O Don Juan da Velha Caxuxa

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Sadok Pirangy e Ivan Chibata fazendo baque...

O bicheiro Ivan Chibata era casado com a Milka Albuquerque, com quem tinha dois filhos espertíssimos, Iguatemi e Ivana. O garoto Iguatemi era o Homem-Rocha, porque possuía uma força descomunal pra sua idade. A menina Ivana era a Princesa de Xanadu. O casal de moleques era o quindim do bicheiro.

Enquanto Ivan Chibata tinha um tipo físico mirradinho, quase raquítico, Milka era exuberante, grandona, poderosa. Os braços dela eram mais grossos do que as coxas dele.

Não bastasse isso, a Milka tinha um ciúme doentio do Ivan Chibata. O bicheiro devia saber dar conta do recado nos embates de Eros, o que talvez funcionasse como precioso combustível para realizar sua obsessão de se transformar em um novo Don Juan da Cachoeirinha.

Ivan Chibata foi o primeiro sujeito a me explicar didaticamente que mulher gosta mesmo é de dinheiro, quem gosta de pica é viado.

Cheio da grana da noite pro dia, depois que se transformou em bicheiro, ele devia saber do que estava falando.

Se ainda hoje as pessoas se escandalizam com isso, imaginem naquela época.

O diabo é que esse aforisma dele permanece mais atual do que nunca, para desespero de alguns românticos tardios.

Algumas pequenas histórias dão bem a medida do temperamento do Ivan Chibata, que sempre lutou para manter a família longe da linha de fogo.

Uma madrugada qualquer, ele saiu da sua banca no Conjunto Dom Pedro II, passou na boate Catedral (uma espécie de boate Rêmulo’s da época), pegou sua musa favorita e foi para o Bar Porta Aberta (que tem esse nome exatamente porque não tem portas, funcionando 24 horas por dia, de segunda a segunda, desde que foi aberto já se vão uns bons 25 anos), localizado ali na Rua Silves, próximo do Conjunto Jardim Brasil.

O Ivan Chibata estava ali, beijando ardorosamente a sua princesinha enquanto esperava uma sopa de mocotó, quando a Milka, que ia passando em seu carro pela rua, reconheceu o “Trovão Azul” (o famoso Opala azul-turquesa do bicheiro).

Na maior calma do mundo, Milka estacionou seu carro e, sorrateiramente, se aproximou da mesa.

Aí, não contou conversa: deu um incrementado telefone duplo nos dois pombinhos, e, como se nada tivesse acontecido, saiu do bar, entrou no seu carro e foi embora.

A porrada no pé do ouvido do casal, entretanto, tinha sido violentíssima. Os dentes do Ivan quase haviam decepado os lábios da moça.

Ele também havia batido com a testa no supercílio da menina, de onde agora descia uma cachoeira de sangue.

Ainda meio grogue, a garota limitou-se a esbravejar, no seu linguajar específico:

– Puta que pariu, Ivan, quem é essa filha da puta?…

Ivan Chibata, encolerizado, não tergiversou:

– Respeite a doutora Milka Vaz de Albuquerque, mãe dos meus filhos, sua vagabunda!

E, cataplum! – meteu um uppercut no meio da lata da sua acompanhante, que quase lhe quebrou a metade dos dentes.

Imediatamente, os seguranças do bicheiro levaram a menina para uma clínica particular, com a recomendação expressa de fazer uma lanternagem completa na fuselagem da vadia.

Ivan Chibata pagou a conta e se mandou do boteco em busca do perdão da esposa.

Uns seis meses depois, o empresário Frank Cavalcante para em frente da casa da Milka e avisa:

– O Ivan Chibata está ali no Bar da Alzira com uma gatinha de 16 anos…

Milka nem pensou duas vezes. Entrou no primeiro carro estacionado na porta da sua casa e se mandou pra lá.

Ela parou em frente à casa do Sici Pirangy e, sorrateiramente, se aproximou da mesa onde o bicheiro conversava animadamente com Sadok Pirangy.

Havia três garotas na mesa, provavelmente apontadoras da banca de bicho, já que eram feinhas de dar dó.

Cara a cara com o marido, Milka, sem dizer uma palavra, deu-lhe um tapão de mão aberta no meio do rosto, que quase lhe arrancou a cabeça do pescoço, tal a violência da porrada.

Aí, do jeito que chegou, foi embora.

O clima na mesa era de velório.

Passando a mão no rosto, Ivan Chibata minimizou o incidente:

– Porra, Sadok, tu já pensou se eu tivesse caído, hein? Que mico, hein? Que mico, cara, que mico? Eu ia ficar desmoralizado aqui na Alzira, não ia não? O foda é que eu sou duro na queda! Eu sou que nem bambu: envergo, mas não quebro.

Aí, se levantou da mesa e começou a recitar uma quadrinha vagabunda que aprendera em uma de suas viagens por Minas Gerais, como se estivesse dançando consigo mesmo: “Nóis enverga mais não quebra, nóis chacoalha e não derrama / Nóis balança mais não cai, nóis é brabo e bom de cama / De bobo nóis não tem nada, só a cara de coitado / Nóis se finge de leitão, pra poder mamar deitado”.

Depois, pediu mais uma cerveja e passou o resto da noite morrendo de rir da presepada.

Em outra ocasião, durante uma conferência de apostas na fortaleza do bicheiro, o casal iniciou um bate-boca na frente dos funcionários provocado, evidentemente, por mais uma crise de ciúmes da fêmea.

No meio da discussão, Milka pegou na gaveta o Colt 45 de cabo de madrepérola, apontou pro bicheiro e avisou:

– Ou de hoje em diante você aprende a me respeitar como sua esposa, seu Ivan Albuquerque, ou eu vou agora mesmo lhe encher o peito de chumbo!

O bicheiro não se avexou. Abrindo a camisa, ele ofertou seu raquítico peito à esposa:

– Vamos! Atira! Silencia esse coração que tanto te ama…

Ouvindo aquilo, Milka guardou nervosamente o revólver na gaveta, ensaiou um pedido de desculpas e se abraçou emocionada com o marido.

Ivan Chibata acabara de conquistar um salvo conduto para mais uma semana de aprontos inimagináveis. Era um gênio.

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