O Livro dos Seres Imaginados

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Por Edson Aran

O Mastruço de Platão – O tratado “Dos Elementos Elementares”, do estagirita Aristóteles, registra o curioso mastruço pertencente ao filósofo Platão: “Segundo Helespanto e Helisponto (se os dois não forem um só), Platão possuía um pequeno e diminuto mastruço. O mastruço era muito tímido e vivia encolhido e cabisbaixo, como se fosse um alcaçuz”.Plínio, o Surdo, conta nas suas crônicas (XIII, 17) que escutava os filósofos pré-socráticos correndo atrás de Platão para atirar pedras nele e ridicularizar o mastruço. Platão, no entanto, munia-se de um porrete para afugentar os pré-socráticos e depois afirmava, em alto e bom som, que seu mastruço era apenas a pálida representação do mastruço original – este sim, um gigante – que existia no mundo das idéias. Os pré-socráticos rolavam no chão de tanto rir, o que deixava Platão muito puto nas calças, digo, nas togas.

O poeta irlandês Ollie G. Frenic (1713-1922) refere-se ao mastruço no canto quarto do seu longo poema “Abati o Albatroz”: “Veja você, / O mastruço / Do filósofo Platão / Ele diz que é um gigante / O mundo vê que é anão”

O Wundavar – Odin, o Caolho, teve certa vez um wundavar. Na guerra eterna contra os gigantes do gelo, o wundavar é roubado pelo herói Sïhgwnkgf, Aquele Que Não Consegue Pronunciar o Próprio Nome. Alimentado com leite da Vaca Primordial, Wungunda, o wundavar se agiganta e se transforma no wunvarunga. No Raganarok, o wunvarunga e o wundavar seguirão Thor até o Valhalla, onde, juntos, produzirão um wanderley.

Richard Wagner pensou, certa vez, em adaptar a lenda do wundavar para uma ópera. Mas levou um tapão no pé do ouvido e mudou de idéia.

O Estranho Bicho de Monsieur Toillet – Num dos volumes da Biografia Aérea de Mme Meretrce Duponteneuf, surgida na França do século 19, a autora fala com admiração da bizarra criatura de certo Monsieur Toillet.

Ao ser tocado, o bicho cresce e ganha proporções volumosas. Devidamente manipulado, segrega um líquido espesso e depois se entrega a um repouso lânguido e, quero crer, sem sonhos.

Monsieur Toillet era muito afeiçoado ao bicho e recusou vistosa fortuna para abrir mão dele.

O Lula de Duas Cabeças – Yoaslav Ptolomeu, o Velho, o chama de A Grande Besta (Tratado das Grandes Aberrações, Volume 2). O Lula de Duas Cabeças é, em sua origem, uma divindade da antiga Néscia, mais tarde adotada na parte sul do Embustão. Nesta época, o Lula tem apenas uma cabeça e sua chegada prenuncia uma era de conquistas e mudanças.

No decorrer das eras, a criatura se modifica, crescendo em fealdade e horror. Nasce uma segunda cabeça, mais conformista e conformada, disposta a negociar seus favores pela melhor oferta. Reduzido a uma divindade menor, o Lula de Duas Cabeças acabou perdendo adeptos, embora tenha sido, até o inevitável ocaso, bastante popular no Embustão.

Yoaslav V. Sweemborg (1515-1435) observa que a linguagem da criatura é sempre peculiar nas várias encarnações. O ser grotesco desconhece o plural, não pratica a concordância verbal e nunca diz coisa com coisa. O Lula de Duas Cabeças tem quatro patas e, ao se locomover, é comum que ele tropece nas próprias pernas. Quando isso acontece, os néscios o aplaudem e louvam sua autenticidade.

Autanálisis e Tália – O dramaturgo grego Autanálisis era famoso por suas tragédias que versavam, basicamente, sobre a guerra de Tróia. Era sempre Ajax, Páris, Aquiles, Ulisses e Agamenon.

Um dia, porém, depois de ter escrito todas as variações possíveis sobre a guerra (incluindo um drama claustrofóbico passado dentro do cavalo), Autanálisis sentou numa pedra e clamou:

“Oh, musas, preciso de uma idéia pra emocionar a platéia!”

Nem bem havia clamado, Autanálisis viu uma moça toda sinuosa com dois peitões que quase pulavam pra fora da toga.

Ele abateu a moça no seu cafofo e, antes mesmo de acender um cigarrinho, o dramaturgo viu surgir na sua mente uma tragédia inteira, com três atos, prólogo e epílogo, mais a participação de Zeus e metade do Olimpo.

“Oh, musas, obrigado, obrigado!”, disse Autanálisis, caindo de joelhos.

E a moça do peitão, ainda arrumando a toga.

“Obrigado, o cacete! São 300 dracmas, mais o dinheiro da liteira…”

O Obstrúcio – Vompla, um deus menor do Embustão, tinha preso à sua cintura um Obstrúcio. No livro duodécimo do “Nabundarama”, saga meticulosa composta por um místico de mente incerta, o Obstrúcio cai na Terra, produzindo os pântanos e as panquecas, os paquidermes e os pequineses, os pandemônios e os pandeiros.

Diz-se que o grego Ovíparo teria pegado um Obstrúcio durante uma viagem à Trácia. Mas ele largou assim que a coisa virou um obstetra.

Bucéfalus e Tesuda – Tesuda, filha do herói Teseu com a rainha Boazuda, detestava viver em Creta, onde vivia cercada por todo tipo de cretino.

“Ai, como você é Tesuda!”, dizia o cretino e, não contente, ainda acrescentava “um dia você vai tropeçar nesse orgulho e cair nos meus braços, minha deusa!”

Pior era Zeus que, doidão por Tesuda, virava galo, touro, leão, cavalo e, em noites de nenhuma imaginação, até preá e ornitorrinco. Toda manhã ela tinha que chamar a prefeitura pra recolher os animais na porta. Um saco. Ou sapo, de vez em quando.

Cansada de tanto assédio, Tesuda atravessou o mediterrâneo e foi dar na Tessália, onde casou com o rei Bucéfalus. A filha deles, Bucetuda, não passa em Creta nem fodendo.

O Centauro e o Filósofo – Quíron, o mais sábio dos centauros, costumava participar de grandes debates filosóficos na acrópole de Atenas. Um dia, porém, ele acabou por irritar Platão, ao provar que o filósofo só negava a realidade objetiva para não ter de pagar suas contas.

Injuriado com o centauro, Platão disse: “Meu caro Quíron, você é uma criatura meio homem e meio cavalo. Devo, portanto, concluir que você é filho de uma égua?”

O centauro deu as costas e o filósofo, feliz da vida, olhou pra Sócrates e falou: “Viu só? Acabei com o jumento…”

Mas então Platão levou um coice na fuça tão forte que fez com que ele atravessasse Atenas, Corinto, Olímpia e metade do Peloponeso.

Zeus, que presenciava a cena do monte Olimpo, quase se mijou de tanto rir. Na confusão, o pai dos deuses derrubou um raio que caiu bem em cima de Esparta, transformando a cidade inteira em ruína.  Nasceu daí a expressão “vá pro raio que Esparta!”

Platão, depois disso, nunca mais deu bom dia ao cavalo.

Os Monstruosos Burocratas – Há na Terra, e sempre houve, 23 Monstruosos Burocratas cuja missão é intermediar as orações dos homens aos deuses.

Sempre que um ser humano faz um pedido aos céus – ganhar sozinho na loteria ou passar o rodo na gostosa do marketing – as criaturas recebem a oração e iniciam seu trabalho. O pedido veio em quatro vias? Todas as vias estão rubricadas? O crente mostrou comprovante autenticado de sua fé absoluta nos imortais? E o atestado de bons antecedentes?

Os Obtusos, povo que habitou a antiga Demência Meridional, ofertavam tinta de carimbo e papel em branco aos Burocratas a fim de que suas preces fossem mais rapidamente atendidas.

O grego Ovíparo (Livro XIII), no entanto, atesta que os Monstruosos Burocratas exigiam que as oferendas obtusas fossem feitas no templo dos Burocratas Menores e, apenas depois de 1.000 anos de análise, fossem encaminhadas aos Burocratas Maiores, onde repousariam por mais 2.000 anos.

Emanuel Swedenborg (1688-1772), o filósofo, duvidou em obscuro tratado da existência dos Burocratas. Mas como o texto não estava devidamente rubricado e carimbado, os Burocratas o aboliram da realidade.

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