“O racismo não me deixa tirar férias”, diz Monique Evelle

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Por Ana Beatriz Rosa

São nas minúcias que se descobrem as grandes riquezas. Por meio das experimentações é que se conseguem lapidá-las. É com coragem que se descobre a hora de encontrar novos caminhos. É preciso ter sensibilidade para provocar encantamentos em si e nos outros. Quem garimpa, precisa ter olhos e ouvidos atentos. E Monique Evelle tem tudo isso.“Eu tento falar com todos. Eu quero garimpar pessoas, projetos, linguagens e ferramentas. Eu tenho medo. Tenho medo de ficar parada e deixar o mundo assim, do jeito que tá. Tenho medo de não fazer parte daquilo que vai mudar o mundo. Se não o mundo, pelo menos a minha quebrada. Eu até que penso em parar. Mas o racismo não me deixa tirar férias.”

De onde quer que se parta, os caminhos te levam a Monique Evelle. A jovem soteropolitana tem 22 anos e a pouca idade impressiona qualquer um que a escuta falar. Idealizadora de projetos como o Desabafo Social, o marketplace Kumasi, para empreendedores negros de Salvador, e a rede social Ubuntu, o que brilha em Monique é sua capacidade de conectar pessoas e histórias.

Aos 16, pensou em criar um grêmio para discutir questões de gênero e raça na escola em que estudava. O debate não acontecia. Ninguém compreendia a necessidade da garota de abordar tais questões. Em uma turma de maioria branca e rica, Monique disse ter se calado e “deixado passar”. Mas não passou e tomou as ruas.

Em 2011 nascia o Desabafo Social. Hoje, a rede promove a educação em direitos humanos de jovens de periferia por meio da comunicação e de novas tecnologias. O projeto foi reconhecido pelo Instituto Brasileiro de Direito da Criança e do Adolescente (ABMP) e ganhou o Prêmio Laureate Brasil.

E foi no processo de construção dessa rede que Monique compreendeu o que era o silenciamento. Por muitas vezes, a garota afirmou ter usado a timidez como forma de se proteger. Logo ela, que não mede palavras, tem ritmo próprio e encanta plateias em suas palestras.

“Eu não sou tímida. Eu só não tinha um nome pra isso. Foi quando ouvi de um amigo que o racismo é que me mandava calar a boca que uma chavinha virou para mim. E só agora, aos 20 anos, é que eu entendi que o nome disso é silenciamento.”

Monique Evelle no TedX São Paulo

Eleita uma das 25 mulheres negras mais influentes da internet e citada na lista de mulheres inspiradoras da Think Olga, em julho de 2016 Monique Evelle participou do TEDxRioVermelho e TEDxSão Paulo com apresentações inesquecíveis.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, ela compartilhou suas experiências e opiniões.

Como surgiu para você temas como o feminismo e a negritude?

Nem sempre fui engajada assim. Eu sabia que existia, mas não sabia como argumentar, como discutir, como transformar. Foi no colégio que meus dilemas afloraram. Foi um dos piores lugares para uma mulher negra conviver. Quando eu tinha entre 15 e 16 anos, todas as vezes que eu tentava falar sobre essas questões as pessoas não me deixavam falar. E chega uma hora que cansa. Você acha que é coisa da sua cabeça e ai você desiste. Eu comecei a usar a timidez como forma de me proteger. Mas na verdade eu falava pra caramba. Eu só não tinha um nome pra isso. Com 18 anos eu conheci o ator Érico Bras e ele me disse que o racismo fazia que eu achasse que eu era tímida e me obrigava a calar a boca. Agora, depois dos 20, é que eu entendi que estava sendo silenciada o tempo todo. Nessa virada entre 16 e 18 anos é muita coisa para você entender sendo jovem e preto. Às vezes você só quer tirar férias, mas o racismo não deixa. Se tornar negra é um processo muito díficil. Porque eu sei que eu sou, mas quando você compreende outras questões o jogo muda. Eu posso sair de casa e virar estatística. E tentar de alguma forma mudar esse quadro é que é “barril”.

Foi nesse momento de inquietações no colégio que você planejou o Desabafo Social?

Sim. Em 2011 eu estava terminando o 3º ano do colégio e eu queria montar um grêmio pra discutir gênero e raça, principalmente. Por mais que eu estudasse em colégio público, tinha mais branco do que negro nas salas. Só que já estava no final do ano e eu queria continuar discutindo. Então eu decidi fazer oficinas nas ruas que era o mais próximo de mim. Eu abordava quem passasse e falava sobre novelas, futebol, coisas do dia a dia que a maioria dos brasileiros vive, pra depois chegar ao ponto que eu queria: “olha, a televisão mostrou isso, mas tem essa história aqui que você não conhece e se você quiser conhecer a gente pode conversar”.

Depois de um ano, eu resolvi escrever em um blog sobre o que eu pensava e sobre o que eu fazia nas ruas. Nenhum dos meus amigos lia o que eu escrevia, porque naquela época não tinha isso das redes sociais. Acabava que eu não estava escrevendo pra ninguém e o Desabafo era como se fosse um diário de bordo para mim. Até que um dia eu vi um menino de Fortaleza, outro de São Paulo e outro do Rio colocar no “sobre” do perfil do Facebook que faziam parte do Desabafo Social. Isso me fez enxergar que também tinha gente disposta a fazer alguma coisa. Foi assim que eu comecei a procurar essas pessoas, a gente formou uma rede e hoje o Desabafo é uma ONG que através da comunicação e das novas tecnologias promove a educação de direitos humanos principalmente em periferias.

Com a repercussão do projeto, a prefeitura de Salvador começou a acompanhar as ações e queria que a gente fizesse atividades nas escolas.

Pode explicar como são essas atividades?

Geralmente a gente chega nos intervalos para ouvir o que os alunos estão conversando e só depois é que a gente vai pra sala de aula. Nós temos duas formas de abordagem que variam com o momento. Existe o projeto chamado #NaRoda que é muito simples. A gente faz uma roda com todos os presentes, escolhe um tema e pede pra todo mundo conversar, sempre instigando opiniões diversas e senso crítico.

Também trabalhamos com questões práticas. O Mão na Massa é para quando a gente quer falar de cultura maker e empreendedorismo. Em uma das escolas fizemos um sobre desemprego, por exemplo. Mostramos comos os dados tinham aumentado no Brasil e queríamos pensar em como poderíamos reverter essa situação. Os estudantes têm um dia inteiro para pensar em soluções e pesquisar a viabilidade delas, seja com smartphone, computador, ou o que a estrutura permitir. Através do desafio a gente consegue estabelecer o que a gente quer: empoderar a pessoa a pensar em soluções, ir atrás de informações, planejar alternativas e não depender que alguém dê as soluções já prontas. O indivíduo precisa ter autonomia para aquilo. As tecnologias estão aí e elas precisam ser usadas a nosso favor. A gente também tenta unir o conteúdo que está sendo dado em sala de aula e equilibrar com a vida real. Queremos que os alunos ampliem as suas habilidades, sempre focados nestes vetores: autonomia, liderança, empreendedorismo e comunicação.

Ainda temos uma terceira atividade que é na linha desse desafio maker. A gente está finalizando um aplicativo para mediar esses projetos e o professor. Por meio do aplicativo, o próprio professor é quem vai criar o desafio. Ele vai colocar a descrição, quais os temas que vão ser abordados e quais habilidades vão ser trabalhadas. Depois de criado, o aplicativo vai gerar um código que pode ser compartilhado com a turma e aí todos os alunos podem acessar o desafio.

Existe diferença entre fazer essas atividades em escolas públicas e privadas ou na periferia?

As atividades são simples e a gente pode fazer em qualquer espaço público que tenham pessoas dispostas a dialogar. Realizar essas ações em uma periferia é até melhor, porque o ambiente de uma sala de aula às vezes limita a criatividade do jovem. Então, se a gente vai na periferia e vai tratar de um problema que tá ali, na rua mesmo, há uma pesquisa de campo para achar uma solução. A periferia tem mais possibilidades de criação porque é um espaço aberto.

Evento #NaRoda no Rio de Janeiro

O que é ser empreendedora social?

Tenho muita crise com o empreendedorismo. Existem algumas coisas que a gente tem que levar em conta. São realidades e contextos. Para pessoas do meu contexto, empreendedorismo é sinônimo de sobrevivência. Empreendemos por necessidade. Se isso conta para ser um grande empreendedor eu não sei. Nos grandes eventos de empreendedorismo que eu já fui, a tia do cafezinho e o vendedor do hot-dog não são considerados empreendedores. Mas a menina que cria o 101º negócio, igual aos 100 outros que já existem no mundo, é empreendedora. Outra coisa que me preocupa é quando eu vou fazer as palestras. Se eu falo com o topo da pirâmide, a base da pirâmide vai se sentir inútil. Não tem como falar de poupar dinheiro para quem só tem conta corrente para cair o salário e tem 4 filhos pra criar. Criar novas tecnologias? 27% dos brasileiros são analfabetos. São dicas que não fazem parte do contexto da base da pirâmide. A maioria das pessoas que empreendem hoje não é porque decidiram empreender, mas porque decidiram se virar rápido, com alguma coisa que sabem, porque estão desempregadas. Então quem quer falar de empreendedorismo tem que entender de contextos. E eu me preocupo muito com isso. Quem ao meu redor sabe o que são startups? Quem sabe o que é pitch? Então é foda isso. Nem a linguagem aproxima os contextos. E o foda é que todo mundo precisa aprender contextos.

E como você faz para transitar entre esses contextos?

É difícil transitar. Eu vivo na linha tênue entre as classes. Eu sou de quebrada, eu nasci em quebrada e continuo morando aqui. Mas ao mesmo tempo eu consigo dormir. Entendo o que os ricos e brancos falam e tento de alguma forma passar isso pra quem quiser ouvir. Em uma linguagem que eu sei por que eu nasci na quebrada. É uma questão de deslocamento. Nem todo mundo da quebrada me enxerga hoje como da quebrada. E os ricos nunca vão me enxergar como rica.

Você tem que ser resistente e às vezes você não quer ser. Eu quero ficar de boa na lagoa, às vezes eu quero chorar, e aí vem todo mundo e me diz que a mulher negra tem que ser forte. Muita gente de fora de Salvador fala que aqui não tem racismo, porque todo mundo é preto e todo mundo se ama. Mas não é assim. Em nenhum lugar, em nenhuma classe social estarei imune ao racismo e ao sexismo. Porque dinheiro não embranquece ninguém. Vão aumentando as opressões em mim em cada deslocamento geográfico que eu faço. É todo um processo de resistência para você não surtar.

Você tem alguma estratégia para não surtar?

Eu cuido muito da minha saúde mental. Se eu não estiver bem, eu não sou nada. Se eu vejo que tô pirando eu paro tudo, fico só comigo mesma, eu fujo, eu viajo, e depois eu retorno com calma e diva. Ninguém fala de saúde mental. Todo mundo acha que é besteira. As pessoas não entendem que eu não consigo ir a todos os eventos. Outra coisa, essa romatização de movimentos sociais também não cabe. Em 2013 eu fui para rua. Fui uma vez, tomei tiro e fiquei hospitalizada. Então eu me questiono até que ponto fazer uma militância assim funciona. Ainda, eu sei que tem pessoas que odeiam outras. Eu leio as mensagens de ódio nas redes sociais e que não são só de haters, às vezes são de pessoas do próprio movimento que não entendem minhas escolhas.

Passou a ser normal conviver com esses haters? O que você pensa da militância nas redes sociais?

Djamila Ribeiro, maravilhosa, uma vez falou uma coisa que eu fiquei pensando e é verdade. Se uma pessoa ataca a pessoa e não o argumento, o nome disso não é crítica, é inveja. As pessoas são pessoas, elas têm sentimentos. Raiva, amor, empatia. Mas às vezes no movimento as pessoas não enxergam isso. Tudo é problematização, tudo é crítica. Por não fazer isso, de opinar sobre tudo, falar de tudo, problematizar sobre tudo, as pessoas me criticam. Às vezes eu não quero opinar sobre algo simplesmente porque eu não sei.

Sobre a militância na internet, de um lado tem a importância, porque nós pautamos várias questões e a mídia tradicional incorpora isso. Mas ao mesmo tempo as pessoas cobram nosso posicionamento o tempo inteiro. Gente, eu não tenho que falar sobre tudo. Quem tá dizendo isso? Se me perguntam o que eu acho da vida de Obama e eu não quero responder, eu digo ‘não sei’. As pessoas falam ‘ah, se ela não sabe então não é importante eu pensar sobre isso’. Você não precisa esperar que eu opine para ter a sua opinião. Tem pessoas que esperam eu falar, pegam o meu texto, constroem outro em cima com os mesmo argumentos e às vezes nem creditam. Será que produção de bens materiais e produção intelectual de preto é domínio público? Eu fico pensando nisso…

A timeline das redes sociais não deixa a gente chegar até a informação, porque é tudo muito rápido. Então, eu só opino sobre aquilo que eu consigo apurar por pelo menos durante uma semana. E aí eu tomo porrada. Entro em crise porque as pessoas estão me batendo, e são pessoas negras, são mulheres. Ai a Djamila vira para mim e fala: “nem todo preto é irmão, nem toda mulher faz parte do clube da Luluzinha”. Eu acordei para vida e tô me cuidando.

Monique Evelle em campanha para a Kumasi

O que move, então, a Monique?

Estava pensando nisso. Por que não parar? Toda vez que eu penso em parar, aparece alguma criatura para mandar algum depoimento muito forte. Teve um que foi no meu aniversário. Uma menina que era colombiana e morava na Espanha disse que se descobriu negra a partir dos meus textos. Como eu vou parar se aparece essa pessoa que está em outro país e me diz isso? Você já assistiu O Topo da Montanha [peça de teatro sobre a vida de Martin Luther King, protagonizado por Taís Araújo e Lázaro Ramos]? Tem uma hora que a Taís fala: “Mas me diga uma coisa que nós negros temos com os brancos?” E o Lázaro responde: “Temos medo”.

Todo mundo tem medo. Eu tenho medo de continuar o mundo do jeito que está e não poder fazer nada para mudar, pelo menos a minha quebrada. Eu quero fazer parte da construção. O que eu comecei hoje com o Desabafo eu não vou terminar nunca. Eu vou morrer e ele vai continuar por outra pessoa, de outra forma, de outra linguagem. Eu não vou estar viva para ver tudo melhorar, mas vou continuar fazendo por uma questão de lógica e de conta. O Brasil tem 516 anos, são 350 anos de escravidão. Gente, menos de 150 que a gente tá livre. Eu não estarei aqui para ver o fim do que eu comecei, mas eu tenho medo de não fazer parte dessa construção.

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