O futuro tem futuro?

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Beautiful Young Woman serving salad

Por Millôr Fernandes

Não sei se é porque eu pareço muito pra frente ou se é, mais justamente, porque o longo passado percorrido me dá mais competência de futurólogo, que as discussões comigo acabam caindo no mundo que vai ser ou como vai ser. E eu estou sempre sendo esmagado, lutando contra os que veem no futuro um mundo cor-de-rosa de hippies na deles, fumando e querendo bem, e os que os brancos só conseguem avistar, sobretudo da China, dominando mundo nenhum, mas apenas, lá onde devia estar o futuro, um imenso big bang sem soluço. Porém eu, imprevisível, traço lá as minhas predições!

O futuro vai ser cheio de invenções, todos sabem, e de desinvenções, que quase ninguém sabe. Vão desinventar o avião, desinventar a televisão e desinventar o telefone. Os desinventores serão os caras de maior prestígio no mundo de amanhã.

Aliás, eles já começaram a aparecer e demonstrar sua força no caso do avião SST, Supersupersônico. O Senado americano, pressionado pelos desinventores do Estados Unidos, mandou às favas o SST, protótipo do avião dos aviões, no qual já se havia gasto mais de oitocentos milhões de dólares (a estimativa final era de apenas cento e trinta milhões), recomendando a quem quiser chegar a Paris em três horas em vez de seis que pegue outra barca, outro módulo, outro sistema social, outra megalomania. Amplos aplausos aqui destas modestas páginas.

As mulheres, que ultimamente enguiçaram com a feminilidade (quer dizer, culpam os homens por estarem todos virando bichas e, paradoxalmente, botam a boca no mundo porque os homens querem que elas sejam objetos e símbolos sexuais, coisas das quais eu nunca vi a Greta Garbo nem a Candice Bergan se queixarem), serão substituídas com grande vantagem (já estão sendo) por bonecas de borracha, macias, dóceis, bem aquecidas e… infláveis.

Quer dizer, pela primeira vez, na história do sexo, os homens vão poder encher as mulheres à hora que quiserem. Isso possibilitará, também, aos homens, a libertação da “terrível opressão feminina”, pois nem mais pensarão em divórcio. Quando – apesar de tudo – uma dessas mulheres do futuro o estiver chateando, o homem pega um alfinete, fura ela e põe no lixo.

O Estado, altamente organizado, terá controlado totalmente as endemias, epidemias, parentes desagradáveis, ar encanado, barulho em cima quando a gente está embaixo ou vice-versa, educação primária, secundária e terciária e plantações de maconha (com napalm, naturalmente) de modo geral.

A Federação será uma força verdadeira, em âmbito praticamente universal, e a garotada treinará tiro-ao-alvo com as figuras de Papa Doc, Franco, Kossíguin e a mamãe Kennedy, ô velha chata! O mundo, naturalmente, verá uma nova onda de escravatura, sobretudo para Gana e Kenya, que importarão gigantescas quantidades de escravos brancos dos Estados Unidos.

O país mais poderoso do mundo, o Paraguai (porque, quando houve a guerra atômica, ninguém se lembrou de jogar uma bomba lá), terá dominado inteiramente o mercado internacional e, em toda parte, críticos musicais discutirão a extraordinária força musical do índio paraguaio e a beleza sem par da guarânia.

O sexo terá sido completamente esquecido na maior parte da Terra e milhões de turistas visitarão anualmente os museus da Escandinávia para saber como é que era. Mas a coisa parecerá tão absurda que mesmo os mais velhos se dedicarão apenas umas dez vezes por semana à pratica sexual.

Ainda assim os governos tenderão a incrementar a desincrementação do sexo taxando-o de tal forma que os poucos apreciadores recorrerão a subterfúgios (alguns já em uso atualmente) e a call-girls (e call-boys) de outros planetas (Vênus, de preferência).

O Rio de Janeiro gelará, o pólo norte ficará completamente derretido, estudantes americanos só farão seus cursos superiores na União Soviética e voltarão mais capitalistas do que nunca e os estudantes soviéticos, completando seus cursos nos Estados Unidos, voltarão louvando a excelência e a liberdade da Rússia.

Um desvio muito pequeno da órbita lunar trará à Terra ondas tão gigantescas que os atuais maremotos do Paquistão serão usados para surf e outros esportes semelhantes.

As viagens interespaciais provarão, entre outras coisas, que há muito espaço em volta da Terra, mas a tentativa de enlatar espaço para colocar em áreas superpovoadas não dará certo. (O pouco sexo existente, contudo, a essa altura, já será vendido em lata, embora seja consumido só nas classes proletárias: as classes A e B acharão sexo enlatado coisa de muito mau gosto, a não ser, naturalmente, o importado do Paraguai).

Os primeiros astronautas (martenautas e plutãonautas para ser mais específico) descobrirão que há vida nesses planetas. Marte é coberto de trapoeraba, legume preferido pelos coelhos, mas, estranhamente, nenhum coelho será encontrado em Marte, o que torna a vida em Marte absolutamente ridícula (aliás, como aqui). Já em Plutão os navegadores encontrarão milhões de lâmpadas queimadas e jamais saberão o que isso significa.

O sistema cardíaco do homem terá sido inteiramente alterado. As crianças, assim que nascerem, terão seu coração substituído por um implemento mecânico, os rins serão colocados nos joelhos para possibilitar maior exercício enquanto as pessoas andam e um olho traseiro, há tanto reivindicado pelos automobilistas, será uma realidade, muito embora o automóvel já tenha sido desinventado.

Apesar do esforço das Betty Friedans e congêneres, as diferenças de sexo não terão desaparecido graças, sobretudo, a dietas obrigatórias legisladas pelos governos patriarcais, dietas essas à base de “escargot aux fines herbes avec la femme du boulanger dans le jardin de mon oncle”.

As abelhas, passando a se alimentar de carne, terão crescido de maneira descomunal, e os elefantes, cuja dieta, por necessidades geográficas, passou a ser mel, estarão reduzidos a tamanho quase invisível e voarão utilizando a propulsão das orelhas (que não terão diminuído proporcionalmente) e começarão a construir casulos.

O uso de DDT e outros desinfetantes não terá, como temem muito ecologistas, ocasionado a extinção do canto de rouxinóis e sabiás. Antes muito pelo contrário, fará com que se desenvolva, de maneira extraordinária, o canto dos avestruzes, pavões e girafas: as florestas serão ensurdecedoras.

A nudez será tão comum que as pessoas que andarem vestidas serão presas por atentado ao impudor.

Uma palavra final, por questão de honestidade e precaução: quase todas as minhas previsões podem nem se aproximar da realidade futura, já que os dados que tenho são todos incrivelmente errados e minha cultura completamente falha.

Além disso, já há quase certeza de que a ciência em que nos baseamos atualmente é completamente anti-científica, nada do que se diz ou se escreve em nosso tempo tem o menor sentido, o comportamento humano é uma absoluta cretinice e ninguém sabe prever nem sequer com quem vai acordar amanhã de manhã.

E, além do mais, e mais que tudo, é muita pretensão a gente ficar por aí prevendo o futuro num mundo em que o uso descontrolado do cartão de crédito já é uma espantosa realidade.

 

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