O Pobre do Escritor

0

Por Paulo Mendes Campos

A experiência me ensina a desconfiar, nem sempre da palavra generosa, mas da estatística subjetiva. A estatística subjetiva é um computador às avessas: dez pessoas dizem que o meu nariz é feio; uma pessoa diz que meu nariz é uma graça. Meu computador opera eletronicamente as fichas, acende luz, apaga luz, e entrega a solução do meu problema: SEU NARIZ É UMA GRAÇA!

Certíssimo. Ganhei de um contra dez. Na computação do amor-próprio, um voto a favor vale por cem votos contra.

No caso do leitor há um abismo de diferença, embora não seja nada difícil saltá-lo ou voá-lo, pois o amor-próprio tem asas. Três leitores escrevem dizendo que adoraram meu verso ou minha prosa. Multiplico por cem e obtenho a cifra animadora de trezentas inteligências que me acham maior do que… Não chego ao fim da comparação. A glória me inebria como uma pá de psicotrópico. Sou o maior e pronto.

Sou o maior pelo menos durante cinco minutos. Passado esse tempo – quase infinito quando se trata da contemplação deleitosa de si mesmo – o demônio da aritmética começa a cutucar-me com suas antenas duras de inseto roedor. E se eu tiver mil leitores? Mil leitores que me acompanham com aquela fiel assiduidade do desapreço, que me acompanham com aquela sanha do cupim crítico, só pelo gosto de verificar sempre e sempre: em verso ou em prosa, ele continua uma besta. Faço as contas e me despenco no espinheiro da realidade: meu saldo negativo é de setecentos votos. Sou uma besta.

Por essa e por outras é que não cultivo o jardim dos elogios. Elogio é feito esmola, a gente só dá a quem está precisando.

Entra um escritor num escritório ou num restaurante, onde é apresentado a estranhos. A presença dele é incômoda, vê-se, pela instantânea interrupção da conversa. Todos os olhares se voltam para ele; isso é verdade. São olhares úmidos e caritativos; isso também é verdade. Mas há no brilho desses olhos um palor mortiço. Um palor mortiço de medo. A primeira lição aprendida pelo escritor, mesmo debutante, é esta: meu ofício dá medo.

Todos nós somos tratados com uma solicitude que chega a lembrar a ternura. Mas é de medo. Melhor, de medos. Medo de que o escritor entre na conversa com palavras difíceis e conceitos arrevesados. Medo de que cuspa na mesa uma torrente de palavrões. Medo de que comece a fazer o panegírico de si mesmo e passe aos recitativos. Medo de que beba e coma e saia sem pagar a conta. Medo de que chame os presentes de imbecis. Medo de que esteja fazendo uma coleta de material. Medo de que não tenha tomado banho. Medo de que cante alguém. E medo enfim, medo sutil, de que ele seja uma pessoa normal, um escritor.

No último caso, quando todos os outros medos já foram superados, resta nos olhos úmidos e caritativos dos estranhos, uma dúvida: Que deseja o chato deste escritor?

Ah, é claro, um elogio, dois, três, cinco elogios. É como quem almoça e se livra do mendigo sujo colocando uma fatia de presunto no pão que lhe estende com os dedos esticados.

O elogio é desse modo uma paga pelo bom comportamento do escritor. Não falou de si, não cantou ninguém, não cuspiu nos presentes — tome o seu pãozinho com presunto e chateie.

Não sei quem chutou o outro primeiro, se o escritor ou se a sociedade dos antiescritores; mas sei que não se amam. Não sei se o comportamento dos escritores ao longo dos séculos foi tão abusivo que criou uma espécie de repulsa instintiva nas outras famílias animais. Mas a repulsa existe; apesar dos sorrisos, das gentilezas e do pão com presunto.

Deixe uma resposta

Please enter your comment!
Please enter your name here