O fim de Michael

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Por Edney Silvestre

Sabe aquele americano muito claro, cabelos cor de palha, olhos azuis desbotados? Aquele de ombros largos, mais de um metro e oitenta, atleta razoável na universidade, aluno brilhante, já empregado antes de terminar o curso e no topo da profissão antes de chegar aos 35 anos?

Daqueles que desaparecem nas ruas dos Estados Unidos, confundido com milhões de sósias tão altos quanto, com os mesmos cabelos, olhos, maneiras que os fazem parecer transparentes?

Michael era assim.

Com uma diferença, porém (aliás, duas; mas a segunda os amigos só estão descobrindo – boquiabertos – agora).

Michael era um namorador.

Explicando melhor: Michael era louco por mulher. Não apenas a sua, uma bela morena esguia, de longas pernas bem-torneadas, herdeira do que pode haver de melhor na mistura de sangue francês e negro. Secretárias, conferencistas, advogadas, garçonetes, executivas, aeromoças, recepcionistas de hotel – aonde quer que o levassem suas funções de especialistas em telecomunicação, o sangue de Michael se punha a ferver.

Breve parênteses: Michael não era um priápico devasso, um womanizer insensato ou mero predador. Longe disso. O apelo carnal que sentia indistintamente por todas as mulheres do mundo vinha sempre acompanhado do coração.

Com carinho envolvente e um desempenho infatigável, Michael provocou erupções de orgasmo de Jacarta a Madri, para não citar os inúmeros motéis próximos a Washington, onde esta história se passou. Sem que interferisse na enorme paixão por sua mulher Valerie, com quem mantinha pelo menos um ardente entrelaçamento físico diário.

Nos finais de semana, as chamas ardiam com tanta intensidade que o casal se viu obrigado a contratar duas babás, um para a parte do dia, outra para a noite. Tudo isso por trás de uma aparência de pároco da abadia de Westminster.

Conheci Michael – e admito que não percebi nada do que já estava acontecendo – durante a festa de réveillon em que o advogado Raul R. comemorava a eleição de Bill Clinton e “o que se espera seja o começo de uma nova era”, como dizia o requintado convite.

Não fosse pelos acontecimentos posteriores, nem mesmo me lembraria dele, pois, sósia de outros dez ou doze entre os cinquenta convidados, fundia-se e se confundia com eles. Só que, para Michael, a nova era já tinha começado. Justamente por isso, eu saberia depois, ele fora reticente em aceitar o convite. E, nos meses que se seguiram àquela requintadíssima celebração, apesar de falar com Raul frequentemente por telefone, sempre encontrava desculpas para não se encontrar pessoalmente com ele ou com qualquer outro amigo.

Assim foi de janeiro a maio. Em meados de junho, surpreendentemente, foi Michael quem ligou para Raul. Queria encontrá-lo. Tinha algo vital para lhe dizer. Mas não poderia ser em lugar público. E marcou: Raul deveria esperá-lo dentro do carro, com a capota de seu Saab conversível abaixada, no interior da garagem de um shopping mall, no início da noite. Era assunto sobre o qual não podia adiantar nada via telefone. Apenas tranquilizou-o não se tratar de problemas de saúde.

Raul esperou em vão. Michael não foi ao encontro nem nunca mais foi visto em Washington. Ou sobre qualquer outro ponto da face da Terra, por sinal.

Outra pessoa, contudo, entrou no automóvel de Raul. Uma mulher alta, vestindo pantalonas, blusa de seda estampada, muito colares. Seus cabelos lisos, na altura dos ombros largos, eram de um tom louro-palha. Os olhos, de um azul desbotado, tinham um risco de lápis em torno. Estatelado, Raul reconheceu por trás da maquiagem discreta a figura que conhecera como um dos maiores namoradores da capital americana.

– Sei que deve ser um choque para você – disse-lhe a mulher grandona, com a voz que Raul conhecia tão bem. – Agora me faça as perguntas que quiser.

Michelle, como agora se chamava, não estava fantasiada, não tinha fetichismo por roupas femininas, não abandonara a mulher ou o casal de filhos, muito menos o emprego. Michelle era transexual. “Uma mulher aprisionada num corpo de homem.” Estava tomando hormônios. A esposa estava a par de tudo e apoiando a transformação. “Transformação?”, espantou-se mais ainda Raul. “Mudança de sexo”, confirmou Michelle. Com operação radical marcada para dezembro.

As crianças, a mãe tradicional e a nova mãe estavam todas comparecendo regularmente a uma terapia de família, para que atravessassem melhor a metamorfose do antigo pai. “Mas… mas…”, balbuciou Raul, tentando colocar sentido no que ouvia e lançando um derradeiro argumento para contradizer tudo aquilo, “você sempre pareceu tão interessado em mulher, namorou praticamente todas as que eu conheço, conquistou quem quis, teve casos em todas as capitais da Europa e em metade da Ásia. Era tudo mentira? Era tudo fachada?” “De jeito nenhum”, revoltou-se Michelle. “Então”, sucumbiu Raul, “por que fazer isso?” “É simples”, concluiu Michelle com um sorriso triunfante. “Eu sou lésbica.”

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