O que sei sobre Previdência Social

0

Por Millôr Fernandes

Volta e meia, para suavizar a denúncia de mil fraudes na Previdência Social, um ministro chega e diz que vão ser aumentadas as garantias econômicas dos trabalhadores. Traduzindo: vão tirar mais alguma coisa do trabalhador agora pra fazer frente ao que ele receberá (ou não) no futuro.

Ora, não é preciso conhecer cálculo autuarial – nem duvidar muito da competência da administração estatal – para saber que, com a desvalorização maluca da nossa moeda, o aumento do que receberemos aos sessenta anos jamais será correspondente ao aumento da parcela que vamos pagar a mais aos trinta.

Eu cito um exemplo: os dois cruzeiros que o governo me tomava em 1950, suficientes, então, pra pagar uma sólida meia porção no Restaurante Reis, agora, mesmo “corrigidos” (a correção monetária sempre me soa a uma coisa criminal, penal, como Casa de Correção), não me dariam pra comprar um chiclete num sinal fechado.

Pra garantir o seguro social (aposentadoria), é preciso, antes de tudo, fazer com que a moeda não mingue, não encolha, não encurte, não enrugue, não seque, nem empalideça. Quer dizer, talvez a melhor maneira de garantir nossa subsistência futura seja não guardarmos bens “convencionais” (moedas e valores semelhantes), mas fazermos como os esclerosados (a esclerose ainda não está bem estudada; talvez seja uma suprema forma de sabedoria econômica), que deixam de acreditar nas coisas simbólicas (moedas e que tais)  e passam  esconder no guarda-roupa caixas de bombons, bifes e tomates.

É uma boa idéia! Cada grande empresa não descontaria mais nenhuma parcela de salário, mas seria obrigada a manter um enorme frigorífico onde, todos os dias, seus empregados guardariam uma banana, uma azeitona e uma maminha de alcatra. Assim, quando atingisse a idade da aposentadoria, o empregado gozaria seu ócio tomando de volta seu pedaço de carne congelada e não seu cruzeiro miniaturizado. É bem verdade que essa solução também não é perfeita, pois a estocagem de alimentos acabaria por elevar tanto os preços que muita gente morreria de subnutrição no afã de economizar para a velhice. Então, não tem solução?

É, é difícil. O problema da segurança econômica individual e, consequentemente, da psicológica e mesmo física, é cheio de complicadas implicações e insolúveis emboscadas. Pois só os que têm excessivamente menos se iludem com os que possuem demasiado mais. Os que morrem de fome morrem de fome; mas se pensam que os donos dos impérios, com suas úlceras multinacionais, vivem profundamente seguros de suas posses, estão redondamente enganados.

Na verdade, o único homem seguro é o homem altamente capaz e plenamente saudável que, tendo capacidade de ganhar cem, trabalhar para ganhar e viver com apenas dez. Mas aí já entramos no campo da filosofia. E essa situação, neste mundo caótico e neurótico, é tão excepcional que esse homem acabará, também, inseguro de sua posição por ser esta extremamente solitária. Não tem jeito, Millôr!

Bom, há a segurança econômica da selvageria, no bom sentido da palavra. Pois o índio, o selvagem – enquanto seu lobo, isto é, os antropólogos, não vêm –, está sempre em contato direto com seu fornecimento básico – o peixe na água, a pitanga no pé, a macaxeira no chão. Homem do mundo? Tá falando com ele! Mas ninguém é primitivo por muito tempo. Logo surgem as miçangas os espelhinhos, o escambo – e a armazenagem. E a sacanagem, também. Natural ou insuflada. E quando a flecha já não voa contra a anta, mas contra o índio de outra tribo, temos, de uma forma ou de outra, que começar a pensar num INPS pra garantir o ocium cum dignitate.

Mas, e fora do seguro estatal, não há salvação? Ah, que me perdoem alguns idealistas, com suas companhias de seguros e montepios montados em bases “sérias”. Todo seguro ou é uma utopia ou uma arapuca, e as duas coisas se confundem. Pois as utopias, mesmo as recém-fundadas, estão sempre às vésperas da falência. O seguro, sabem seus técnicos honestos, tem que ser compulsório (pois jamais é compulsivo) pra sobreviver aos segurados. Pois, se não for compulsório, a média das pessoas só pensará na aposentadoria aos sessenta anos quando estiver então com cinquenta e nove. Então…

Então e enfim. Na mão de particulares o seguro não funciona. Com o governo, onde, sem lucro, deveria funcionar, cai em poder das novas-classes com suas mordomias voadoras. E os velhinhos, outra vez, acabam mesmo dormindo na porta da padaria.

Só há, pois, uma fórmula de segurança econômica (social). Um governo, um regime, um sistema, uma instituição, que não se preocupe com a desvalorização da moeda e trate, definitivamente, da valorização do ser humano. Taí, falei bonito! Conhecem algum sistema desses? Mandem o endereço.

Deixe uma resposta

Please enter your comment!
Please enter your name here