O fabuloso Sylvio Redinger, mais conhecido como Redi

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André, Paulinho da Viola e Redi

Fevereiro de 2004. O jornal O Globo traz uma pequena notinha na quarta página de seu caderno de variedades, edição de sábado, intitulada “Morre o cartunista Sylvio Redinger, conhecido como Redi”:

O cartunista sofreu um infarto na madrugada desta sexta-feira. Redi estava com 64 anos. Há 25 morava em Nova York, mas morreu no apartamento dele no Rio de Janeiro. Fez diversos trabalhos na TV Globo. O enterro está marcado para 13h, deste domingo, no Cemitério Israelita de Vilar dos Teles, na Baixada Fluminense. As duas únicas ilustrações de capa da história do jornal The New York Times foram feitas por Redi.

No mesmo sábado, dia 14, o também cartunista Ricky escrevia no seu blog pessoal:

Eu ia fechar o sábado com o Jaguar, mas acabaram de me telefonar dizendo que o Redi teve um enfarte enquanto dormia e morreu.

Redi era um personagem. As coisas mais improváveis aconteciam com sua rotunda figura. Ana dizia que fisicamente ele se parecia com o Jeremy Hillary Boob, o Nowhere Man do Yellow Submarine.

Redi era um exímio cartunista e ilustrador. Criou tantos cartões para a Requinte e outras empresas que para toda uma geração suas figuras cartoony eram sinônimo de cartão de aniversário e outras ocasiões.

Ilustrou as melhores publicações brasileiras dos anos 60 e 70, depois foi pra New York onde seu grafismo evoluiu mais ainda e tornou-se conhecido por especialistas do mundo inteiro.

Os leitores brasileiros mais novos pode ser que o conheçam pelas suas crônicas na revista Bundas contando justamente suas desventuras em NY.

Aí resolveu voltar ao Brasil. Se reestabelecer no Rio. Seria um dos jurados do novo Salão Carioca de Humor, mas – típicamente Redi – na última hora não pode ir.

O episódio de sua não ida, claro, foi outra história mirabolante resultando nele ficar retido na Barra e… bem, a maneira dele avisar que não poderia chegar a tempo foi assim:

Ele ligou pro Jaguar perguntando: Jaguar, será que se eu não for no julgamento, o Chico Caruso vai ficar puto?

Aí ligou pro Caulos: Caulos, se eu não for no julgamento o Jaguar vai ficar puto?

Aí ligou pro Chico Caruso…

Isso foi nesta semana.

Aí me ligaram. Amanhã de manhã será enterrado no Cemitério Israelita em Vilar dos Teles. A pessoa que me ligou ainda comentou: Pô, mas o Redi até pra morrer é complicado. Arrumou um cemitério longe pra cacete!

Amanhã escreverei mais sobre Sylvio Redinger.

É mais um da turma do Pasquim que se vai…

Na sua edição de segunda-feira, o já decadente Jornal do Brasil foi bem menos parcimonioso:

Alguém que sempre amou a vida, com múltiplos talentos e total desprendimento. Assim o cartunista Redi (Sylvio Redinger) foi definido por amigos como Chico Caruso e sua mulher, Eliane, o cantor e compositor Paulinho da Viola, a jornalista Dilma Frate, e os cartunistas Nani e Millôr Fernandes. O cartunista carioca, de 64 anos, que morreu vítima de um infarto sexta-feira, foi enterrado no início da tarde de ontem no Cemitério Israelita de Vilar dos Teles.

Segundo Luiz Redinger, irmão do cartunista, as muitas histórias contadas durante o velório amenizaram a tristeza da despedida. Uma delas foi relatada por Chico Caruso, que falou sobre a faceta musical do colega, que, morando em Nova York, sempre que podia participava dos shows humorísticos dos irmãos Caruso. “Era um grande reforço com seu tamborim”, disse Chico. “Redi fazia tudo com prazer e humor. No filme ‘Isso é problema seu’, ele fez o papel de um investidor que sai do prédio da Bolsa de Valores e sofre um ataque cardíaco. Acaba cuidando de seu próprio enterro, desce à sepultura batucando no caixão e pedindo: ‘Garçom, me dá uma cerveja que vou beber até viver!’”

Contemporâneo de Redi e co-diretor do curta, o também cartunista Nani completou: “Filmamos em 1974 e Redi era um ótimo ator, mesmo não tendo prosseguido. Ele tinha um humor sofisticado, mas também era muito popular.” E Caruso acrescentou: “Sabe a história da pessoa certa na hora e no momento certos? Redi nunca seguiu isso, era o antioportunista, não pedia nada a ninguém, mesmo com amigos importantes.”

Radicado nos EUA desde os anos 80, Redi trabalhou no New York Times, assinando as duas únicas charges publicadas na capa do jornal desde a sua fundação. Redi conseguiu seu green card graças a uma carta do jornal americano, como lembrou seu irmão. “Nessa carta, que foi lida no enterro por minha cunhada, eles diziam que seria muito difícil achar um americano com tantas qualidades como as daquele brasileiro”, contou o irmão. “Redi tinha particularidades que faziam dele alguém muito especial. Era ambidestro, mas escrevia com a direita e desenhava com a esquerda.”

Na quinta-feira seguinte, na coluna semanal que mantinha no jornal O Dia, o cartunista Jaguar publicou o seguinte texto, simplesmente intitulado “Redi”:

Estávamos, Ivan Lessa e eu, fechando mais um número do Pasquim da redação da Saint Roman quando o Redi adentrou a minha sala. Pelo menos duas vezes por semana, ele ficava andando na frente da minha mesa pra cá e pra lá até eu perguntar: “Que aconteceu desta vez, Redi?”. No que invariavelmente dizia: “Contando, ninguém acredita” e contava uma história inacreditável, mas com ele tudo podia acontecer. Desta vez, foi direto ao assunto: “Estou com dores no peito”, disse para o Ivan. “Acho que vou ter um enfarte”.

“Claro que vai ter”, rosnou o campeão do mau humor. “Mas com tudo que temos direito”, acrescentou. Jogou-se no chão, emitindo roncos apavorantes, rolou no tapete e finalmente estatelou-se com os olhos vidrados, a língua pra fora. Redi ficou tão impressionado que esqueceu o enfarte e voltou para sua prancheta.

Além de ser um cartunista de sucesso internacional, ele era a personificação do judeu errante. Voltou definitivamente de New Jersey inumeráveis vezes. Há 20 anos, era meu vizinho no Leme. Uma vez me pediu para arranjar um professor de tamborim. Liguei para o Gargalhada, o Paganini do tamborim. Às vezes eu passava no apartamento dele e deparava com uma cena que “contando ninguém acredita”: o Gargalhada dando aula, cada um com seu tamborim.

Acompanhou Emilinha Borba numa turnê pelo Egito e fundou em Nova Iorque o conjunto Rio Samba Jazz, que se apresentou na Trump Tower. Depois aprendeu a tocar cuíca e executava o Samba de uma Nota Só nos shows dos irmãos Caruso. Na semana passada, como não tinha o Ivan para avacalhar seu enfarte, morreu. Ou foi para Nova Jersey, o que dá no mesmo. Um dia desses nos encontramos mais uma vez no calçadão do Leblon.

Ainda sobre o Sylvio Redinger, o Redi, o jornalista Nei Lima, seu amigo de longa data, escreveu o seguinte texto:

Era um tipo grandalhão, desajeitado e um puta desenhista. Muito mais do que isso ele também trilhava pelos caminhos da música, à vontade com vários instrumentos. Os de percussão ele tirava de letra.

Pra quem pensa que o Redi só fazia cartuns, ele também, gostava de pintar e fazer desenhos bem artísticos. Fez até uma exposição no passado em Nova York. Já atuou como ator, fez redação de humor para o Pasquim e Rede Globo.

Em março, no dia 1º, ele ganhará uma homenagem durante a abertura do 15º Salão Carioca de Humor, com uma exposição na Casa França-Brasil, onde será também exibido o curta metragem “Isso é problema seu”, que fez com o cartunista Nani, nos anos 70, em que ele participa como ator. Há uma cena em que o carrega o próprio caixão, caminhando pela Avenida Rio Branco.

Aqui vai um trecho do periódico The New York Times, de 3 de abril de 1984, sobre o Redi:

“(…) Durante o ano passado, The Times usou as ilustrações do senhor Redinger em sistema de freelance. Suas ilustrações chegaram até mesmo a aparecer na primeira página do The Times, o que é uma raridade para um ilustrador. Como encontramos no senhor Redinger um artista de alto calibre sob a pressão do fechamento, estamos oferecendo-lhe um contrato de longo prazo, que nos dará o privilégio de nos beneficiar de seus serviços por tempo integral. Nós respeitosamente pedimos ao Serviço de Imigração e de Naturalização que a nossa petição seja expedida o mais rapidamente possível, para que assim o senhor Redinger tenha a permissão de contribuir com a nossa publicação por tempo integral.”

E, abaixo, alguns de seus trabalhos:

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