinião de todo mundo –, a mecânica não perdoou. Toda vez que um trem ultrapassa os setenta quilômetros por hora, um sistema automático entra imediatamente em ação. Foi o que aconteceu com o metrô roubado pelo desmiolado garoto.

De repente o trem parou, acionado por freios automáticos. Para desligá-los, basta descer ao túnel e mexer numa certa geringonça. Keron até sabia fazer isso. Só que ele, apesar do metro e oitenta em parrudos oitenta quilos, tem outra coisa de criança além do amor por trens. Keron tem medo de escuro. E porque se recusou a descer, trancando-se emburrado dentro da cabide, o metrô ficou entupido dentro do túnel por mais de 45 minutos, até que chegaram os substitutos que o conduziram ao destino final.

Levado à central da Transit Authority para um exame de álcool e drogas, Keron fugiu ao chegar na porta. Mas foi fácil encontrá-lo: bastou ligar para o telefone do “Sabio” com quem tinha falado antes. E o verdadeiro Mr. Sabio, ao ver as fotos do falso Sabio em todos os jornais, reconheceu o sujeito que vivia a crivá-lo de perguntas sobre o funcionamento das linhas.

Alguns acharam graça. O demagógico ex-prefeito de Nova York, Ed Koch, declarou que ele “é apenas um bom menino com uma obsessão”. A Fox Television está tentando comprar os direitos da história para um filme.

Os dois mil passageiros que circularam pela Linha A naquela tarde – e que poderiam ter morrido num acidente causado pelo delírio juvenil – não estão rindo. E Keron, aguardando julgamento, não sai mais do quarto. “Meu menino é muito encabulado”, justifica o pai.

Imaginem o que não faria se fosse extrovertido.

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