O esticador do verso

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Conheça as bifurcações líricas do piauiense Demetrios Galvão, herdeiro poético de Torquato Neto e Mário Faustino

Por Paulo Vasconcellos (*)

Demetrios Galvão é um desses raros brasileiros que perseguem do verso ao vento e aos amigos, numa febre sã de compreensão e pausa. Um poeta que cumpre o mandato filosofal, como aqueles que lê, Orides Fontela e António Ramos Rosa, o grande português, entre outros. Além do mais, ele representa, sem arroubos, a intelectualidade do Brasil.

Nascido em Teresina (PI), é historiador e poeta. Publicou os livros Cavalo de Tróia (2001), Fractais Semióticos (2005), Insólito (2011), Bifurcações (2014) e foi um dos editores do blog Poesia Tarja Preta (2010-2012) e da AO-Revista (2011-2012).

Atualmente, é um dos editores da revista Acrobata, das mais sérias do País. Ivone Benedetti quem me chamou atenção para sua importância. Acrobata trata de literatura e audiovisual e tem conjuntamente na coordenação o poeta Thiago E. e o pesquisador de cinema Aristides Oliveira. A revista é editada em Teresina, com colaboradores espalhados pelo Brasil e pelo mundo (http://bit.ly/1yJdiFM).

Bifurcações (2014) tem a força das imagens (a partir da capa, mas não só) e a convicção dialogal com o onírico, evitando a realidade óbvia. Diz o poeta: “A poesia é para esticar o mundo e criar possibilidades que a história não consegue alcançar”.

Na apresentação deste livro, o poeta Afonso Henriques Neto afirma: “Assim, é grande a alegria de saudar este poeta piauiense, que trilha cintilantes caminhos em que se incluem dois nomes coestaduanos de notável projeção nacional na contemporaneidade: Mário Faustino e Torquato Neto”. No que está correto e legítimo.

Deixemos soprar o vento da poesia de Demetrios:

“o silêncio do sono é o trabalho de imagens profundas

o barulho das ruas são palavras praticando o alfabeto

(…)

o silêncio do escuro é um segredo em absoluto

o barulho do alfaiate roupa nova no armário.”

E,

“(…) bifurcar-se é quando um filho inventa um

pai (…)”

“ainda é possível esticar o mundo com a palavra

poética

se aliando ao balé das arraias

aos porteiros que abrem os caminhos do mundo

às armas de misericórdia dos infames

aos livreiros da diáspora

às mercearias que sediam confrarias fugazes

aos tuaregues mensageiros dos ventos-suburbanos

aos engenhos e cachaças mágicas

aos taxistas sobrenaturais que detêm a arte

dos atalhos

ao cinema do oriente abandonado

às musas que habitam os labirintos da memória

aos andaimes dos cemitérios da carne

aos carteiros que espalham pontes silenciosas

às chuvas que inventam estradas aquáticas

aos jardineiros que curam e fazem partos nos

canteiros

aos gatos que amaciam os recantos da cidade

aos pintores alados que enfeitam os muros

aos bem-te-vis arquitetos do assovio

às crianças que dominam gramáticas horizontais

… é possível esticar o mundo.”

 

É necessário conferir este grande poeta e buscar bifurcações nas realidades autômatas.

 

(*) É paraibano, mestre e doutor pela ECA-USP. Professor de Teoria Literária em universidades privadas e consultor editorial da área de Literatura, além de contista e poeta com livros publicados (paulovasconcelos@brasileiros.com.br).

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